Pantera: Poesia popular não rima com ditadura da gramática

Sabe pra que serve o seu majestoso português?
Pra julgar formas e não conteúdos.
Você é uma vítima da ditadura da gramática
Com seus conceitos pragmáticos miúdas
Tenta desqualificar a poesia popular
Com seus comentários rasteiros absurdos. 

“Lá pelos idos de mil e quinhentos
Perto do Monte Pascual
Os índios veios nojentos
Comeram o C… fedorento
De Pedro Álvares Cabral “.
Pelo seu português fino burguês
A poesia de Zé Limeira é uma agressão aos bons costumes e a moral sexual.

“Cheguei na beira do porto 
Onde as águas se espraia
As garça da meia vorta
E senta na beira da praia”.
A raiz sertaneja da Pena Branca e Xavantinho
Na concepção do seu português afiado deve ser cortado de navaia.

“Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas assum preto, cego dos oio
Não vendo a luz, ai, canta de dor”
Então a poesia de Luiz Gonzaga
É um fuzilamento do português. Não é…, Seu doutor?.

“C…, pra conservar as tuas pregas
Não precisa de muito luxo
É só limpar com macegas
No velho estilo gaúcho”
Nesse caso, a poesia do sulista gaúcho da fronteira
Pra o seu bom português é merda no cartucho.

“Acorda! Maria bonita
Acorda! Vai fazer café
Que o dia já vem raiando
E a puliça já tá de pé”.
Segundo seus conceitos gramaticais
A poesia cangaceira era do português da ralé.

“Hoje nois bebe tudo, hoje nois atrapaia, hoje nois vira mundo
Hoje ninguém trabaia, hoje nois fica louco,hoje nois vai vê
Fumo, hoje nois não é mais, que um monte de vagabundo “.
O que essa poesia de Sérgio Reis representa pra você?
No mínimo você a classifica de português imundo
Sabe de uma coisa? Pegue os seus conceitos, leve pro inferno junto com ocê!.

E esse verso?
“Minha mãe certa vez disse-me um dia
Vendo minha obra exposta na galeria
Meu filho, isso é mais estranho que o cú da jia”.
Então para o seu português:
A poesia e Zé Ramalho e Zeca Baleiro é uma verdadeira porcaria. 

“Agente não sabemos
Nem escovar os dente
Tem gringo pensando
Que nois é indigente…”
Pelo seu português apurado 
Ultraje a rigor são analfabetos indecentes.

“Lelé, meu amor Lelé…
No cabo da minha inchada, eu não conheço coroné
A minha cabeça é minha e me pertence”
Agora, esculhambe o baiano Raimundo Sodré.
E de quebra o Maluco Beleza,
E o destrambelhado do Tom Zé. 

“Meus versos é como semente
Que nasce arriba do chão
Não tenho estudo nem arte
A minha rima faz parte das obras do coração”.
Se for se basear pelo seu português intelectual
A poesia de Patativa do Assaré não deve ser dada a atenção.

A poesia enfrenta qualquer ditadura
Inclusive, a ditadura da gramática
Porque ela é dinâmica
Nunca está estática
Não é uma ciência exata
Nem tão pouco uma equação de matemática.

O poeta não tem língua,
Nem tão pouco linguagem
O que interessa pra ele é bisbilhotar o mundo:
Os seus encantos, as curiosidades, sua engrenagem.
Onde ele estiver
Só quer uma coisa: emitir sua mensagem.

A poesia é ordem e desordem ao mesmo tempo
Porque pertence ao mundo dialético
Ela não tem cheiro, nem sabor…
Não obedece regras, nem conceitos do estético.
Ela é eterna enquanto viva o homem
Porque todo ser humano tem seu lado poético.

Eu faço o meu repente
Prá dar asas a imaginação, acalmar minha mente e o coração
Vou escrevendo o meu cordel
Não é pra ser aprovado em vestibular ou participar de concurso de redação.
Pare de ler meus versos
E vai enfiar peido em cordão.

Eu gosto é da expressão popular:
Ué…! ,uai…! ,sô…!, vamo nessa…! ,tá boa a bessa…!, Trem…
Do linguajar nordestinês:
Oxente! , Bixin! ,Vice! , Macho! , Home! , Ocê! , Lá raí…! , Lá rem…!
Da expressão que vem do povão:
Maninho, maninha, meu rei, tu é doido? nem vem que não tem…! 

Pegue o seu português cheio de frescuras
E saia da minha praia
Com ele não preciso escrever
Procure a sua laia.
Tá chegando dois mil e quatorze
E com minha alma lavada e enxaguada e passada no ferro de engomar não fugirei da raia.

Por Francisco Batista Pantera (Professor, Jornalista, Poeta e Presidente da CTB/RO)

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