Salários melhoram, mas ficam abaixo do PIB

O Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) divulgou na segunda-feira (17) o “Balanço das Negociações Salariais em 2007” no qual registra que quase a totalidade (96%) das 715 negociações salariais acompanhadas asseguraram a incorporação, no mínimo, das perdas ocorridas desde a data-base anterior.

Este é o quarto ano consecutivo que em mais de 70% das negociações analisadas houve a reposição segundo a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Entre 2006 e 2007, a inflação média acumulada foi inferior a 4%.

Apenas em 29 a inflação do período não foi reposta — 87,7% das negociações salariais conseguiram índice de reajuste superior à inflação. Segundo a pesquisa, foi o quarto ano consecutivo que mais da metade dos dissídios conseguiram reajuste acima do INPC. Em 2006, este percentual ficou em 86,3% das 655 negociações acompanhadas pelo Dieese. Entre os setores, os melhores resultados foram obtidos pela indústria. Do total, 94% das categorias tiveram aumento real acima do INPC. No comércio, o porcentual chegou a 85%, e no setor de serviços, a 81% das negociações.

Variação dos índices de custo de vida

Na avaliação do Dieese, esse resultado tem ligação direta com os baixos níveis de inflação registrados nos últimos anos. "À medida que o INPC acumulado se reduz, aumenta a proporção de negociações com reajustes iguais ou superiores a esse índice", diz o documento do Dieese. Esta mudança no padrão de comportamento dos reajustes salariais ocorreu entre 2003 e 2004. De acordo com o Dieese, neste período o INPC médio caiu de 17,4% para 6,6% e o porcentual de reajustes iguais ou superiores a esse índice saltou de 42% para 81%.

O Dieese também informa que com relação aos reajustes que superaram a inflação, constata-se que aproximadamente 70% agregaram no máximo 2% de ganho real. Além disso, apenas 2,5% do painel obtiveram ganhos superiores a 4%. “Em linhas gerais, apesar de o percentual de unidades de negociação com reajustes superiores ao INPC-IBGE ter apresentado ligeira melhora na comparação com 2006, verifica-se uma retração na magnitude dos ganhos reais”, diz o documento.

Segundo o Dieese, os reajustes escalonados, quando associados a percentuais superiores à variação dos índices de custo de vida, podem contribuir para uma desejada redução do leque salarial vigente, uma vez que conciliam a elevação do poder de compra dos menores salários à manutenção do poder aquisitivo dos salários mais altos. “Entretanto, se combinados a percentuais inferiores à variação do custo de vida, podem provocar rebaixamento do patamar salarial”, destaca.

Distribuição da renda nacional

Segundo a representante da Central dos Trabalhadores e Trabalhadores do Brasil (CTB), Gilda Almeida, que participou da apresentação do documento no dia 17, uma consideração que precisa ser feita é que se o controle da inflação tem resultado em ganhos para os trabalhadores nas negociações salariais, o mesmo não se pode dizer do crescimento da economia brasileira. De acordo com o Dieese, 2007 foi o primeiro ano, desde que os estudos foram iniciados, em 1996, que o crescimento do PIB (5,4%) superou a inflação média do período (3,9%), mas os reajustes acima da inflação chegaram a menos categorias e foram bem mais modestos do que em 2006 — quando o PIB teve alta de 3,5% e a inflação média ficou em 3,8%.

Segundo José Silvestre Prado de Oliveira, supervisor do escritório regional do Dieese em São Paulo, “o crescimento do PIB cria um ambiente econômico mais favorável para as negociações, mas isso não está se traduzindo em ganhos salariais para os trabalhadores". Gilda Almeida disse, no ato de apresentação do documento, que isso é um problema. “Boa parte dos problemas econômicos brasileiros se deve ao fato de o país nunca ter investido de verdade em um caminho definido de desenvolvimento econômico e social, com valorização do trabalho”, afirma.

De fato, nunca instituímos, para valer, uma economia planejada e um Estado voltado para o desenvolvimento com geração de emprego e distribuição de renda. Para piorar, nos últimos anos o país foi conduzido irresponsavelmente pelo caminho da "economia de mercado". No Brasil, depois que o capitalismo ganhou impulso aí pelos idos de 30, iniciou-se a discussão a respeito de como promover o aumento e a distribuição da renda nacional. Predominou, a princípio, a tese de que o Estado poderia estimular — e mesmo condicionar — o desenvolvimento econômico.

Direitos dos trabalhadores

Lamentavelmente, nos últimos tempos, com a asfixiante hegemonia das idéias liberais, observa-se um profundo divórcio entre a aplicação simplista de certas teorias econômicas e a realidade objetiva do país. Sob o pretexto de que a economia é uma ciência exata, difundem-se a esmo análises que são verdadeiras metafísicas, contendo uma falsa e vaga representação do mundo real.

As análises e o planejamento devem visar, essencialmente, a aceleração do desenvolvimento do país. Para fazê-lo, é interessante começar reconhecendo dois direitos fundamentais dos brasileiros. O primeiro é o direito de ser informado corretamente sobre os efeitos das medidas que são tomadas em Brasília (como a definição da taxa de juros pelo Copom, que tem relação direta com o crescimento da economia) — coisa difícil com esse sistema de monopólio da comunicação vigente no país. O segundo é o direito de os trabalhadores ter acesso à renda na mesma proporção do crescimento da riqueza do país.

 

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