Nossos índios e suas terras


Por João Martins

Quando da chegada de Colombo ao continente americano, em 1492, existiam cerca de 50 milhões de habitantes nativos. A capital do império asteca possuía 200 mil residentes, maior do que várias cidades européias, como Paris, que tinha cerca de 150 mil moradores. Em apenas 100 anos foram dizimados, reduzidos a menos de 10% de sua população original.

O “achamento” da “Ilha de Vera Cruz” marcou o contato entre os portugueses e os povos originários instalados na região, que habitavam essas terras há 60 mil anos. Luzia, o fóssil mais antigo encontrado por aqui, possui datação relativa entre 11 a 13 mil anos atrás.

A população foi estimada entre 3 a 5 milhões na época da chegada de Cabral, o que equivalia, no mínimo, ao dobro de seres humanos vivendo em Portugal. Três séculos depois 3 milhões de índios tinham desaparecidos. Hoje restam apenas 800 mil, sendo que mais da metade estão fora de suas terras, vítimas de conflitos e expulsões.

As várias faces reveladas desse genocídio, que continua, são: doenças trazidas pelos europeus como varíola, sarampo, gripe, tuberculose. Anchieta – que provavelmente era tuberculoso – discorre sobre a morte por doença, em 1562, de 30 mil índios em apenas três meses.

A violência e a escravidão foram outros meios de opressão e extermínio. Anchieta fala de 80 mil índios dizimados em alguns anos das missões da Bahia – 500 mil Tupinambás foram assassinados pelo Capitão Bento Maciel Parente no século XVII. Contam ainda o alcoolismo para os homens e a prostituição para mulheres.

As catequeses são também uma forma de violência. Noel Nutels afirma que a catequese atinge, sobretudo, a cultura indígena, que é fundamental: “a cultura do índio é um negócio tão poderoso que o civilizado só se radicou na Amazônia porque adotou a cultura indígena”. Após o massacre de Alto Alegre, em 1901, o levante Guajajara deixou 200 católicos mortos pelos índios, entre frades italianos e freiras. Inicia-se um processo de aproximação dos evangélicos.

Os primeiros missionários protestantes aportaram em terras indígenas na década de 30 do século passado. Mas foi apenas em 1969 que ganha estímulo o contato dos índios com os cristãos da Reforma quando o Novo Testamento – “Tupãn Ze’en” (Palavra de Deus) – foi traduzido para a língua Indígena por Carl Harrison, americano que passou anos nas aldeias. Acentua-se, hoje, a presença da pregação dos pentecostais nas aldeias indígenas que restam no país.

Povo Kanamari, do Vale do Javari, denunciam há anos tais massacres

O fato é que em busca das terras pertencentes aos índios, de suas riquezas naturais (ouro, diamantes etc.), a cobiça e a crueldade levaram os colonizadores a eliminar não só a cultura indígena como também a criatura humana.

Em um dos depoimentos sobre o massacre dos cintas-largas, ocorrido em 1963, em Aripunã – Mato Grosso, um dos participantes, Ataíde Pereira dos Santos, assim confessou: “A índia foi a única que não correu. O seu filho devia ter uns cinco anos e chorava, seguro pela mão da mulher. Acho que foi isso que enfureceu Chico Luis. Deu um tiro no menino e correu para pegar a mulher”.

Ela foi fortemente amarrada, de cabeça para baixo, numa árvore, no meio da roça dos índios. Chico Luis suspendeu a corda e o corpo ficou balançando. Com o facão terso, abriu a índia em dois pedaços, quase de um golpe só. A aldeia parecia um açougue humano, com tanto sangue espalhado pelo chão. A expedição contra os cintas-largas durou quase 60 dias e foi organizada pelo seringalista Antonio Mascarenhas de Junqueira”.

O marco temporal é uma desfaçatez que alimentará a violência e servirá aos grileiros, arruinando e liquidando os povos indígenas no tempo. No século XVII as terras fronteiriças não delimitadas “pertenceriam à nação cujos nacionais efetivamente as possuíssem”. E quem eram os possuidores e esses “nacionais”? Os índios brasileiros, que foram considerados os “representantes dos ´direitos territoriais´ da coroa portuguesa”.

Orlando Vilas Boas disse certa vez: “Particularizando nosso país, podemos afirmar, sem exageros, que o processo estabelecido nas relações entre as duas sociedades – a primitiva e a nossa – não é somente de destruição sistemática da cultura da primeira, mas sim da própria criatura”.

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