Live com Centrais Sindicais e Leonardo Sakamoto: Fortalecer movimento sindical contra política de Bolsonaro, que aproveita pandemia para rebaixar direitos

Por Railídia Carvalho

Os trabalhadores brasileiros experimentam desde 2016 um rebaixamento sem precedentes nas condições de trabalho. A precariedade se agravou no governo de Jair Bolsonaro e pode resultar em milhões de pessoas na linha da pobreza no pós pandemia do coronavírus. Seis Centrais Sindicais se reuniram nesta sexta-feira (22) para debater o cenário e apontar perspectivas para a classe trabalhadora. O jornalista Leonardo Sakamoto foi o convidado da live, mediada por Clemente Ganz, diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese).

Adilson Araújo, presidente da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), afirmou que a situação da classe trabalhadora é dramática. “Estamos vivenciando na prática um crescente número de trabalhadores e trabalhadoras em situação análoga à escravidão”. Ele chamou a atenção para o impacto da informalidade no Brasil: “O retrato mais cruel disso é que são 100 milhões de brasileiros que acessaram o cadastro da Caixa Econômica para acessar a renda básica emergencial”, ressaltou.

O dirigente da CTB definiu como “gritante” a desigualdade no Brasil. “Nós não podemos conceber que seja razoável que 10% dos mais ricos concentrem quase metade da renda nacional”, indignou-se. Ele lembrou que as previsões apontam para o aumento da desigualdade mundial e citou dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). 

Adilson Araújo na live das Centrais Sindicais nesta sexta-feira (22)

“A OIT desenha um cenário que podemos ultrapassar 300 milhões de desempregados no mundo. A Cepal apresenta que até o final deste ano teremos mais de 30 milhões de trabalhadores que ascenderão à linha da pobreza e mais 12 milhões de desempregados. De um universo de 613 milhões de habitantes no continente, 158 milhões estão na informalidade e 30% desses trabalhadores estão no Brasil”, informou Adilson.

Na opinião de Adilson, ter esse diagnóstico mundial e nacional contribui para apontar caminhos para uma nova nação. “Esse Brasil que assistimos hoje é o país que registra uma morte por acidente de trabalho a cada três horas e quarenta. O grande desafio vai ser exatamente encontrar a equação para gente criar o caminho para tornar o Brasil uma nação mais humana e menos desigual”, completou.

Leonardo Sakamoto: “Estado tem que proteger os mais vulneráveis”

Há 21 anos combatendo o trabalho escravo, Leonardo Sakamoto lembrou que esta condição é a forma mais agressiva de se tratar um ser humano. Ele citou nota divulgada durante a pandemiade autoria de Tomoya Obokata, relator especial das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão. O objetivo da nota foi de sensibilizar governos para assegurar direitos e condições dignas de sobrevivência para os mais vulneráveis. 

Leonardo Sakamoto: “Desigualdade entre capital e trabalho é motivo de orgulho no Brasil”

O governo brasileiro vai no caminho contrário, disse Sakamoto. “O Estado tem garantido que os mais riscos fiquem incólumes. (Paulo) Guedes discute desoneração mas ninguém coloca a taxação dos super-ricos pra gerar um caixa que proteja e que evite a redução de proteção aos trabalhadores”, afirmou. 

Na opinião do jornalista, o governo e segmentos do empresariado se aproveitam que os trabalhadores não podem ir para a rua protestar para aprovar projetos que fazem com que esse trabalhador pague a conta da crise. “Essa desigualdade neste momento entre capital e trabalho seria motivo de vergonha em qualquer lugar civilizado mas aqui é motivo de orgulho”. 

Guerra contra as organizações de trabalhadores 

Entre os desafios do movimento sindical, Sakamoto citou a importância no aprimoramento da comunicação sindical com os novos trabalhadores. “Durante muito tempo Martelou-se, principalmente nas classes C e D que o sindicato é ruim, o Estado é ruim e o que é importante é cada um por si e Deus por todos. Eu acredito que há uma guerra de comunicação contra as organizações dos trabalhadores e contra a presença de um Estado que regule e garanta os direitos trabalhistas e isso precisa ser enfrentado de frente. Precisa de uma comunicação de base, com novos termos, utilizando tecnologia e elementos simbólicos que sejam claros para esses jovens”.

Fortalecimento do movimento sindical

“Um dos acontecimentos mais importantes deste momento é a unidade das Centrais Sindicais. Estamos aqui em seis mas poderíamos estar em 11 centrais. Temos as condições de valorizar o que nos une. Fizemos um primeiro de maio fabuloso”, lembrou Miguel Torres, presidente da Força Sindical. José Calixto, da Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST) afirmou que “o sindicalismo está desafiado a se renovar para atuar como agente de transformação para gerar qualidade no mundo do trabalho”.

Para Sérgio Nobre, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), é o movimento sindical que vem apontando caminhos para um novo rumo para o país. “O Brasil precisa voltar a crescer pelo menos 5% ao ano por 10 anos. O governo Federal não faz. Guedes tem 5 ministérios e não toca nenhum”. Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores ressaltou a importância da conscientização da classe trabalhadora.Cabe às Centrais, de forma conjunta e solidária, tirar as pessoas das margens da miséria”. 

Antonio Neto, presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros, concluiu: “O que essa pandemia mostrou é que o Estado não existe no Brasil. Não existe na favela, nas comunidades. A classe operária e o povo mais sofrido não têm acesso a nada”. Adilson Araújo enfatizou a importância da unidade das Centrais para buscar um novo caminho para o país. “A crise gera oportunidades. É momento de acumular forças políticas para recolocar o Brasil no rumo do desenvolvimento, de uma nação mais humana e menos desigual, com direito à vida e à condições de trabalho decentes e seguras”.

Foto: Carolina Maria Ruy

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