Na noite da posse de Temer, a ordem foi soltar tiro, porrada e bomba nos manifestantes

Não demorou mais que quatro horas para o recém-empossado governo Temer mostrar sua verdadeira postura diante de protestos contra sua legitimidade. Entre a cerimônia que coroou o golpista e os primeiros atos de repressão, bastou uma passeata e um rojão. A noite da quarta-feira (31) colecionou depoimentos e fotografias de uma sociedade em estado de convulsão.

A situação icônica na Av. Paulista, em São Paulo, prenunciava o que viria: entre duas manifestações, uma a favor do impeachment (na FIESP), uma contra (no MASP), a Polícia Militar armou três fileiras de contenção. As três olhavam para o MASP. O responsável pela PM tentou convencer as lideranças anti-golpe a não “provocarem retaliação”, mas frustrou-se ao ouvir de um professor que protestar é um direito. Limitou-se a responder: “Eu também tenho minha opinião sobre isso, mas esse aqui é o meu trabalho”.

Uma hora mais tarde, já com uma boa distância da FIESP, a PM atacaria com bombas de gás e violência física. Reviveria também outra tática condenada pela ONU, a “panela de Hamburgo”. O motivo do galope: um rojão.

fora temer faixa maspA manifestação de São Paulo reuniu ao menos duas mil pessoas no MASP – em sua imensa maioria, jovens

Em agosto de 2016, não causaria espanto confundir a ocasião com maio de 2013. Até a esquina do primeiro tiro foi a mesma – entre a Antônio Carlos e a Consolação.

Em Brasília, a manifestação organizada contra o resultado do julgamento da presidenta Dilma acabaria de forma parecida, dispersada por bombas. A caminhada começou ao lado do Ministério da Justiça, rumo à Rodoviária do Plano Piloto. Já no trajeto, a PM fez ataques preventivos, com pequenos jatos de gás nas pessoas. Chegando à Rodoviária, o cenário virou palco para uma nuvem de gás de pimenta e o estalar de cacetetes.

No Rio de Janeiro, o protesto teve um final menos temeroso. Com pelo menos três mil pessoas, a concentração aconteceu na Cinelândia, onde manifestantes discursaram contra o recém-empossado Michel Temer. Neste caso, o protesto foi organizado pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, que conseguiram negociar a paz com a PM. A cidade presenciou ainda um mega panelaço durante o discurso gravado de Temer, que foi ao ar às 20h.

cinelandia fora temer 310816A Cinelândia teve protesto sob a coordenação das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo (Foto: Marco Antonio Teixeira/UOL)

Os coletivos de jornalismo registraram protestos anti-golpe ainda em Porto Alegre, Florianópolis, Belo Horizonte, Salvador, Santos, Curitiba e mais dezenas de cidades pelo país, com diferentes graus de comparecimento. Registraram também várias situações de violência repressiva, com pessoas passando mal, em função das bombas, ou sangrando, em função de policiais. Nos locais com conflito mais acirrado, registrou-se um número de prisões arbitrárias.

Em meio a tudo isso, até os profissionais da imprensa alternativa foram ameaçados pelos policiais. Pelo menos em um caso, o jornalista teve sua câmera destruída.

Zona de guerra

O conflito mais tenso foi em São Paulo, onde os manifestantes levantaram barricadas incendiadas e destruíram fachadas de bancos. Na USP, os estudantes queimaram um ônibus. Conforme a tensão aumentou, a polícia passou a perseguir até quem já havia se separado das passeatas – o que rendeu,também, um sem-número de registros de abuso por parte da corporação. Ainda às 22h, a recomendação do Metrô era a de evitar a Linha Vermelha, pois a PM havia explodido gás lacrimogêneo no interior de algumas estações.

Perto das 23h, um grupo de garotas que protestava em São Paulo nos pediram ajuda. Não deveriam ter mais que 18 anos, e estavam devastadas. “Ficamos atrás da marcha para evitar confusão, mas eles [a PM] atacaram com bombas pelas costas. Estamos com medo de cruzar o centro e acabar encontrando outro grupo [de PMs]”, explicaram. Enquanto as conduzíamos para o metrô, encontramos um cenário de guerra.

barricadas sao paulo 310816Nas regiões de conflito em São Paulo, os manifestantes ergueram barricadas de fogo

O terror das primeiras quatro horas do governo Temer serve de atestado da covardia de seu ministro da Justiça/cão de guarda, Alexandre de Moraes. Não vai ser fácil enfrentá-lo.

Por Renato Bazan – Portal CTB

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