100 mil brasileiros foram às ruas pelas “Diretas Já”, e a PM tentou calá-los na maior baixaria

Este foi um domingo (4) como poucos para a jovem democracia brasileira – da última vez que centenas de milhares saíram para gritar “Diretas Já!” pelas ruas de São Paulo, estavam também vivendo um regime de exceção, e igualmente temiam as agressões dos militares. Os 100 mil que caminharam entre a Av. Paulista e o Largo da Batata em 2016, no entanto, protestaram contra Temer a plenos pulmões, e exigiram uma nova eleição presidencial. Se impuseram diante de um governo que desconhece o conceito de cidadania.

A dupla Temer-Alckmin havia “proibido” o protesto na quinta-feira (1), é bom lembrar. Temer chegou ao ponto de autorizar o uso das Forças Armadas contra quem ousasse chamá-lo de “golpista”, e Alckmin disponibilizou sua Tropa de Choque para garantir o silêncio. Em resposta, foram sumariamente ignorados pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, que continuaram a organização do evento. Coube ao prefeito Fernando Haddad procurar o secretário de Segurança Pública do estado, Mágino Barbosa Filho, para lembrá-lo que um governo não tem o poder de proibir uma manifestação.

O ato deste domingo em nada lembrou os cinco anteriores, que aconteceram em todos os dias da semana e foram classificados de “grupos pequenos de não mais que 40 a 100 vândalos” pelo presidente Temer. A começar porque as 100 mil pessoas presentes dizimaram aquela avaliação torpe, tanto em números, quanto em comportamento. Não houve qualquer tentativa de vandalização ou enfrentamento por parte dos manifestantes. A presença de famílias inteiras, com crianças de colo, idosos e até cachorros, deu um tom otimista ao evento.

Entre as lideranças políticas, compareceram figuras como Eduardo Suplicy (ex-senador), Ivan Valente (deputado federal), Luiza Erundina (deputada federal), Alexandre Padilha (ex-ministro da Saúde de Dilma), Lindbergh Farias (senador pelo RJ), Guilherme Boulos (coordenador do MTST) e Adilson Araújo (presidente da CTB).

“O ‘Fora Golpista’ passou a ser uma questão de sobrevivência. A classe trabalhadora, que luta por direitos sociais, precisa cumprir o seu papel nessa fase importante da luta política nacional”, explicou Araújo, em vídeo ao vivo (abaixo). “Vai ser muito importante levantar essa bandeira para fazer prevalecer as conquistas da classe trabalhadora. Nenhum direito a menos! Vamos juntos nessa luta, nessa caminhada!”, concluiu.

Alcance nacional

Muitas outras cidades aderiram aos protestos contra o golpe. Em Curitiba (PR), o quinto dia de luta levou 7 mil a gritarem o “Fora Temer” e pedir novas eleições, marcando uma contagem crescente de participantes. Ali, quem se destacou foi o movimento feminista, que conduziu a manifestação do início ao fim.

Salvador (BA) também marcou um comparecimento relevante, com cerca de 5 mil pessoas, que andaram entre o Campo Grande e o Farol da Barra. A deputada federal Alice Portugal, candidata a prefeita da cidade pelo PCdoB, também participou do ato, e fez coro aos que lembravam dos 92% de desaprovação que Temer sofre entre os soteropolitanos.

Já o Rio de Janeiro aproveitou o clima de resistência propício do Ocupa MinC para realizar uma caminhada até o Canecão, onde artistas resistem há mais de 100 dias contra Michel Temer. A marcha começou no início da tarde, perto das 13h, em frente ao Copacabana Palace, com cerca de 5 mil pessoas. A deputada federal e candidata à prefeitura Jandira Feghali foi uma das lideranças do ato, e fez um discurso enfatizando a necessidade de novas eleições diretas: “Neste momento, a única coisa que pode salvar o processo democrático é convocar uma eleição para a presidência da República”, disse. Ela estava acompanhada por Marcelo Freixo, também candidato à prefeitura – um gesto de pluripartidarismo que não passou despercebido.

Florianópolis teve participação também, mas na sexta-feira. 48 horas antes, mais de 13 mil pessoas atravessaram a cidade para gritar contra o golpe de Estado e exigir eleições.

diretas ja 2016 florianopolis rio salvadorDa esquerda para a direita: Florianópolis, Rio de Janeiro, Salvador (Fotos: NINJA)

Fora do Brasil, Paris e Nova Iorque tiveram concentrações relevantes, e Barcelona aproveitou o seu Dia do Brasil para denunciar a crise política. Em Nova Delhi, na Índia, o mesmo aconteceu durante o Brics Film Festival.

Violência gratuita e baixaria da PM

Infelizmente, a noite teve uma conclusão desagradável para quem chegou ao Largo da Batata, em São Paulo. Foram mais de 5 km de caminhada para chegar ali, por volta das 20h45. Apesar de terem sido provocados diversas vezes pela PM ao longo do trajeto, não houve um episódio sequer de violência entre os paulistanos. Os policiais chegaram a atravessar com o batalhão armado bem no meio da manifestação, e depois apagaram as luzes no túnel da Rebouças. Tudo o que conseguiram foi ouvir palavras de ordem ainda mais vibrantes. Já no Largo, os líderes das Frentes fizeram seus discursos de encerramento e pediram uma dispersão pacífica.

Mas paz não era o que a PM queria, e o que seguiu foi um espetáculo de repressão arbitrária por parte da Tropa de Choque.

Em poucos minutos, os tanques do Choque ocuparam o Largo e começaram a disparar canhões de água aleatoriamente. Os soldados primeiro fecharam o metrô Faria Lima para os manifestantes, e em seguida começaram a atirar balas de borracha e bombas de gás em todas as direções, causando pânico. Os ataques de gás acertaram inclusive o deputado federal Paulo Teixeira e Roberto Amaral, ex-ministro da Ciência e Tecnologia. 

repressao largo da batataA Tropa de Choque atacou de forma completamente gratuita os manifestantes, enquanto se dispersavam. Feriram 12 pessoas (Foto: AFP)

A atitude beligerante despertou reações violentas em alguns manifestantes, que foram então detidos por “vandalismo”. E novamente os brutamontes atacaram os jornalistas que registravam os excessos, incluindo um da rede britânica BBC.

Questionado, o comandante da segurança, Henrique Motta, disse apenas que não controlava as ações do Choque. O Choque, por sua vez, respondeu que a corporação atendia um pedido do Metrô, que teria reportado ações de vandalismo na estação. A assessoria de imprensa do Metrô, no entanto, negou qualquer comunicação com a Polícia ou vandalismo registrado. Nesse jogo de empurra, as bombas continuaram a explodir.

No final dessa baixaria, o Grupo de Apoio ao Protesto Popular (GAPP) confirmou ferimentos em 12 pessoas: 3 alvejados por balas de borracha, 4 atingidos por estilhaços de bomba, 5 com dificuldades respiratórias graves por conta do gás. Entre os últimos, estava um cadeirante, que entrou em estado de pânico e não conseguiu se empurrar para longe das explosões.

Prisões arbitrárias, negação do direito de defesa

Mais tarde, descobriu-se que a mesma PM apreendera sem qualquer razão alegada 27 jovens que estavam a caminho do ato, por volta das 16h30, e que manteve-os encarcerados por mais de 6 horas sem acusação formal. Negou-lhes também o acesso a advogados. O defensor público Marcelo Carneiro Novaes, barrado na tentativa de defendê-los, disse aos Jornalistas Livres: “Em 32 anos de advocacia, é a primeira vez que vejo um advogado não conseguir ingressar num prédio público onde são exercidas as atividades da polícia judiciaria”. Ele se declarou “espantado” com o comportamento da PM.

O coronel Motta nega que a atitude tenha sido política: “Estava apenas fazendo o meu trabalho”. Para o sociólogo Sérgio Amadeu, no entanto, a PM paulista vem apresentando um perfil cada vez mais próximo de uma polícia política, aliada de Geraldo Alckmin. “Claramente, a polícia age de modo idêntico àquele que enfrentei no regime militar. Todavia, na época da ditadura, os advogados podiam falar com os presos. Vivemos um Estado de exceção”, analisou em seu perfil no Facebook.

Talvez o maior dos mistérios, diante desse desastre de atuação da PM, tenha sido a imagem escolhida pela Globo News para ilustrar o confronto: uma vidraça quebrada em um estabelecimento na avenida Paulista. Assim a rede justificou o que a PM fez: em decorrência de uma ação isolada, há 5 quilômetros do local de confronto.

Seria uma surpresa, se não fosse a mesma corporação que negou a existência das Diretas em 84.

Por Renato Bazan – Portal CTB

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