Nivaldo Santana: “Sindicato precisa se reinventar para acompanhar revolução tecnológica”

Apenas uma semana atrás, o Google anunciou uma das maiores conquistas na história da computação: uma Inteligência Artificial capaz de aprender conceitos do zero e se treinar sozinha. Em outro lugar no mundo, na Universidade de Cambridge, um grupo de cientistas usou uma tecnologia similar para provar que é possível prever terremotos, inclusive suas potências, sem nenhuma interpretação humana sobre os dados.

Os dois fatos são parte de um mesmo fenômeno social: a Quarta Revolução Industrial. A evolução cada vez mais veloz na descoberta e implementação de novas tecnologias nos ambientes de trabalho representa, ao mesmo tempo, uma oportunidade de emancipação dos trabalhadores e a marginalização daqueles menos qualificados, substituídos por máquinas cada vez mais auto-suficientes.

“Precisamos compreender os desafios desse novo momento sem retornar ao luddismo, a concepção que considerava as máquinas como inimigas dos trabalhadores e responsáveis pelo desemprego. A tecnologia é um meio importante para a humanidade perseguir avanços civilizatórios”, explicou Nivaldo Santana, secretário de Relações Internacionais da CTB.

Para entender a visão da Central sobre a atual revolução tecnológica. o Portal CTB conversou com o dirigente.

Portal CTB: Qual é o lugar do movimento sindical dentro das conversas sobre a Quarta Revolução Industrial?

Nivaldo Santana: O futuro do trabalho é um tema de grande importância dentro do debate contemporâneo sobre a Quarta Revolução Industrial, assim como a valorização do trabalho e dos trabalhadores. O movimento sindical precisa estudar formas alternativas de organização e de luta para enfrentar as mudanças produzidas pela revolução técnico-científica adiante, precisa pensar em novas formas de gestão e organização do trabalho.

Nós, que temos uma orientação classista e progressista para o movimento sindical, não podemos nos opor ao avanço da ciência e da tecnologia. Não podemos cair na armadilha do luddismo, aquela concepção que considerava as máquinas, e não os detentores do capital, como inimigas dos trabalhadores e responsáveis pelo desemprego.

Como fazer essa distinção? É inegável que existe uma redução no número de postos de trabalho por conta das máquinas.

A resposta não é simples, estamos falando de uma situação complexa. Não é prudente afirmar que o sindicato deva resistir deste ou daquele jeito, mas minha compreensão é que a luta por uma sociedade mais avançada passa pela ciência e a tecnologia.

Para que isso ocorra, os frutos do desenvolvimento científico e tecnológico não podem beneficiar apenas uma minoria, como ocorre no capitalismo. Nesse contexto, os detentores das máquinas concentram seu capital cada vez mais nos equipamentos e cada vez menos nas pessoas, produzem cada vez mais trabalho com menos trabalhadores. Daí se atribui essa “concorrência predatória” das máquinas e o enfraquecimento dos sindicatos. Mas o problema está em quem as detém, não nelas.

Como se daria uma apropriação progressista das novas tecnologias?

As novas tecnologias criam as bases materiais para a transição para um novo tipo de sociedade, o socialismo. A reestruturação produtiva que virá provocará um grande aumento da produtividade e a substituição em escala não desprezível do trabalho humano por máquinas.

Temas como a Inteligência artificial, a robótica, a Internet das Coisas, os veículos autônomos, a impressão em 3D, a nanotecnologia, a biotecnologia, a ciência dos materiais, a computação quântica… são todos avanços da ciência que vão mexer com os mais variados serviços. Mas são também meios importantes para que a humanidade persiga objetivos nobres, trabalhe cada vez menos e viva cada vez mais e melhor.

A transição será longa e cheia de sustos. Na atual etapa de resistência, o movimento sindical ainda precisa definir uma agenda que garanta emprego, salário e direitos.

Qual deve ser o papel do poder público diante dessas mudanças?

Uma primeira questão é a necessidade de os Estados Nacionais regularem a aplicação de novas tecnologias, associando-as à proteção do emprego e ao crescimento econômico. Uma medida indispensável é a redução da jornada de trabalho. Isso não só vai garantir emprego para todos, como tem a vantagem adicional de liberar mais tempo dos trabalhadores para o descanso, o lazer e outras atividades sociais.

Outra resposta para enfrentar as consequências do desemprego e da precarização decorrentes da evolução tecnológica é a constituição de uma ampla rede de proteção social, com educação, saúde, moradia, transporte, cultura, esporte, lazer, etc. Aqui também o Estado precisa ter um papel protagonista, e deve reverter as políticas de austeridade fiscal vigentes na maior parte dos países.

Por último, é necessário retomar o desenvolvimento econômico como âncora para gerar empregos. Ele é a base para ampliar esses novos setores produtivos, criar novos tipos de ocupação e formar novos profissionais, capacitados para substituir parte das profissões eliminadas pela reestruturação produtiva.

Isso tudo ainda precisará ser complementado por algum tipo de renda básica para todas as pessoas, independentemente de estarem trabalhando ou não. O seguro-desemprego permanente, portanto, como instrumento de alta relevância social, que não pode ser desconsiderado.

Num cenário pessimista, quais seriam as maiores ameaças da crescente automação?

Marx afirmou, ao estudar esse tema, que a burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os meios de produção. Isso acarreta cada vez mais investimento em capital constante, o “trabalho morto”, do que em capital variável, o “trabalho vivo”. É um fato inevitável com o desenvolvimento do capitalismo.

Um exemplo importante são os serviços bancários no Brasil… No ano de 2016, foram realizadas pelo celular 21,9 bilhões de operações bancárias, 34% do total. Em contrapartida, nas agências bancárias foram feitas apenas 8% dessas operações. Esse dado mostra um novo problema para o movimento sindical: mais trabalho com diminuição do número de trabalhadores – substituídos, neste caso, por operações digitais. Os trabalhadores da indústria e do setor de serviços também enfrentam essa “concorrência” das máquinas.

A tecnologia, sem controle, pode levar a uma realidade do trabalho cada vez mais fragmentado, flexível, em tempo parcial, sem segurança e sem proteção. As conquistas do período em que predominavam as grandes fábricas e concentrações de trabalhadores vão sofrer retrocessos.

O sindicalismo, em decorrência, precisa se reinventar, e adequar a organização sindical às novas formas de organização do trabalho.

Obrigado, Nivaldo.

Por Renato Bazan – Portal CTB

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