Contra a reforma trabalhista, especialistas advertem que trabalhar em excesso faz mal à saúde

Cena do filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin (Foto: Divulgação)

Enquanto as centrais sindicais lutam pela redução da jornada para 40h semanais, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida de quem trabalha e ainda para que sejam criados mais empregos, o governo ilegítimo de Michel Temer propõe estender a jornada para 12 horas diárias. 

A jornada excessiva de trabalho persegue a classe trabalhadora. A institucionalização de uma jornada veio com as lutas operárias na Revolução Industrial, entre os séculos 18 e 19, quando as pessoas trabalhavam até 16 horas por dia, inclusive mulheres e crianças.

O pesquisador do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, Luiz Carlos Fadel, que também é um dos coordenadores do Fórum Intersindical Saúde, Trabalho e Direito, explica o lema da época sobre a jornada de 8h diárias.

“O lema da luta, na época, era 8 horas para o sono, 8 horas para a família e 8 horas para o trabalho”, diz. A reforma trabalhista pretendida por Temer, para ele, “é uma clara e indecente tentativa de desconstruir direitos dos trabalhadores”.

“Vendemos nossa força de trabalho para o nosso sustento, contudo o adoecimento e a morte no trabalho, grave problema de saúde pública, tem números alarmantes e desconsiderados pela gestão do SUS (Sistema Único de Saúde)”, diz Luciene Aguiar, doutoranda em Saúde Pública na ENSP/Fiocruz.

Acidentes e doenças crescem

Aguiar informa que o Observatório de Saúde e Segurança do Trabalho registra que desde 2012 ocorreram 3.530.209 acidentes, um a cada 47 segundos.

Acesse o site do observatório neste link https://observatoriosst.mpt.mp.br

O Observatório aponta ainda os gastos da Previdência com auxílio-doença, aposentadoria por invalidez, pensão por morte e auxílio-acidente, superam os R$ 20 bilhões, no mesmo período.

“Esse valor não representa os gastos com servidores públicos, militares, trabalhadores informais etc. Apenas os com o vínculo com base na Consolidação das Leis do Trabalho”, define Aguiar.

Fadel assinala que “as doenças decorrentes da sobrecarga de trabalho são inúmeras, causadas pelo estresse e que podem levar até ao suicídio”, afirma. 

Ele explica ainda que os males causados vão da violência doméstica à depressão, passando pelas doenças psicossomáticas. Devido ao tempo de locomoção para ir ao trabalho e voltar para casa, Fadel afirma que a situação é pior nos grandes centros.

“Especialmente nos centros urbanos, o trabalhador, já há muito tempo não usufrui daquelas tão almejadas 8h para o sono e 8h para a família”.

Descanso remunerado

Imagine trabalhar 12h diárias e não ter direito a 30 dias consecutivos de férias. Pois é isso o que a reforma trabalhista pretende ao admitir a prevalência do negociado sobre o legislado, pelo qual o patrão pode requerer o parcelamento de seu descanso remunerado.

Para Fadel, “o direito às férias, em que o trabalhador tem uma certa autonomia para escolher o período e adequar a agenda às suas necessidades de descanso e convívio familiar, também está sendo desfigurado”.

“Não causará espanto se no processo reformista perverso, as férias sejam consideradas um objeto de barganha entre patrões e empregados”, sintetiza.

O especialista em saúde pública afirma que “o desgaste físico e mental dos trabalhadores é proporcional ao tempo que se trabalha”. Diz ainda que o controle desse tempo, de certa forma, é determinado pelo patrão.

“Com a reforma trabalhista, o que se quer é aumentar o controle e, portanto, aumentar a exploração do corpo do trabalhador” e isso, diz ele, causará ainda “mais desgaste, mais doença, mais acidente, mais morte”.

Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

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