Festival Lula Livre refletiu indignação popular contra prisão política

Em entrevista à Rádio Brasil Atual, cientista político Carlos Eduardo Martins avalia que governo Bolsonaro deve levar o país para um “colapso social e econômico”

Carlos Eduardo Martins, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) afirma que a grande mobilização registrada no domingo (2), durante o Festival Lula Livre, em São Paulo, refletiu a percepção cada vez mais crescente da população de que o ex-presidente foi alvo de uma prisão arbitrária, com fins políticos e eleitorais. O evento musical e ato político reuniu cerca de 80 mil pessoas, que acompanharam cerca de 30 apresentações diferentes, neste domingo (2), na Praça da República, região central da capital paulista.

“O Lula é uma figura importante. Essa eleição de 2018 foi maculada com o impedimento de sua candidatura. Certamente essa eleição seria diferente, com a participação de Lula, que está preso sem provas efetivas. Ele é um preso político e isso fica mais claro a cada dia”, disse Carlos Eduardo, entrevistado na manhã de hoje (3) pelos jornalistas Marilú Cabañas e Glauco Faria, da Rádio Brasil Atual. Ele enalteceu a coragem dos artistas ao se manifestarem, em meio aos ataques do governo Bolsonaro.

Colapso social

Martins também comentou a declaração do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), publicada neste fim de semana pelo jornal Estado de São Paulo, que, em cinco meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro sofre com a redução de expectativas positivas e o país caminha para um “colapso social”. Para o cientista político, o deputado federal tem razão, pois Bolsonaro caminha para um caos social e econômico.

“A situação da economia é tenebrosa, com um primeiro trimestre negativo. Não há perspectiva de sair dessa situação. A Emenda Constitucional 95 [que congelou as despesas públicas por 20 anos] inviabiliza qualquer possibilidade de sairmos dessa situação, sem a participação do Estado na economia”, disse Eduardo.

O professor lembra que o governo federal está perdido, apesar de tentar costurar acordos com os três Poderes. Um dos exemplos é a falta de força para a aprovar a “reforma” da Previdência. “Já foram apresentadas 272 emendas, ou seja, o Congresso tem cautela sobre essa proposta. Já se sabe, pelos cálculos do governo, que o custo do regime de transição é R$ 985 bilhões, ou seja, é quase a economia que o governo almejava. É uma proposta antissocial e só quer capitalizar os bancos”, criticou.

Carta de Lula

Coube ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o ato final do Festival Lula Livre, que reuniu neste domingo mais de 30 artistas no palco montado na Praça da República – hoje, a “Praça da Democracia”, segundo a definiu o homenageado.

Depois de quase oito horas de música, Thiago Trindade Lula da Silva, neto de Lula, leu mensagem enviada pelo avô. “Esse ato é na verdade um grito de liberdade que estava preso em nossas gargantas. Mais que um grito, um canto de liberdade (…) O cantos dos estudantes, que não aceitam nenhum retrocesso na educação. O canto das mulheres, que não aceitam abrir mão de nenhuma conquista histórica. O canto da juventude, que não aceita que lhe roubem os sonhos”, diz a carta.

Difícil não comparar a edição paulista da versão carioca do Festival Lula Livre, realizada em julho do ano passado, no centro do Rio de Janeiro. A diferença mais nítida ficou por conta do clima. Enquanto o festival do Rio teve como cenário o céu azul claro de cartão postal sobre os Arcos da Lapa, o show do centro paulistano desafiou o céu acinzentado pelas nuvens que insistiam em regar a praça e as cerca de 80 mil pessoas que por ali passaram, na avaliação dos organizadores.

No mais, ambos os eventos se assemelharam em gênero, número, diversidade de ritmos, público e na sensação de que estão todos do mesmo lado, numa trincheira animada de luta que reúne estudantes, professores, trabalhadores, artistas, gente jovem e das antigas. Todos por um Brasil democrático, cidadão, mais humano, inclusivo, alegre.

“Nada mais perigoso para nossos adversários que um povo que canta e é feliz. Que faz da arte e da cultura instrumentos de resistência. Vamos então à luta, sem medo de sermos felizes, com a certeza que o amor sempre vence”, disse Lula, pela voz de Thiago. O neto, com voz firme e punho cerrado, encerra o texto com uma frase que levou muitos aos prantos – “um abraço, com muita saudade e a vontade imensa de estar aí”. Leia a íntegra:

Agradeço de coração a cada uma e a cada um de vocês, artistas e público, que nesse 2 de junho fazem da praça da República a Praça da Democracia. Embora tenha o nome de “Festival Lula Livre”, sei que esse é muito mais que um ato de solidariedade a um preso político. O que vocês exigem é muito mais que a liberdade do Lula. É a liberdade de um povo que não aceita mais ser prisioneiro do ódio, da ganância e do obscurantismo.

Esse ato é na verdade um grito de liberdade que estava preso em nossas gargantas. Mais que um grito, um canto de liberdade. O canto dos trabalhadores que não aceitam mais o desemprego e a perda de seus direitos. O cantos dos estudantes, que não aceitam nenhum retrocesso na educação. O canto das mulheres, que não aceitam abrir mão de nenhuma conquista histórica. O canto da juventude, que não aceita que lhe roubem os sonhos, e da juventude negra em particular, que não aceita mais ser exterminada. O canto dos que ousam sonhar, e transformam sonhos em realidade.

Boa parte de vocês que aí estão, artistas e público, felizmente não viveram os horrores da ditadura civil e militar instalada em 1964, essa que alguns querem implantar de novo no Brasil. Foi um tempo em que a luta contra a censura podia ser traduzida em canções que diziam assim: “Você corta um verso, eu escrevo outro”.

Foi com muita luta que conseguimos acabar com a censura neste país. E não vamos aceitar essa outra forma de censura, que é a tentativa de acabar com as fontes de financiamento da arte e da cultura. Que não vamos aceitar a tentativa de censurar o pensamento crítico, estrangulando as universidades.

Se eles arrancam nossas faixas, nós escrevemos e botamos outras no lugar. E vamos continuar ocupando as ruas em defesa da educação, da saúde, públicas e de qualidade; das oportunidades para todas e todos; contra todas as formas de desigualdade e de retrocesso.

Nossos adversários querem mais armas e menos livros, menos música, menos dança, menos teatro e menos cinema. E nós insistimos em ler, escrever, cantar e dançar, insistimos em ir ao teatro e fazer cinema.

Nada mais perigoso para nossos adversários que um povo que canta e é feliz. Que faz da arte e da cultura instrumentos de resistência. Vamos então à luta, sem medo de sermos felizes, com a certeza que o amor sempre vence.

Um abraço, com muita saudade e a vontade imensa de estar aí,

Lula

Fonte: Rede Brasil Atual

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