Debate na Cúpula dos Povos defende desenvolvimento sustentável centralizado no povo brasileiro

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“Defendemos um projeto de desenvolvimento que atenda às necessidades dos povos e não aos interesses do capitalismo em detrimento do bem-estar social”, essa foi a afirmação feita por Joílson Cardoso, secretário de Política Sindical e Relações Institucionais da CTB, na mesa “os Movimentos Sociais e o Desenvolvimento Sustentável Inclusivo com Democracia e Soberania Nacional”, promovida nesta terça-feira (19), na Cúpula dos Povos. Evento da sociedade civil paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20).

Realizada na Tenda Milton Santos, que ficou pequena para centenas de sindicalistas, estudantes e líderes comunitários que compareceram ao debate promovido pela Fundação Maurício Grabois em parceria com o INMA (Instituto Nacional de Defesa do Meio Ambiente), a atividade mais uma vez reforçou a luta por um desenvolvimento que prioriza a vontade dos povos.

Além do secretário de Política Sindical da CTB, participaram da mesa Aldo Arantes, presidente do Instituto Nacional de Pesquisas e Defesa do Meio Ambiente (INMA) e  secretário nacional de Meio Ambiente do PCdoB, Renato Simões, dirigente do PT, Daniel Ilesco, presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Rosane Bertotti, dirigente da CUT; e o coordenador da mesa, o presidente da Fundação, Adalberto Monteiro.

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Social atrelado ao ambiental

Abrindo as falas, Renato Simões traçou um paralelo entre a crise capitalista e a ambiental. Para o petista, uma é consequência da outra. “Essa crise ambiental vem do capitalismo e seu sistema de exploração. Portanto, não podemos permitir que a economia verde seja confundida com o capitalismo verde, que usa subterfúgios ambinetais para interesses próprios. Daí a importância de nos mantermos unidos para implantar nossa estratégia”.

Durante as atividades, os sindicalistas mostraram-se pouco animados com os resultados que poderão surgir da Rio+20 e foram unânimes nas criticas ao capitalismo verde, seus interesses supostamente ambientais e prejuízos tanto para o meio ambiente, quanto para os milhões de homens e mulheres, que continuam convivendo diariamente com a fome e a miséria.

“Acreditamos que a Rio+20 viverá uma crise de governança global, porque os países ricos têm a postura de não assumir o que deveriam em termos de sustentabilidade, desenvolvimento e soberania dos povos. Nesse sentido, nós temos que construir uma governança entre as forças que aqui estão representadas (os movimentos sociais e partidos políticos), para que possamos apresentar à Rio+20 e que o nosso país tenha um projeto de desenvolvimento sustentável centralizado no povo brasileiro. E só conseguiremos desenvolver esse projeto com o protagonismo dos movimentos sociais”, afirmou o dirigente cetebista Joilson Cardoso.

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Para o sindicalista essa onda verde acaba por priorizar a defesa ambiental, esquecendo-se de pessoas que não possuem o acesso mínimo a serviços que ofereçam qualidade de vida, como saúde, moradia e educação, que também devem ser observados.

“A insustentabilidade do sistema capitalista se dá na grande utilização dos recursos do planeta e para concentrar de riquezas que condena populações à miséria. Falo da produção de alimentos, como no caso do Brasil, onde 80% dos alimentos que vão para a mesa das famílias é produzido pela agricultura familiar. Enquanto o agronegocio concentra uma quantidade enorme de terra, que serve não para produzir e promover a soberania militar, mas para gerar commodities (exportação) e fazer o jogo do mercado”, salienta Cardoso, ao completar: “Defendemos o desenvolvimento sustentável, que só dará se levar em conta a vida dos povos do planeta. É inconcebível termos um desenvolvimento com consumo exacerbado enquanto milhões de pessoas se vem em situação de extrema pobreza”.

Já para a representante da CUT, o Brasil ainda tem muito a discutir antes de chegar a um projeto de desenvolvimento com vistas à preservação do meio ambiente. “Não dá pra discutir a questão ambiental antes de discutirmos três eixos na questão do desenvolvimento que está posto: dimensões sociais, econômica e políticas. Não tem como discutirmos desenvolvimento sustentável enquanto ainda existe tanta gente abaixo da linha da pobreza”, observou Rosane Bertotti.

Dados apontam revelados pelo assessor da Secretaria Geral da Presidência da República, Selvino Heck, apontam que apesar de o país não possuir mais pessoas em situação de fome crônica, ainda existem 20 milhões de brasileiros que vivem em extrema pobreza.

“Economia verde” do mercado

Na opinião do comunista Aldo Arantes, a reserva dos sindicalistas em discutir os temas ambientais se deve ao fato de que o imperialismo tem utilizado a questão ambiental para atingir seus objetivos, vendo os recursos naturais como reserva estratégica para suas pretensões mercantis.

No entanto, Arantes, afirmou que é o momento de fazer essa discussão, porém com vistas para reformas estruturantes essenciais para que se chegue ao desenvolvimento com democracia e inclusão. “Estamos em um momento de transição que se traduz no projeto nacional de desenvolvimento ou reformas estruturais como a reforma agrária, a urbana, enfim, um conjunto que incorpore o meio ambiente como fator estruturante para o desenvolvimento”, disse.

Para o dirigente, a sobrevivência do homem é inerente da natureza. E cada um é tratado isoladamente. O que leva ao erro. “Isso não quer dizer que não queiramos reduzir o efeito estufa, desmatamento, entre outros problemas ambientais. No entanto, essas questões só poderão ser resolvidas com a atuação dos movimentos sociais. Daí a importância da Cúpula dos Povos, não só para denunciar o capitalismo, mas para formular uma agenda de lutas. Pois nosso desafio é construir uma corrente para mudar esse pensamento acerca desse tipo de desenvolvimento ambiental”, destacou Arantes.

Capitalismo disfarçado

Representante dos estudantes que ocuparam grande parte do plenário, o presidente da UNE, Daniel Iliescu, não se furtou em fazer críticas ao capitalismo pintado de verde. “Reforçamos a crítica do movimento social de todo o planeta à concepção da economia verde, do mercado verde e do capitalismo verde. Só a mudança da cor não nos basta. É preciso aliar o desenvolvimento com sustentabilidade ambiental ao fim da exploração do trabalho, da degradação do homem e das guerras que infelizmente ainda marcam o cenário mundial”.

Em seguida, o presidente da UNE criticou a criação de uma Agência Ambiental nos moldes da Organização Mundial do Comércio (OMC) e defender, em seu lugar, o Conselho Mundial de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

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Ao final, foi saudada a presença de Rafael Hidalgo, representante da Embaixada de Cuba e feita a leitura do documento e abaixo-assinado que será enviando ao presidente dos EUA, Barack Obama, pedindo a libertação dos cinco heróis cubanos.

Iniciada no sábado (16), a Cúpula dos Povos deve receber cerca de 15 mil participantes, brasileiros e estrangeiros, até o dia 23 de junho. Mais de 600 eventos irão ocorrer nas tendas e quiosques instalados no Aterro do Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro.

Cinthia Ribas – Portal CTB

 

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