Cruvinel: Governo Temer cogita entrega de Base Espacial de Alcântara aos Estados Unidos

A jornalista Tereza Cruvinel escreveu nesta terça-feira (26) sobre uma possível retomada do tratado de concessão da base militar de Alcântara, no Maranhão. Segundo a reportagem, a entrega da base espacial aos Estados Unidos seria uma iniciativa do ministro interino de Relações Exteriores, José Serra. Ele esteve em reunião com o embaixador brasileiro em Washington, Sergio Amaral, para retomar a negociação.

Não há informações sobre datas ou prazos, mas o cenário é condizente com a atitude submissa de Serra. Desde que assumiu a pasta, o novo chefe do Itamaraty tem revertido decisões de auto-afirmação das últimas três gestões, inclusive a articulação com os BRICS e a promoção de políticas Sul-Sul.

Segundo a reportagem, a locação de Alcântara daria “amplos poderes” aos americanos, inclusive o de conduzir atividades aeroespaciais em sigilo. A escolha de Amaral para a condução do processo também não seria à toa: em seus muitos cargos durante o governo FHC, ele foi um dos principais interlocutores do presidente tucano junto à comunidade internacional, construindo o caráter entreguista que caracterizou a diplomacia sob o PSDB. No acordo do ano 2000, foi ele o relator da matéria na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, e dali saíram os termos que entregariam Alcântara para os americanos até 2002. O tema foi engavetado com a eleição de Lula, que o considerou “lesivo à soberania nacional”.

O Centro de Lançamento de Alcântara possui uma característica única no Planeta Terra, que desperta o interesse de muitas nações com tecnologia aeroespacial. Por sua localização privilegiada na linha do Equador, a base reduz em até 30% o custo de um lançamento. Na prática, isso representa dezenas de milhões de dólares economizados por operação. O Brasil realiza parcerias com diversos países para explorar este potencial, inclusive os Estados Unidos.

Sabotagem no Programa Espacial Brasileiro

A polêmica em torno da base de Alcântara é agravada pelo grande acidente ocorrido em agosto de 2003, quando o lançamento de um foguete se transformou num incêndio catastrófico, matando dezenas de pessoas. O acontecimento não apenas tirou a vida de muitos profissionais qualificados no campo de pesquisa espacial, como jogou um balde de água fria no programa, então um dos mais ativos do mundo.

Apesar de ter sido inicialmente considerado um erro técnico, uma série de documentos vazados pelo Wikileaks em 2011 revelaram mais tarde que o governo dos Estados Unidos fazia oposição aberta ao sucesso da missão brasileira, atuando por baixo dos panos para impedir quaisquer acordos de transferência de tecnologia à Força Aérea Brasileira. Isso levou muitos analistas a especularem sobre o papel que os EUA tiveram no acidente no lançamento, com interpretações apontando para possíveis tecnologias que o teriam evitado até a possibilidade de sabotagem direta por motivos geopolíticos.

Concretamente, o que se sabe é que os EUA adotam uma postura de impedimento quanto à transferência de tecnologias espaciais ao Brasil. Um exemplo patente é o da empresa binacional Alcântara Cyclone Space (ACS), fundada em parceria com o governo da Ucrânia ainda em 2003 para a construção do foguete Cyclone-4. Como revelado pelo Wikileaks, a iniciativa foi amplamente boicotada pelos Estados Unidos, que se utilizam de pressões econômicas e políticas para limitar as contribuições da Ucrânia no projeto. Ao longo de 13 anos, a parceria não conseguiu gerar frutos, apesar dos investimentos do governo brasileiro.

Com as revelações de espionagem americana sobre a presidenta Dilma Rousseff em 2013, a teoria de sabotagem ganhou nova força entre os analistas. Se houver de fato a reativação do acordo, será impossível ignorar a possibilidade de interferência americana em Alcântara.

Portal CTB

Compartilhar: