Bolsonaro não abre mão do nepotismo

O anúncio de que pretende indicar o próprio filho, Eduardo Bolsonaro, para o posto de embaixador do Brasil nos EUA gerou uma enxurrada de críticas ao presidente Jair Bolsonaro não apenas internamente, mas ainda com mais força no exterior. O ministro do STF, Marco Aurélio Mello, disse que seria um caso típico de nepotismo e não faltou quem imaginasse que o líder da extrema direita brasileira iria recuar, mas nesta segunda-feira ele reafirmou o sinistro propósito em discurso na Câmara Federal.

“Se está sendo criticado é sinal de que é a pessoa adequada”, disse o pai. Mas é bem o contrário. Além do óbvio nepotismo, as críticas apontam as variadas razões pelas quais o indicado não reúne as qualidades exigidas ao cargo, a começar pelo espírito de vira lata em relação a Washington, o desprezo por brasileiros imigrantes (que ele chegou a ofender), a idolatria em relação a Donald Trump, a ignorância da geopolítica e, dentro dela, dos interesses nacionais.

A possibilidade do filho ser indicado para a embaixada foi levantada por Bolsonaro na quinta-feira (11). Desde então, a iniciativa provocou um vendaval de críticas de setores ligados às relações exteriores, no meio jurídico, na mídia internacional e no Parlamento.

A indicação terá que ser avalizada pelo Senado, onde Eduardo Bolsonaro, hoje deputado federal do PSL, terá de ser sabatinad/o. Questionado por jornalistas se a eventual indicação de Eduardo se encaixaria como nepotismo, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Jorge Oliveira, negou, como era de se esperar. Oliveira também responde pela Subchefia de Assuntos Jurídicos (SAJ) da Presidência, órgão que analisa a legalidade dos atos assinados pelo presidente da República. “Eu respeito a visão de quem entende que haja nepotismo, mas eu discordo. Entendo que não é, porque é um cargo eminentemente político”, disse.

Críticas

As reações cíticas à ideia de Bolsonaro foram generalizadas. No Itamaraty, diplomatas disseram não se lembrar de alguma vez em que um parente de primeiro grau de um presidente da República foi nomeado para uma embaixada.

O diplomata Paulo Roberto Almeida classificou de “afronta” a possível indicação de Eduardo Bolsonaro ao posto. De acordo com ele, não é usual haver um debate sobre o nome do futuro embaixador. “Normalmente, isso é tratado em segredo entre as partes. E só depois de haver uma sinalização do governo estrangeiro de que vai aceitar o nome é que ele é anunciado.”

O deputador federal, diplomata e ex-ministro Marcelo Calero (PPS-RJ) escreveu em rede social: “É inacreditável que @jairbolsonaro, quebrando a tradição de nomear apenas técnicos para a chefia das Embaixadas, ou seja, diplomatas de carreira, resolva indicar o próprio filho para o cargo de Embaixador junto aos EUA. O Brasil, mais uma vez, será motivo de chacota. Vergonha”.

O ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello reiterou que o caso configura nepotismo porque, segundo ele, a Constituição afasta a possibilidade de o presidente nomear o filho. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou que a oposição no Senado vai fazer “tudo” para barrar uma eventual nomeação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada. Ele classificou a ideia de “escárnio”.

“Não tem como aceitar. Nós, da oposição, vamos fazer tudo pra impedir que isso se concretize. É um caso flagrante de nepotismo. Não tem precedente na história republicana do presidente da República nomear um filho seu para um posto diplomático. Ainda mais este posto diplomático, o mais importante da diplomacia brasileira depois do Itamaraty. É uma indecência. É um escárnio, é nepotismo declarado”, disse o senador, em um evento em Macapá.

Evangélico para o STF

Bolsonaro disse na semana passada, em um culto e em sessão solene no plenário, que indicará para o Supremo Tribunal Federal (STF) um ministro “terrivelmente evangélico”. Ele poderá ter duas indicações ao STF durante o mandato, que se encerra em 2022. Os ministros Celso de Mello (2020) e Marco Aurélio Mello (2021) se aposentarão e serão substituídos por nomes indicados por Bolsonaro.

Caso as indicações de Bolsonaro sejam consumados no futuro o STF vai adquirir um caráter ainda mais acentuadamente conservador e reacionário, em mais uma prova de que o atual chefe do Palácio do Planalto é o retrocesso em todas as frentes. A outra vaga, além do evangélico, foi prometida ao ministro da Justiça, Sergio Moro, hoje envolvido no escândalo da Lava Jato, cujas mensagens contradizem a fama de herói que lhe foi atribuída pela mídia burguesa e o mostra como um juiz ladrão, que condenou e prendeu o ex-presidente Lula sem provas em conluio com os procuradores da Lava Jato.

 

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