Cresce a insatisfação de Bolsonaro com Sergio Moro

Por Fabio Murakawa, Andrea Jubé, Isadora Peron, Mariana Muniz, Renan Truffi e Raphael Di Cunto, no jornal Valor

O presidente Jair Bolsonaro tem manifestado a interlocutores insatisfação com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, uma das estrelas do governo. O ex-juiz da Lava-Jato também se sente desconfortável com o processo de “fritura” que está sofrendo, sobretudo de nomes ligados ao núcleo familiar do presidente.

Presidente e ministro reuniram-se no fim da tarde de ontem no Palácio do Planalto. O Valor apurou que a reunião foi para “esclarecer eventuais mal-entendidos”. Depois, Moro participou da transmissão ao vivo que Bolsonaro faz toda semana no Facebook (ver abaixo). O descontentamento de Bolsonaro com Moro aumentou nos últimos dias e o pivô dessa história é Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

O presidente relatou a deputados que não gostou de ter ficado sabendo pela imprensa de uma reunião entre Moro e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, em que o ministro teria criticado a decisão de suspender o compartilhamento de informações do Coaf. A medida beneficiou diretamente o primogênito do presidente, senador Flavio Bolsonaro (PSL/RJ).

Aliado de Moro, o presidente do Coaf, Roberto Leonel, também deu entrevistas criticando a medida – dizem que ele não faria isso sem o aval do amigo de Curitiba. Depois disso, o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi orientado a trocar o comando do órgão.

Em outro movimento hostil a Moro, Bolsonaro disse ontem que o governo não irá pressionar o Congresso pela aprovação do pacote anticrime, uma das bandeiras do ex-juiz. “O ministro Moro é da Justiça, mas ele não tem poder de… não julga mais ninguém. Entendo a angústia dele em querer que o projeto dele vá para a frente, mas nós temos que diminuir o desemprego, fazer o Brasil andar, abrir o nosso comércio”.

A alfinetada não foi à toa. Uma fonte afirmou que Bolsonaro chegou, em um rompante, a dizer que não gostaria mais de ter Moro em sua equipe. No Planalto, porém, costuma-se dizer que “há dois ministros que não podem ser demitidos ou sair brigados do governo”. Um deles é Guedes o outro, o próprio Moro.

Apesar disso, um interlocutor afirma que a ala ligada à família Bolsonaro atua para “dar uma enfraquecida natural” em Moro. Enquanto isso, Bolsonaro deve “jogar parado”. Na visão desse grupo, Moro “não pode ser tão blindado” de crises e do desgaste da opinião pública. Entre outras coisas, porque o ministro é considerado um potencial adversário de Bolsonaro na eleição de 2022.

Auxiliares do presidente observam ainda que dificilmente Bolsonaro poderia demitir o ministro. Ele ainda é identificado por uma parcela expressiva da população como o símbolo da Lava-Jato e do combate à corrupção. Moro sofreu desgaste com a sequência de vazamentos de diálogos que manteve com o procurador Deltan Dallagnol, mas essas fissuras não foram suficientes para que perdesse apoio considerável da população. Foram convocadas novas manifestações de rua para o próximo dia 25 de agosto em apoio a Moro, à Lava-Jato, ao pacote anticrime e contra os ministros do STF.

O desconforto com os desdobramentos das mensagens vazadas pela imprensa, porém, persiste. Ontem, em ofício encaminhado ao ministro do STF Luiz Fux, o ministro da Justiça, que é chefe da Polícia Federal, teve que dar explicações e afirmar que não determinou a destruição do material obtido pela Operação Spoofing, que apura invasões a celulares de autoridades.

Segundo, Moro houve um “mal-entendido” por parte do presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio de Noronha, que afirmou, em nota, que o ministro teria lhe informado que as mensagens seriam descartadas “para não devassar a intimidade de ninguém”.

Também ontem, Moro pediu que a Procuradoria-Geral da República (PGR) abra um inquérito contra o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, que insinuou que o ministro teve acesso ao inquérito sobre os hackers, que está sob sigilo. A iniciativa de Moro é mais uma tentativa de mostrar sintonia com o presidente, que elegeu a família Santa Cruz como alvo nas últimas semanas.

Quando perguntados sobre a crise, auxiliares de Moro dizem que ele não deseja pedir demissão. Até quando vai aguentar os sucessivos ataques de dentro e de fora do governo, porém, é uma incógnita. Procurado, Moro negou, via assessoria, que haja desentendimento com o presidente. “A minha relação com o presidente Bolsonaro está ótima.”

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