1º de Maio: a luta dos trabalhadores para mudar o mundo na voz de Chico Buarque

Por Marcos Aurélio Ruy

Pela primeira vez a seleção de músicas é de um único autor. Para homenagear o Dia do Trabalhador – 1º de Maio – a presença de Chico Buarque em todas as canções escolhidas, solo ou em parceria, com a vontade expressa do autor carioca em ajudar com sua arte a tornar o mundo um lugar bom de se viver para todas as pessoas, sem nenhuma distinção ou preconceito.

Primeiro de Maio

As seis músicas apresentadas mostram a cara do e a alma do Brasil. Encabeça a lista “Primeiro de Maio”, em parceria com Milton Nascimento, lançada em 1976, no disco Geraes, do compositor de Minas Gerais.

Chico e Milton cantam a esperança de os trabalhadores tomarem em suas mãos os meios de produção e mudar o modo de produção. O mundo novo é da classe trabalhadora e por ela será construído.

Primeiro de Maio, de Chico Buarque e Milton Nascimento

Hoje a cidade está parada

E ele apressa a caminhada

Pra acordar a namorada logo ali

E vai sorrindo, vai aflito

Pra mostrar, cheio de si

Que hoje ele é senhor das suas mãos

E das ferramentas

Quando a sirene não apita

Ela acorda mais bonita

Sua pele é sua chita, seu fustão

E, bem ou mal, é o seu veludo

É o tafetá que Deus lhe deu

E é bendito o fruto do suor

Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar

O dia inteiro pra se amar tanto

Ele, o artesão

Faz dentro dela a sua oficina

E ela, a tecelã

Vai fiar nas malhas do seu ventre

O homem de amanhã

A Voz do Dono e o Dono da Voz

Felizes são os grandes artistas que transformam em arte os seus dissabores. Na canção “A Voz do Dono e o Dono da Voz”, de 1982, Chico Buarque conta o drama de ter mudado de gravadora e descobrir que a sua nova gravadora foi comprada pela anterior.

Mas como em toda grande obra, o autor transforma uma dor sua em denúncia de como funciona o capitalismo, onde o “a voz do dono” tenta a todo custo controlar o “dono da voz”. Como o capital explora o trabalho até às últimas consequências, sem dar valor à vida.

A Voz do Dono e o Dono da Voz (1982), de Chico Buarque

Até quem sabe a voz do dono

Gostava do dono da voz

Casal igual a nós, de entrega e de abandono

De guerra e paz, contras e prós

Fizeram bodas de acetato – de fato

Assim como os nossos avós

O dono prensa a voz,

A voz resulta um prato

Que gira para todos nós

O dono andava com outras doses

A voz era de um dono só

Deus deu ao dono os dentes

Deus deu ao dono as nozes

Às vozes Deus só deu seu dó

Porém, a voz ficou cansada após

Cem anos fazendo a santa

Sonhou se desatar de tantos nós

Nas cordas de outra garganta

A louca escorregava nos lençóis

Chegou a sonhar amantes

E, rouca, regalar os seus bemóis

Em troca de alguns brilhantes

Enfim a voz firmou contrato

E foi morar com novo algoz

Queria se prensar,

Queria ser um prato

Girar e se esquecer, veloz

Foi revelada na assembléia – atéia

Aquela situação atroz

A voz foi infiel, trocando de traquéia

E o dono foi perdendo a voz

E o dono foi perdendo a linha – que tinha

E foi perdendo a luz e além

E disse: “Minha voz, se vós não sereis minha

Vós não sereis de mais ninguém”

(O que é bom para o dono é bom para a voz

O que é bom para o dono é bom para vós

O que é bom para o dono é bom para nós)

O Cio da Terra

Lançada também no álbum Geraes, de Milton Nascimento, de 1976, “O Cio da Terra”, de Chico e Milton, se transformou num verdadeiro hino da reforma agrária. Gravada pelos dois num compacto de 1977 com o outro lado do disco contendo a outra obra prima “Primeiro de Maio”.

“Conhecer os desejos da terra” para “fecundar o chão” do futuro e “se fartar de pão” num mundo sem fome e desigualdade.

O Cio da Terra (1976), de Chico Buarque e Milton Nascimento; Milton canta com Pena Branca e Xavantinho                           

Debulhar o trigo

Recolher cada bago do trigo

Forjar no trigo o milagre do pão

E se fartar de pão

Decepar a cana

Recolher a garapa da cana

Roubar da cana a doçura do mel

Se lambuzar de mel

Afagar a terra

Conhecer os desejos da terra

Cio da terra, a propícia estação

E fecundar o chão

Assentamento

Ao homenagear o grande escritor mineiro Guimarães Rosa (1908-1967), Chico homenageia também o Movimento dos Sem Terra (MST) e canta a vontade das trabalhadoras e trabalhadores do campo em superar suas mazelas e transformar o país numa grande terra de produção de alimentos saudáveis para alimentar a todas e todos.

“Quando eu morrer

Cansado de guerra

Morro de bem

Com a minha terra”

Assentamento (1998), de Chico Buarque

Quando eu morrer, que me enterrem na

beira do chapadão

— contente com minha terra

cansado de tanta guerra

crescido de coração

Tôo

(apud Guimarães Rosa)

Zanza daqui

Zanza pra acolá

Fim de feira, periferia afora

A cidade não mora mais em mim

Francisco, Serafim

Vamos embora

Ver o capim

Ver o baobá

Vamos ver a campina quando flora

A piracema, rios contravim

Binho, Bel, Bia, Quim

Vamos embora

Quando eu morrer

Cansado de guerra

Morro de bem

Com a minha terra:

Cana, caqui

Inhame, abóbora

Onde só vento se semeava outrora

Amplidão, nação, sertão sem fim

Ó Manuel, Miguilim

Vamos embora

Construção

Em “Construção”, de 1971, Chico Buarque canta a vida dos trabalhadores urbanos. Aqui todos os versos terminam com proparoxítonas, as palavras mais raras da língua portuguesa, para mostrar a riqueza dos sentimentos, das dores, dos amores e da vida de quem produz a riqueza e vive à deriva, na pobreza.

“Construção” é a vontade de transformar em magia o mundo construído para valorizar o ser humano.

Construção (1971), de Chico Buarque

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado

As Caravanas

Em seu álbum mais recente Caravanas, de 2017, a canção que dá nome ao disco “As Caravanas” conta a história do conservadorismo intrínseco da sociedade brasileira, da colônia até hoje, onde a escravidão é o traço marcante e que precisa ser superado para o país andar para a frente sem rancores.

As Caravanas (2017), Chico Buarque

É um dia de real grandeza, tudo azul

Um mar turquesa a la Istambul enchendo os olhos

Um sol de torrar os miolos

Quando pinta em Copacabana

A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba

A caravana do Irajá, o comboio da Penha

Não há barreira que retenha esses estranhos

Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho

A caminho do Jardim de Alá

É o bicho, é o buchicho, é a charanga

Diz que malocam seus facões e adagas

Em sungas estufadas e calções disformes

É, diz que eles têm picas enormes

E seus sacos são granadas

Lá das quebradas da Maré

Com negros torsos nus deixam em polvorosa

A gente ordeira e virtuosa que apela

Pra polícia despachar de volta

O populacho pra favela

Ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol

A culpa deve ser do sol que bate na moleira

O sol que estoura as veias

O suor que embaça os olhos e a razão

E essa zoeira dentro da prisão

Crioulos empilhados no porão

De caravelas no alto mar

Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria

Filha do medo, a raiva é mãe da covardia

Ou doido sou eu que escuto vozes

Não há gente tão insana

Nem caravana do Arará

Não há, não há

Sol

A culpa deve ser do sol que bate na moleira

O sol que estoura as veias

O suor que embaça os olhos e a razão

E essa zoeira dentro da prisão

Crioulos empilhados no porão

De caravelas no alto mar

Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria

Filha do medo, a raiva é mãe da covardia

Ou doido sou eu que escuto vozes

Não há gente tão insana

Nem caravana

Nem caravana

Nem caravana do Arará

Final

Pela primeira vez o Dia do Trabalhador tem manifestação virtual com a unidade das principais centrais sindicais do país e lideranças políticas de todos os matizes contra um presidente totalmente insano em meio a uma pandemia que ceifa vidas e Jair Bolsonaro não cessa de defender intransigentemente o interesse dos muito ricos. Por isso, a palavra de ordem é Fora Bolsonaro, antes que o Brasil acabe.

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