As armadilhas da economia

Por Carlos Lessa* 

A história somente se repete como farsa. Porém, é útil ter presente o que ela ensina, para não se mergulhar em tragédia. O Brasil, no final dos anos 60, a partir do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) e das facilidades de endividar-se no euromercado para financiar crédito ao consumo, deu início a uma prodigiosa expansão do endividamento familiar. Até aquela época, era insignificante o crédito às pessoas para aquisição de imóveis, autos e eletrodomésticos. A partir de um convidativo juro internacional no mercado de eurodólares, alimentamos um rápido crescimento das reservas internacionais, financiamos investimentos públicos e gestou-se o chamado "milagre dos anos 70".

 

Desconhecemos os sinais de crise financeira internacional. A ditadura falou do Brasil como uma "ilha de prosperidade". O general Médici teve um índice elevadíssimo de aprovação popular — afinal, a inflação estava cedendo e o emprego e a produção crescendo. O general Geisel pretendeu desconhecer a crise mundial: partiu da hipótese que o Brasil daria um "grande salto" e seria "potência mundial" no ano 2000. Nossas reservas se evaporaram e o mercado financeiro mundial penalizou o Brasil afogado na crise da dívida externa. Para os donos de dinheiro, havia a regra da moeda indexada. Todo o custo da inflação caía sobre os salários e setores empresariais mais frágeis. Foi preservada a moeda indexada.

A restauração da democracia instalou o Estado de Direito. A tentativa autoritária de Collor de cortar a inflação abriu a temporada de mutilações do espírito da Constituição de 1988. O Brasil mergulhou em 25 anos de estagnação. Os anos 80, denominados "Década Perdida", são sucedidos pela sucessão de governos de Fernandos e, até o primeiro quadriênio do presidente Lula, foram 25 anos de estagnação econômica. Na América Latina, o pior desempenho, à exceção do Haiti.

Os neoliberais sepultaram o nacional-desenvolvimentismo; adotaram, com entusiasmo de recém-chegados, o discurso da globalização e promoveram a abertura patrimonial, comercial e financeira de forma desassombrada. Praticamente condenaram o qualificativo "nacional". O desemprego campeou e o Brasil se converteu em país exportador de mão-de-obra; porém, o monstro inflacionário foi colocado sob controle. O prêmio exigido pelo capital rentista foi elevar a taxa de juros real para o primeiro posto no pódium financeiro mundial.

A âncora cambial é mantida pela super-remuneração de capitais oriundos do exterior, inclusive de brasileiros que "estrangeirizam" parcela de seu patrimônio. O país, estagnado, se desindustrializou. Recuamos da 8ª para a 13ª posição mundial em indústria. A desnacionalização, em quinze anos, dobrou sua percentagem na capacidade produtiva do país. A participação na renda nacional caiu de 50%, em 1960, para 37%, em 2006. Este foi o brutal preço econômico pago. Pelo ângulo psicossocial, sepultamos a idéia de "Brasil país de futuro" e disseminamos a falta de esperança coletiva, substituindo-a pela ego-referência pautada no imediato.

Houve uma quadra de mercado internacional extremamente favorável a matérias-primas e alimentos. O Brasil viveu a potencialidade deste tempo e desperdiçamos a oportunidade de implantar um "neoprojeto" nacional de desenvolvimento social. Trocamos o futuro por reservas internacionais brasileiras superiores a US$ 200 bilhões; exaltamos que seja maior que o estoque de dívida externa do país. Escondemos que uma parcela expressiva de dívida pública soberana é de propriedade de capital do exterior e que sua volatilidade é ameaçadora. O emprego cresceu nestes dois anos, a taxa de inflação parece bem comportada e o prestígio do presidente Lula quase encostou com o do general Médici.

Hoje, os sinais de crise internacional se acumulam. O presidente do FMI reconheceu estar em marcha uma recessão. Já houve queda absoluta do PIB americano e, em um mês, foram dispensados 80 mil trabalhadores.

Nos últimos dois anos, a economia brasileira tem crescido. No coração desse pulo estão algum crescimento no gasto público e uma verdadeira explosão do endividamento familiar. A dívida das famílias cresceu 7% em 2007. O primeiro trimestre de 2008 será 25% superior ao do ano passado; é possível comprar um automóvel sem entrada e em 90 prestações.

A família, talvez, não perceba, mas os juros que paga são um "imposto direto" sobre sua renda. É inquietante que esteja em crescimento o parcelamento do crédito pessoal dos correntistas pessoas físicas. A armadilha se fecha com um cenário internacional preocupante e as importações brasileiras explodindo. Alguns já projetam um déficit em conta corrente de US$ 20 bilhões.

Existe, no mercado financeiro, um conhecido "comportamento de manada". O boiadeiro teme o risco da manada em pânico. O Brasil dos neoliberais eliminou as salvaguardas em relação a sinais externos; persiste em sinalizar que aqui é uma "ilha de prosperidade" no cenário mundial. Com a queda dos juros norte-americanos, os escandalosos juros de nosso Banco Central ficam mais atraentes.

Oremos para que não haja nenhum princípio de "estouro de manada" no cenário financeiro internacional. Tenhamos presentes que ninguém nos socorrerá. Jamais seremos beneficiários por sermos "tão grandes" que não nos deixarão quebrar e nos será aplicado integralmente o princípio do "moral hazard". A Argentina hiper-bem comportada foi deixada à míngua pelo sistema financeiro internacional.

Nossa grande reserva em moeda estrangeira pode começar a virar pó. As agências internacionais relutam em reduzir o prêmio que pagamos por empréstimos no exterior; condicionam sua redução à elevação do superávit fiscal primário, ou seja, interromper o PAC. No momento, estamos pagando um prêmio maior do que em 2007. Rezemos para que esta não seja a avant-première do ingênuo caminhante para uma nova armadilha.

 

*Professor titular de economia brasileira da UFRJ

Fonte: Portal do PSB

 

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