A poesia da delicadeza e da doçura de Cecília Meireles faz falta

Neste domingo (9) completa-se 50 anos da morte da poetisa Cecília Meireles, que na sexta-feira (7) completaria 113 anos. A menina carioca de nascimento jamais poderia imaginar se transformar numa das mais importantes poetisas da literatura brasileira, inclusive sendo traduzidas em muitos países.

De uma visão profundamente humana, coisa rara nos dias atuais de protestos contra a democracia e agressões xenofóbicas na internet, em sua última entrevista do jornalista Pedro Bloch, em maio de 1964 (ela faleceu em novembro desse ano), a escritora, jornalista e professora primária disse que “tenho um vício terrível. Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença”.

Provavelmente essa “doença” (presente em quem não pensa somente em si próprio e tem generosidade, respeito e solidariedade no coração) a levou a escrever pérolas da literatura nacional. Como a poesia “O Chão e o Pão”, simples, mas que nos leva a uma profunda viagem sobre a condição humana:

“O chão.
O grão.
O grão no chão.

O pão.
O pão e a mão.
A mão no pão.

O pão na mão.
O pão no chão?
Não”.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1901. Já aos nove anos começou a escrever. Aos 18 publicou seu primeiro livro “Espectros”, daí em diante nãomparou mais de escrever até ir-se embora no dia 9 de novembro de 1964 (triste ano, quando um golpe foi deflagrado na democracia e na liberdade). A poetisa não se prendia a nenhuma escola literária, criando um estilo muito singular. Também enveredou pela literatura infantil. Na poesia “A Bailarina” descreve com nitidez como deveria ser a vida de toda a criança. Ou seja, poder crescer em paz, em segurança, protegida pelos adultos, mas sem opressão para poder desenvolver-se plenamente e tornar-se uma adulta feliz e consciente:

“Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças”.

Em sua última entrevista ela disse também que “tenho amigos em toda parte. Mas sou feito o Drummond que é tão amigo quase sem a presença física. Esse meu jeito esquivo é porque eu acho que cada ser humano é sagrado, compreende? Eu sou uma criatura de longe. Não sei se me querem mas eu quero bem a tanta gente! Sou amiga até dos mortos. Amiga de muita gente que nem conheci. Você não imagina quanta gente eu levo ao meu lado. E fico emocionada quando penso como uma criatura só recebe tanto de tantos lados, de tantas pessoas, de tantas gerações!”

Grande amiga de todos os brasileiros com suas obras que caem tão bem em nossas mentes e nos enternecem os corações porque exalam vida, sentimento, reflexão e carinho pela humanidade. Sua veia poética ela descreve no poema “Motivo”:

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada”.

E também neste trecho de a “Canção Excêntrica”:

“Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida”.

Poesia que faz falta neste mundo conturbado, onde alguns querem prevalecer sobre muitos a qualquer custo, mesmo ao custo de vidas e opressões. Mais delicadeza e generosidade e menos arrogância e preconceito. Essa singela homenagem a uma das maiores poetisas do Brasil e do mundo. Muito transparente no poema “Ou Isto ou Aquilo”:

“Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo”.

A poesia da delicadeza e da doçura de Cecília Meireles faz falta nesses tempos onde muitos apregoam o ódio, a violência e a discriminação.

Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

Vídeo sobre Cecília Meirels: 

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