Combater a desigualdade é fundamental para o país crescer, revela pesquisa

Por Marcos Aurélio Ruy (Foto de Brenda Alcântara/Oxfam Brasil)

Divulgada recentemente, a terceira edição da pesquisa Nós e as Desigualdades, da Oxfam Brasil em parceria com o Datafolha, revela que 86% das pessoas condicionam o progresso soberano do país ao combate à desigualdade social. E 85% acham obrigação do Estado promover a igualdade. Péssima notícia para os neoliberais e para a extrema-direita.

Maioria absoluta dos 2.079 entrevistados, em 130 cidades de todas as regiões, entre os dias 7 e 15 de dezembro do ano passado, acredita na taxação das grandes fortunas como forma de diminuir a pobreza, que já atinge mais de 120 milhões de brasileiros.

Aumentar a cobrança de impostos dos mais ricos é defendida por 86% das pessoas. Inclusive, 94% acreditam que os impostos devem beneficiar políticas públicas para atender as necessidades dos mais pobres.

“Esperamos que esta pesquisa contribua para o debate sobre a importância do Estado no enfrentamento das desigualdades, ainda mais em um contexto de desafios adicionais graças à pandemia, a partir da percepção da sociedade, fomentar o debate sobre a urgência da construção de um Brasil mais justo, solidário e humano”, diz Katia Drager Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil.

Veja o relatório completo aqui.

De acordo com os dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil é um dos países com maior concentração de riquezas do mundo. Em 2019, só perdia para o Catar. Nesse levantamento, o 1% mais rico do país detinha 28,3% da riqueza produzida. O fosso da desigualdade se aprofunda ao reparar que os 10% mais ricos do país abocanhavam em 2019, 41,9% da riqueza. Menos de 60% ficava nas mãos de 90% da população.

Para piorar, a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta o agravamento da desigualdade durante a pandemia. Enquanto os 10% mais ricos perderam apenas 3% da renda, os 40% mais pobres perderam 30%, em 2020.

“Na realidade, a desigualdade vem crescendo no Brasil a partir de 2016, com agravamento no governo de Jair Bolsonaro”, realça Vânia Marques Pinto, secretária de Políticas Sociais, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). “O negacionismo e a falta de ação para comprar vacina agravou ainda mais”.

Somados os desempregados e os desalentados, no país, formam um exército de cerca de 20 milhões de pessoas sem perspectiva de melhorias a curto e médio prazos.

A Oxfam mostra também que a maioria acredita que a educação é a principal forma de melhora de vida (22%), seguidos da fé religiosa (21%) e acesso à saúde de qualidade (19%).

“Com todos os ataques sistemáticos promovidos pelo atual governo e o sucateamento das escolas públicas feito por diversos governadores, a população mais pobre sabiamente enxerga na escola a maneira de melhorar de vida”, afirma Francisca Pereira da Rocha Seixas, dirigente da CTB-SP, da Apeoesp e da CNTE.

A pesquisa da Oxfam destaca também a percepção de que a meritocracia não pode existir num país tão desigual quanto o Brasil, 60% acreditam nisso.

Para 67% as mulheres ganham menos por serem mulheres e pelo mesmo motivo enfrentam mais dificuldades que os homens no mercado de trabalho. Enquanto 58% percebem que os negros ganham menos por serem negros, além de 76% acreditarem que a cor da pele influencia na contratação pelas empresas.

“Cada vez mais as pessoas vão percebendo que racismo estrutural mantém a população negra – maioria no país – em grandes dificuldades no mundo do trabalho e na vida”, reforça Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da CTB.

E ainda, para 84% a abordagem policial é mais violenta e para 78% a justiça é mais dura em relação aos negros. Além de que os pobres negros sofrem mais que os pobres brancos para 81% dos entrevistados.

“Estudar essa pesquisa da Oxfam é importante para prepararmos os passos futuros para a construção de um país mais igual”, acentua Vânia. “Reconquistar os direitos trabalhistas e fortalecer o movimento sindical são medidas essenciais para isso”.

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