“A pesquisa da CNA é pura manipulação ideológica”, afirma Stédile

Durante esta semana, a CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil) publicou uma pesquisa, realizada pelo Ibope, na qual divulga que 37% dos assentados brasileiros não produzem nada em sua propriedade. Para João Pedro Stédile, economista e líder sem-terra, essa manipulação reflete a ideologia que motiva o PIG (Partido da Imprensa Golpista)

e seus constantes ataques aos movimentos sociais, em especial ao MST.

Em entrevista concedida ao Portal CTB, Stédile fala um pouco sobre essa manipulação midiática, a criminalização dos movimentos sociais e as tentativas de implantação da CPI do MST. Confira abaixo:

Segundo pesquisa publicada pela CNA 37% dos assentados não produzem em suas terras. De onde vem esses dados e como o MST encara essa pesquisa?

Essa pesquisa é pura manipulação ideológica. A CNA  entidade patronal dos latifundiários que agora é dirigida pela senadora Katia Abreu (DEM), que contratou o IBOPE para fazer pesquisa de opinião.  Eles ouviram mil famílias, distribuídas por nove estados. Todos sabemos que o IBOPE  não tem nenhum vínculo com os temas agrários. Ninguém sabe o critério do porquê ouvir mil, num universo de quase um milhão de famílias.  E mais, não conseguiram separar nem projeto de reforma agrária de projeto de colonização.  O caso de Pernambuco é o mais simbólico. Embora o Estado tenha centenas de assentamentos, eles escolheram uma área de colonização da década de 1970, ou seja, é apenas  factóide criado pela CNA.  Não tem valor nenhum cientifico.
 
Ainda segundo a pesquisa, existe uma fragilidade financeira dos assentados. Qual a causa dessa deficiência e quais as medidas para combatê-la?
 
Os problemas que as famílias assentadas enfrentam  são conhecidas pelo Incra (Instituto Nacional Colonização e Reforma Agrária) , do MDA e do MST. E tem outra natureza.  Os assentamentos  somente vão se desenvolver se estiverem vinculados a um projeto de desenvolvimento nacional.   E que possa organizar a produção agrícola vinculada à pequenas e medias agroindústrias, na forma de cooperativa, para o mercado interno.  Assim, as famílias poderiam aumentar sua renda, agregar valor. Por outro lado,  precisamos democratizar a escola, levando a educação em todos os níveis para os assentamentos.

A mídia tem usado constantemente  as ações do MST para incitar a criminalização dos movimentos sociais, na visão do MST, quais iniciativas podem neutralizar esse ostensivo ataque?

Há uma disputa permanente na sociedade brasileira entre dois modelos de agricultura.  Um é o modelo do agronegócio, que na verdade é a subordinação da agricultura brasileira aos interesses  das empresas transnacionais e do capital financeiro   A Cutrale é um desses exemplos.  A empresa tem 30 fazendas, mais de 50 mil hectares, praticamente monopoliza a a produção de suco no Brasil, e está subordinada à Coca-cola, a quem distribui seu suco no mercado mundial.  Por  outro lado, milhares de pequenos e médios agricultores não suportaram o preços impostos, e foram destruídos mais de 280- mil hectares de laranja, nos últimos dez anos, em São Paulo. Na outra ponta, temos o modelo de agricultura familiar e camponesa,  que trata de organizar a produção com uma agricultura diversificada, voltada para o mercado interno, distribuindo renda e  fixando as pessoas no meio rural.
A criminalização dos movimentos sociais se dá por conta da existência de movimentos dos camponeses e dos trabalhadores rurais, que estão enfrentando o modelo do agronegócio.   Então, os capitalistas que agora estão misturados entre  grandes proprietários de terra,  empresas e também na mídia  se articulam com judiciário, policia militar e, tentam a todo modo, criminalizar os trabalhadores que lutarem.

Sabemos que a reforma agrária é a única forma para o desenvolvimento do país de forma sustentável e a correção de distorções históricas. Contrários ao processo, querem emplacar uma CPI do MST, como movimento vê essa ação?

A tentativa de convocar uma CPI  está dentro desse jogo da luta de classes entre os dois modelos.  Mas o caso especifico da CPI se insere ainda no jogo eleitoral.   Os parlamentares ruralistas estão mirando na verdade as eleições de 2010.    Querem deixar o governo Lula  recuado no tema da reforma agrária e condicionar as candidaturas.   O deputado Caiado, líder dos Democratas, foi explicito ao dizer que a convocação da CPI visada impedir  que o governo destine dinheiro para o MST fazer campanha para a Dilma. O que seria ridículo, se não partisse de uma mente improdutiva, como todo latifúndio.
 
De acordo com o Incra, o assentamento é o primeiro passo para a conquista da cidadania dos trabalhadores rurais. Quais as medidas que podem ser tomadas pelo governo para acelerar esse processo?

Nos defendemos a ideia de um plano nacional de reforma agrária, que em primeiro lugar a vincule a um projeto de desenvolvimento do país.   Não resolve se fizer  assentamento apenas desapropriando aqui e acolá.  Assim como apenas distribuir terra também não resolve. Defendemos um programa de reforma agrária, que em primeiro lugar, priorize as grandes áreas improdutivas.  E que, inclusive, fixasse um limite.  Por exemplo, existem no país 15 mil fazendeiros que possuem áreas superiores a 2.500 ha cada um, totalizando 98 milhões de hectares.  Essa deveria ser a prioridade.  Dessa forma, não pulveriza e não gera insatisfação com os médios e pequenos proprietários, que não tem nada ver com reforma agrária. Segundo, precisamos combinar  distribuição de terras com produção de alimentos para o mercado interno, construindo agroindústrias nos assentamentos, na forma de cooperativa.  Isso aumenta a renda, eleva o nível de relações de trabalho e garante emprego para a juventude, que não precisar ir pegar enxada…mas pode trabalhar em outras profissões numa agroindústria. Terceiro, adotar técnicas agrícolas de agroecologia, que dispensem os agrotóxicos e consigam aumentar a produtividade do trabalho e da área, com outras técnicas adequadas ao meio ambiente. E finalmente,  combinar reforma agraria com a democratização da educação, ou seja, reforma agraria deve ser uma combinação de terra, agroindústria, educação e dignidade.

Portal CTB

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