Delegado Waldir e R$ 10 mi para eleger Lira

Por Altamiro Borges

O site The Intercept-Brasil, o mesmo que desmascarou o ex-juizeco e ex-ministro Sergio Moro com a Vaza-Jato, publicou na semana passada outra reportagem bombástica, que desmoraliza o laranjal de Jair Bolsonaro. “Exclusivo: ‘R$ 10 milhões para todo parlamentar’. Deputado bolsonarista revela o preço da eleição de Arthur Lira”, estampou na manchete.

Segundo a matéria, assinada pelo jornalista Guilherme Mazieiro, o deputado Waldir Soares de Oliveira, conhecido como Delegado Waldir, o mais votado de Goiás em 2018 e ex-líder do PSL na Câmara Federal, escancarou em um áudio “o funcionamento do orçamento secreto do Bolsolão na compra de votos pelo governo”.

Como lembra, “em fevereiro passado, o alagoano Arthur Lira foi eleito presidente da Câmara dos Deputados numa vitória esmagadora. Recebeu 302 votos no primeiro turno – a casa tem 513 deputados. A mudança no comando foi fundamental para o governo de Jair Bolsonaro. Sob a batuta autoritária de Lira, do Progressistas, o bloco governista atropelou ritos e a oposição para garantir a aprovação de projetos como a emenda constitucional dos precatórios, que viabiliza o Auxílio Brasil, a autonomia do Banco Central e projetos para viabilizar as privatizações de Eletrobras e Correios”.

Bolsolão e o esquema de compra de votos

Na época, a imprensa até especulou que o apoio à eleição do cacique do Centrão se deu com a compra de votos através de emendas parlamentares. Mas ninguém conseguiu comprovar a suspeita da maracutaia. Agora, porém, um dos envolvidos confirma o jogo pesado para eleger o aliado de ocasião do neofascista Jair Bolsonaro.

“Em duas conversas comigo, o deputado federal Waldir Soares de Oliveira, do PSL, revelou o segredo: a promessa de R$ 10 milhões em emendas do orçamento secreto para cada deputado que votasse em Lira. É o Bolsolão, o esquema de compra de votos do governo Bolsonaro”, relata o jornalista, que reproduz o áudio das conversas no site.

O “bolsonarista de primeira hora” expõe os detalhes de como funciona o tal “orçamento secreto” do governo – que foi primeiramente denunciado por uma série de reportagens do jornal Estadão. O esquema consiste na troca de votos por emendas do relator, “um novo tipo de rubrica de gastos que totaliza uma montanha de R$ 18,5 bilhões em 2021”. Pela mutreta, os nomes dos deputados proponentes das emendas são mantidos em sigilo pela Câmara Federal.

“Waldir diz ter recebido a oferta de R$ 10 milhões em emendas em troca do voto em Lira. Pode ter sido até mais. Waldir, em dado momento da conversa, disse que outros R$ 10 milhões foram acordados no mesmo período, mas ele não soube precisar se também em troca do voto em Lira ou da aprovação de algum outro projeto à época”, descreve a bombástica matéria, que prossegue:

“Quem manda no governo hoje é o Lira”

“Uma vez no comando da Câmara, Lira passou a usar as emendas de relator para se tornar uma espécie de primeiro-ministro informal – ou o chefe do governo semipresidencialista que ele defende. Sem a transparência devida, as emendas secretas se tornaram peças de barganha para que Lira aprove projetos de interesse do governo ou dele mesmo”.

“Quem manda no governo hoje é o Lira. Não é o Bolsonaro, é o Lira”, afirma o deputado, hoje em conflito com o governo. No áudio, o Delegado Waldir acusou um desafeto, Vitor Hugo, também do PSL de Goiás, de receber R$ 300 milhões em emendas secretas. Afirma, ainda, que deputados da oposição também receberam verbas do orçamento secreto após negociarem com Lira – mas não dá os nome dos fisiológicos.

“Se o orçamento secreto é uma novidade, a troca de votos por emendas, não. Waldir me disse que, ao votar a favor da reforma da Previdência, em 2019, cada parlamentar teria direito a R$ 20 milhões em recursos do governo. O goiano, por ser líder do PSL, levou o dobro. Como na época ainda não existia a emenda de relator, o dinheiro seria liberado pelo governo federal a partir de verbas de uso discricionário – ou seja, em que o Executivo pode decidir a aplicação”.

A participação do general Luiz Eduardo Ramos

As duas conversas com o Delegado Waldir ocorreram entre outubro e novembro. “Nelas, o deputado me revelou que o sistema teve participação importante de um general de quatro estrelas da reserva, Luiz Eduardo Ramos, secretário-geral da Presidência da República”. O milico, que foi ministro-chefe da Casa Civil e da Secretaria de Governo, era o responsável pela articulação política com o Congresso Nacional. Ele adora posar de ético.

O desabafo do ex-bolsonarista decorre do fato de que ele não recebeu os milhões negociados. “Ele conta que a verba foi bloqueada depois de um racha no PSL, em 2019. Em outubro daquele ano, a bancada do partido vivia uma guerra interna. Waldir acusou Bolsonaro de tê-lo destituído da liderança para colocar ali o filho, Eduardo Bolsonaro. Em uma reunião interna, Waldir chamou Bolsonaro de ‘vagabundo’ e disse que ‘implodiria’ o presidente. A crise se agravou e culminou com a saída de Jair Bolsonaro da sigla, em novembro”.

As longas conversas com o Delegado Waldir estão disponíveis no site The Intercept-Brasil. Vale a pena conferir. Elas dão ânsia de vômito e mostram a podridão do laranjal de Jair Bolsonaro. Só mesmo os otários – que “comem merda” se o presidente mandar, como afirmou Sara Winter, outra ex-bolsonarista – para acreditar em ética nesse governo.

Mídia abafa a revelação do bolsonarista

No geral, a mídia monopolista repercutiu pouco a revelação do site progressista. Ela não foi destaque nas emissoras de rádio e televisão e nem manchete nos jornalões e revistonas. Mesmo assim, ela já causou rebuliço. O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), por exemplo, entrou com representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Arthur Lira e o general-ministro Luiz Eduardo Ramos, tendo como base a denúncia do site The Intercept-Brasil.

A peça trata das compras de votos que teriam ocorrido em questões tidas como prioritárias na Câmara Federal, como na eleição do cacique do Centrão e na aprovação da deforma da Previdência. Nela, o deputado denuncia a “prática de crime de responsabilidade, de improbidade administrativa e outras irregularidades” de Arthur Lira e de Luiz Eduardo Ramos.

Ivan Valente também pediu que uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) seja instaurada para apurar as denúncias feitas pelo ex-líder do PSL. “É um verdadeiro absurdo que o governo, em conluio com o Centrão, articule o sequestro do orçamento da União em prol de seus interesses que se resumem em evitar impeachment e atacar os direitos dos ‘de baixo’ em prol do lucro dos ‘de cima'”.

Charge: Amarildo

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