“Churrascão” de protesto reúne centenas de pessoas em SP contra a ação da PM na cracolândia

Centenas de pessoas passaram na tarde do último sábado (14) pelo ‘Churrascão de gente diferenciada – versão cracolândia’, na esquina das Ruas Helvétia e Dino Bueno, na região da Luz, no centro. A manifestação foi organizada por movimentos socais para protestar contra a ação da Polícia Militar na cracolândia, que começou no último dia 3 de janeiro.

Já no final da tarde, não se podia distinguir os ativistas dos movimentos sociais, os dependentes químicos e os curiosos que se aglomeravam em protesto contra a operação policial, alvo de críticas nas últimas duas semanas por conta do uso de armas não letais, da coleção de denúncias de abuso policial e da desconfiança em relação ao real interesse na ação.

“Queremos que eles (os policiais) olhem com dignidade para estas pessoas. Elas não estão usando o crack porque preferem usar. Há a exclusão e o preconceito”, ressaltou Anderson Lopez Miranda, coordenador do Movimento Nacional da População de Rua – um dos mais de 40 organizadores do evento -, enquanto Gilberto S., de 56 anos, esperava com ansiedade uma chance para falar.

O homem, que relatou “andar de lá para cá” por causa do crack, foi categórico em sua afirmação. “Não adianta ação militar, porque eles expulsam uma cracolândia e se criam outras trinta por aí”, disse, reforçando que não há oferta para tratamento. Outros, como Gilberto, também participavam do churrasco. Momentos raros – ou inexistentes – na rotina daquele lugar. Aproveitaram também para comer e guardar comida para mais tarde. Uma fila se formava a cada minuto para que os lanches de pão com linguiça fossem preparados à beira da churrasqueira. Tudo foi organizado por meio de doações.

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Com uma abordagem bem humorada, balões com frases como “Liberta São Paulo” foram soltos ao céu, dezenas de cartazes pregados à cerca que protege o terreno da Helvétia – também utilizada como esconderijo do fumo -, além de uma banda, que tocou todo o estilo de música. Alguns dos viciados dançavam junto aos ativistas. Em outro momento, um homem enrolado na bandeira nacional pediu a atenção do público para discursar. “O governo tem é que colocar cultura aqui. Se é para desocuparem (as casas do entorno), que construam um centro educativo”, frisou. Os policiais têm barrado a entrada de uma moradia em péssimo estado, invadida pelos dependentes. Apesar de estar lacrado, o local ainda recebia pessoas que se escondiam do tempo ruim e passavam a noite. Durante o evento, curiosos entraram na casa, sem advertências.

Para o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, o “churrascão” vai além do óbvio, de protestar e levantar cartazes, e atinge a questão da convivência da população com a realidade do centro da cidade. “Eu acredito que uma manifestação como esta é tudo o que a população não esperava. Isto aqui está sendo um sinal de que a sociedade muda, quando todo mundo puder comer junto”, afirmou. Lancellotti acompanha diariamente a situação dos moradores em situação de rua e dos dependentes químicos. Em uma ocasião, o padre afirma ter sido ameaçado com uma arma apontada por um policial militar, enquanto tentava proteger um rapaz da investida policial.

Ao final da tarde, quando alguns dependentes já voltavam a circular pelas ruas adjacentes, viam-se cachimbos de fumo, enquanto os policiais militares continuavam parados ao lado das viaturas, estacionadas nas calçadas próximas ao “churrascão”. Grupos se formaram na rua Barão de Piracicaba, próxima à Helvétia. Estranhando a reação atípica da PM, uma dependente temia um possível revide pela madrugada quando não houver movimento, que não seja o dos próprios moradores locais.

O princípio apoiado pelo padre Lancellotti vai ao encontro do propósito da organização do evento, de mostrar à população que os dependentes do crack são “gente como a gente”. Na primeira versão do “churrascão”, a reunião foi em frente a um shopping em Higienópolis, na região central, devido à resistência dos moradores do bairro quanto à construção de uma estação do metrô. O governador Geraldo Alckmin (PSDB), que já havia sinalizado desistência da construção, voltou atrás. A idéia desta edição é a mesma. “O povo (os dependentes) aqui sozinho não vai conseguir resistir”, ressaltou o deputado estadual Adriano Diogo (PT). “Que a inteligência da sociedade paulistana apareça e questione até onde o governo estadual vai com esta loucura”, criticou.

O comandante-geral da PM, Coronel Álvaro Camilo, afirmou na última sexta-feira (13) em entrevista que a operação continua por tempo indeterminado, e que “tudo está dentro da normalidade”. Alckmin, em passeio de carro pela região, também garantiu que as ações estão sob controle. As denúncias de abuso de autoridade e agressões físicas estão sendo acompanhadas pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo e pelo Ministério Público.

Com informações da Rede Brasil Atual

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