Sem indústria não existe crescimento para valer, diz economista do Ipea

Apesar de o setor de serviços ter ampliado sua parcela no valor agregado da economia mundial entre 1970 e 2007, de 56,9% para 63,1%, e de a indústria ter perdido participação, de 36,6% para 32,0%, o economista Leonardo Carvalho, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) pondera que os países em desenvolvimento, como o Brasil, devem manter estratégias ativas de progresso tecnológico industrial.

Para defende esse ponto de vista, salienta que o crescimento do setor terciário nos países ricos empurra a produção industrial para o mundo não-desenvolvido.

"Os países desenvolvidos passaram a terceirizar a produção física. Dentro do mundo globalizado, com multinacionais e blocos de comércio livres de barreiras de exportação, essa mobilidade da produção ou de contratação de serviços terceirizados em nível de produção se potencializa", avalia.

E segue: "E, no caso do Brasil, onde existe abundância de recursos naturais, as vantagens comparativas são maiores", avalia o economista do Ipea, cuja análise é confirmada por pesquisa divulgada pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi), na qual ficou evidente que o valor adicionado pela indústria de transformação, especificamente, tem mantido proporção estável: em 1970, respondia por 22,8% e, em 2007, por 23,0%.

Indústria puxa PIB
Em 23 países pesquisados, o Iedi verificou que cresceram mais os que obtiveram maior dinamismo em sua indústria de transformação.

As economias que tiveram expansão anual do PIB superior a 5%, de 1970 a 2007, foram aquelas cuja proporção da indústria de transformação no valor adicionado cresceu 2,5 pontos percentuais ou mais.

As únicas exceções, segundo o Iedi, ficaram por conta das cidades-estado de Cingapura, cuja participação da indústria de transformação subiu 1,5 ponto percentual, e de Hong Kong, com queda de 18,4 ponto no peso da indústria de transformação.

Em termos de expansão, a China é o destaque notório, mas também foram mencionados Malásia, Coréia do Sul, Tailândia, Indonésia e Índia, além da Irlanda, com média de expansão anual de 5,3% e incremento do peso da indústria de transformação de 2,5 pontos.

"Por outro lado, entre os países com taxas médias de expansão anual inferiores a 5% (Brasil inclusive), só três registraram aumento no peso da indústria de transformação na comparação entre 1970 e 2007: México, Hungria e Itália. Nenhum dos três com incremento chegando a 2 pontos percentuais."

Indústria puxa emprego
Diante desse quadro, o economista Jardel Leal, do Dieese, enfatiza que, no futuro, as sociedades verdadeiramente democráticas deverão tratar a questão do emprego como interesse público, reconhecendo a importância do trabalho para a formação da própria sociabilidade:

"Numa sociedade na qual a população é capaz de interferir em seu próprio destino, a tendência é de redução da jornada de trabalho e adiamento da entrada das pessoas no mercado", destaca Leal, acrescentando que, neste último caso, é preciso garantir igualdade de condições, sobretudo na Educação:

"Caso contrário, os pobres continuarão ingressando cedo no mercado de trabalho, enquanto os filhos dos ricos ficarão com os melhores empregos", alerta.

O economista do Dieese destaca também a importância de uma distribuição mais justa dos ganhos de produtividade:

"A tecnologia que vai sendo introduzida beneficiará a quem? O lucro das empresas ou toda a sociedade? O modelo de democracia que estamos desenhando no Brasil é suficiente para que todos se apropriem dos ganhos de tecnologia?", indaga Leal, para quem a sociedade deve mobilizar sua capacidade criativa para construir alternativas ao modelo concentrador.

Competitividade x desindustrialização
Essa criatividade, para Leonardo Carvalho, também deve ser usada pelo Brasil para ocupar seu espaço na indústria mundial:

"Fala-se de desindustrialização no Brasil e essa é, sem dúvida, uma questão relevante porque, além de aproveitar nossos produtos primários, precisamos desenvolver uma indústria que agregue mais valor e gere mais empregos. Exportamos manufaturados basicamente para Europa e EUA e América Latina, concorrendo com China, Índia e Rússia. Ou seja, com países em desenvolvimento e não-desenvolvidos", lembra.

Carvalho, no entanto, considera que o setor exportador deve ir além de apenas cobrar um câmbio favorável as suas vendas:

"Essa parcela da indústria manufatureira também deveria buscar outras maneiras de se tornar competitiva, investindo em progresso técnico e importação de bens que visem a baratear o custo de produção", defende.

O Governo, segundo o pesquisador do Ipea, tem ferramentas para apoiar a indústria de ponta. Entre elas, ele destaca o investimento em infra-estrutura, pesquisa e capital humano: "Caso contrário, ficaremos sempre como exportadores de produtos básicos", resume.

Economia política
Jardel Leal prevê uma acirrada disputa política pela apropriação dos ganhos de produtividade proporcionados pelo progresso técnico:

"Acredito que não é possível definir o padrão de estruturação do mercado de trabalho sem que isso seja definido através de intenções políticas. Há que se definir com clareza o modelo de sociedade que queremos. Como será a divisão do trabalho. Dependerá muito de políticas de emprego e renda no futuro, o que retratará o desenho de nosso modelo de democracia", observa.

Para o economista do Dieese, o Brasil ainda tem um grande percurso a percorrer até chegar a um mercado de trabalho que absorva todos trabalhadores e isso inclui o setor de serviços de alta tecnologia:

"Num prazo médio, até 2030, creio que haverá recuperação do emprego na indústria e, a partir daí, é que veremos crescer o peso dos serviços", prevê, recomendando que o país considere, inclusive, o envelhecimento da população, que pressionará menos o mercado de trabalho.

Por enquanto, ele considera que ainda pagamos o preço por décadas de predomínio do pensamento neoliberal:

"Com a terceirização dos serviços industriais, quebrou-se parte da força do movimento sindical, que colocava bloqueios às medidas de flexibilização das leis trabalhistas, e outras reformas lesivas ao interesse social. Houve desmonte da idéia de uma classe operária atuante, com o desaparecimento do segmento dos trabalhadores capazes de apresentar projetos alternativos", resume, lembrando que atualmente há greves em grandes empresas, das quais os trabalhadores terceirizados ou envolvidos em atividades meio não participam ao lado dos colegas de trabalho, entre outras mobilizações.

Fonte: Monitor Mercantil

 

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