Diretas Já 30 anos: A campanha que mudou o Brasil

Há exatos 30 anos, no dia 25 de abril de 1984, uma campanha massiva por democracia decolava na Praça da Sé, na capital paulista, onde mais de 300 mil pessoas foram manifestar o repúdio ao autoritarismo e defender a liberdade. Trabalhadores, estudantes, artistas, intelectuais e políticos juntos numa só voz exigiam democracia. O hino das Diretas Já foi Coração do Estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso porque absorveu bem o clamor popular e sintetizou em seus versos a vontade da maioria da população:

“Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora, cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê
Flor, flor, e fruto”

A bem da verdade já ocorriam algumas manifestações menores em diversas cidades do país, inclusive em 27 de novembro de 1983, na Praça Charles Miller, no Pacaembu, São Paulo e em Curitiba, dia 12 de janeiro de 1984, mas foi a partir de São Paulo que o movimento ganhou caráter nacional e tomou as ruas como não se via a tempos no país.

Depois de muitos anos de refluxo, o movimento sindical ganhou pujança no final dos anos 1970 e início de 1980 no ABC paulista, a União Nacional dos Estudantes (UNE) era reconstruída a partir de 1977. Esses dois fatores empoderaram o movimento popular que já mostrava descontentamento com os rumos do país. O Movimento Contra a Carestia também promovia manifestações na década de 1970. E em 1979 foi conquistada a Anistia e milhares de exilados e clandestinos puderam retomar suas vidas.

Mas foi a campanha Diretas Já que massificou a luta, colocando a ditadura em xeque como jamais havia sido colocada. Depois do 25 de janeiro em São Paulo, pipocaram manifestações em todo o país. Tudo para que o Congresso aprovasse a emenda constitucional que ganhou o nome do seu autor Dante de Oliveira, na época do PMDB de Mato Grosso.

No dia 10 de abril, a Candelária no Rio de janeiro se orgulhou com mais de 1 milhão de manifestantes gritando Diretas Já. E para não ficar atrás, o Vale do Anhangabaú, em São Paulo, viu também mais de 1,5 milhão de pessoas de blusa amarela querendo votar para presidente no dia 16 de abril. Não importa o número, mas o país inteiro se mobilizou e abraçou essa causa. Não se agüentava mais tanta repressão.

Mesmo assim, no dia 25 de abril a emenda constitucional depois de 16 horas de sessão, 60 discursos, 268 votos a favor, 65 contra, 113 ausências e 3 abstenções, foi rejeitada. A nação chorou essa derrota, mas tamanha manifestação não foi em vão. Rapidamente as forças políticas esclarecidas concatenaram a candidatura oposicionista com Tancredo Neves candidato à Presidência e José Sarney para vice. Essa aliança com a participação de amplos setores populares e de esquerda pôs fim à ditadura derrotando o candidato do regime Paulo Maluf.

No dia 15 de janeiro de 1985, a Aliança Democrática elegia via colégio eleitoral Tancredo para um mandato de 6 anos com 480 votos (72,4%) contra 180 dados a Maluf (27,3%). Houve 26 abstenções. Tancredo foi internado no Hospital de Base de Brasília na véspera da posse para presidente, então no dia 15 de março de 1985 Sarney assumia interinamente a Presidência. Com o anúncio da morte do velho político mineiro no dia 21 de abril, Sarney consagrou-se o presidente.

Duas canções ilustram esse período jogando esperança para o futuro de modo contundente. Pelas Tabelas, de Chico Buarque diz:

“Quando vi um bocado de gente descendo as favelas
Eu achei que era o povo que vinha pedir
A cabeça de um homem que olhava as favelas
Minha cabeça rolando no Maracanã”

Foram legalizados os partidos políticos e para consagrar a redemocratização do país, foi constituída uma Assembleia Nacional Constituinte, que em 5 de outubro de 1988 promulgou a mais avançada das Constituições brasileiras, depois de anos de discussão. A Constituição Cidadã enterrava de vez o regime fascista. E o Brasil mergulhou no mais longo período de vida democrática de sua história. Lá se vão 29 anos respirando ares democráticos.

Outra canção essa de Chico Buarque e Francis Hime. Vai Passar, virou hino da democracia ao sintetizar todas as lutas e sofrimentos até o país ver emergir a liberdade e soltar o grito contido de anos. A música mostra “uma alegria fugaz”, porque sabia que muita coisa estava por fazer para o país chegar onde se encontra hoje e avançar cada vez mais rumo a vida boa para todos:

“Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais (…)

Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
Vai passar”

Depois de 30 anos, a vida brasileira mudou. Mas principalmente a partir da chegada de Lula à Presidência da República e tirar o país da prisão neoliberal, combater a pobreza e levar a nação a ser respeitada em todo o mundo. A questão agora é levar para as ruas a bandeira da reforma política com participação popular, democratizar os meios de comunicação, tirar o peso do poder econômico privado das eleições, reforma urbana e agrária, entre outra questões. O desafio consiste em concatenar os movimentos para construir o novo.

Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

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