Além do supercomputador, três grandes projetos de ciência brasileiros estão sofrendo com cortes

Há menos de um mês, a comunidade científica brasileira ficou escandalizada com a notícia de que o supercomputador Santos Dumont, o maior da América Latina, estava sendo desligado por falta de investimentos mínimos do Ministério da Ciência, Tecnologia, Informação e Comunicações, encabeçado atualmente por Gilberto Kassab (PSD-SP). O equipamento tem papel fundamental no combate a doenças como o Mal de Alzheimer e o virus zika, além de realizar os cálculos de prospecção do petróleo do pré-sal. Desde então, cientistas de todo o país têm denunciado outros projetos sofrendo do mesmo drama, sempre com uma história comum: cortes orçamentários, frutos da política de austeridade fiscal implementada desde 2015, que diminuíram de R$ 9,4 bilhões para R$ 3,5 bilhões o total de investimentos anuais e desembocaram numa fusão com o setor de Comunicações.

Dentre os projetos em estado preocupante, três integram a vanguarda da ciência brasileira, e por isso têm chamado atenção nas comunidades online.

O primeiro deles pertence ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para o Controle do Câncer (INCT), em Brasília, um grupo de 50 cientistas que trabalha em novas formas de terapia para o câncer. Usando a nanotecnologia e métodos experimentais de terapia por luz, trabalham na criação de medicamentos mais eficientes e com menos efeitos colaterais. O presidente do instituto, Ricardo Bentes de Azevedo, ressaltou em entrevista à BBC que o segundo método chegou a apresentar 100% de casos de remissão nas etapas mais recentes, mas não consegue avançar mais diante da escassez de recursos – o Ministério da Tecnologia está há quase dois anos sem oferecer financiamento ao grupo. “Isso efetivamente estaciona os projetos. Se não vierem recursos até o fim desse ano, teremos um retrocesso muito grande”, disse.

Outro grande projeto colocado em risco tem lugar na floresta amazônica, onde o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá tenta salvar milhares de jacarés e botos de mortes desnecessárias. As comunidades ribeirinhas do Amazonas têm por tradição a pesca do piracatinga (peixe que se alimenta de outros peixes mortos), mas as iscas usadas atualmente são feitas com carne de boto e jacaré – espécies que enfrentam outras ameaças de forma crescente. Apesar do sucesso em seus estágios iniciais, a pesquisa de iscas alternativas teve 65% de suas instalações fechadas e 42% dos funcionários demitidos em meses recentes por falta de dinheiro, e a proibição colocada sobre o peixe até 2020 não impediu que ela continuasse de forma ilegal. Os pescadores reclamam da falta de opção e do desemprego.

O Instituto Mamirauá servia também ao propósito de fazer o censo das comunidades da região, de difícil acesso. As informações estatísticas seriam essenciais para as negociações comerciais com grandes cidades do região Norte, que precisam mensurar a produção para negociar adequadamente. “O ministério nos prometeu que devemos receber R$ 2,5 milhões agora para pagar salários e fornecedores. Mas, concretamente, ainda estamos muito distantes de resolver o problema”, explicou Helder Queiroz, diretor do instituto.

O terceiro e mais simbólico caso de falência do setor científico diante dos cortes no investimento é o do Navio Hidroceanográfico de Pesquisa Vital de Oliveira, atualmente administrado pela Marinha. Depois de um investimento de R$ 162 milhões e um ano inteiro de calibragens minuciosas, a embarcação está encostada no Rio de Janeiro por falta de dinheiro de manutenção. Com 28 equipamentos de alta precisão para explorar o mar costeiro, incluindo um robô submarino, ele precisa de R$ 32 milhões anuais para manter-se na ativa, mas tem o potencial para encontrar metais raros, plantas medicinais e até mapear o fundo do oceano – é uma joia da produção científica nacional. Sem dinheiro, porém, o Ministério da Ciência busca hoje fazer um rateio com o Ministério da Defesa, a Vale do Rio Doce e a Petrobras para retorná-lo à ativa.

Cientistas contra Temer

Desde o anúncio da fusão do Ministérios da Ciência com o das Comunicações, a comunidade científica brasileira tem sido veemente na rejeição das atitudes do governo interino. De forma unânime, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciências (ABC), o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), o Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de Ciência, Tecnologia e Inovação (Consecti), e a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) assinaram carta conjunta em que desprezam a forma com que o setor tem sido tratado desde o afastamento da presidente eleita Dilma Rousseff. Eles denunciam também a redução orçamentária draconiana imposta sobre o setor, que tem ligação direta com o desenvolvimento nacional.

Mais recentemente, diversas manifestações de repúdio têm tomado palco pelas universidades e sub-sedes do ministério em todo o país. Ocupando ruas e parques ou aparecendo em notas em jornais e noticiários, os cientistas tomam posição similar àquela que lutou para impedir a extinção do Ministério da Cultura, e exigem a continuidade das responsabilidades do ministério anterior.

Portal CTB, com informações da BBC Brasil

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