É preciso dar visibilidade para as dificuldades enfrentadas pelas mulheres negras

Por Marcos Aurélio Ruy

Com a proximidade do Dia Internacional da Mulher – 8 de março –, é preciso conversar mais sobre os problemas enfrentados pelas mulheres negras. Ganha força o debate sobre a luta geral para a transformação da sociedade e as específicas como o antirracismo e a emancipação feminina. Para a escritora Angela Davis esse embate é inócuo.

“Não acredito que seja saudável escolher uma luta e dizer que é mais importante do que outra, mas sim, em reconhecer como as diferentes lutas se conectam”, disse a ativista norte-americana em recente entrevista coletiva em São Paulo.

Já Mônica Custódio, secretária da Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) compactua da mesma ideia do sociólogo Jessé Souza, para quem a escravidão é o traço marcante da sociedade brasileira ainda no século 21.

Ela baseia seu pensamento em pesquisas pelas quais as mulheres negras ganham menos da metade dos salários recebidos pelos homens brancos. “A tripla discriminação que sofremos incide na condição da mais valia tanto absoluta quanto relativa”, diz. “Essa estratificação é um dos pilares do capitalismo”.

Mulheres Negras, de Eduardo Taddeo

E, para piorar, “vivemos em uma sociedade patriarcal que tira das mulheres o espaço público, circunscrevendo-as ao ambiente doméstico, com único objetivo de procriarem e cuidarem do lar”, reforça Marilene Betros, secretária de Políticas Educacionais da CTB.

Por isso, ela defende a necessidade de se inserir o debate de gênero nas escolas e aulas sobre a história e a cultura de matriz africana. “Não podemos permitir o avanço da perversidade”, acentua. “A melhor maneira de combater o racismo e o sexismo é o amplo debate com orientação pedagógica”.

Já a secretária de Igualdade Racial da CTB-SP, Lidiane Gomes percebe uma invisibilidade da mulher negra. “Embora tenhamos mais possibilidades de dialogar sobre os problemas que enfrentamos no dia a dia”, diz ela, “parece que esses problemas não existem”.

Em sua experiência de diretora de escola pública em São Paulo, ela percebe o espanto das pessoas de grau de escolaridade elevado com a existência do racismo e do sexismo. “As pessoas pensam que as situações pelas quais eu passo existem apenas na minha cabeça, mas só quem passa por essas discriminações é que sabe delas de verdade”.

Negras em Marcha, de Luana Hansen

É como diz Angela, “eu não posso ser uma militante antirracista sem pensar na dimensão heteropatriarcal do racismo. Eu não posso ser feminista sem reconhecer o papel que o capitalismo e o racismo tiveram em moldar o patriarcado”.

Lidiane ressalta o papel da mídia comercial, que “poderia ser preponderante na construção de uma civilização com menos desigualdades, injustiças e violência”, mas “naturaliza esses preconceitos e contribui para o fortalecimento do racismo e do machismo”.

Para ela, a mídia já melhorou em alguns aspectos, principalmente a mídia alternativa, mas “para termos acesso a produções de cunho antirracista e feminista precisamos ter dinheiro e, infelizmente a maioria não chega nem perto dessas produções”.

Lidiane vê maior inclusão de personagens negros em papéis importantes em novelas, por exemplo, no entanto, não sente ainda uma grande possibilidade de identificação da mulher e em particular da mulher negra na mídia em geral.

“Espero que as próximas gerações, um pouco mais representadas em relação às gerações anteriores, consigam se ver representadas de alguma forma mais positiva e possam caminhar firmemente para serem suas próprias representantes”, defende.

Mônica aborda a questão do genocídio da juventude negra, pobre e periférica. “O genocídio é da população negra e a juventude é a ponta de lança, representa a face mais cruel de um sistema excludente. Um jovem negro aviltado, é uma família aviltada, um jovem negro morto, é uma mãe que praticamente morre junto”.

Lidiane relata a dificuldade em ser negra e mulher no Brasil. “É muito difícil, está muito difícil, mas trabalhar na educação me anima porque na periferia na qual trabalho, conta com bastante representatividade de mulheres negras e isso facilita trabalhar essa questão na escola”.

Ela diz ainda que na história do país, “a mulher negra sempre foi a menos valorizada e se mantém esse embate ainda intransponível de uma barreira criada por causa dos quase 400 anos de escravidão pela qual passamos”.

Sorriso Negro, de Adilson Barbado, Jair e Jorge Portela

As três sindicalistas entrevistadas veem muitas dificuldades na conjuntura atual, mas acreditam na resistência e na luta de um povo acostumado a resistir e lutar. “Quando falamos ‘vidas negras importam’ não estamos falando de um grupo específico, estamos falando de humanidade”, assinala Angela Davis.

Então, “o que resta dessa mulher a não ser a resistência e a luta constante”, afirma Mônica. “Não temos o direito de sentir medo, de chorar. A nossa força vem do fundo da alma na crença da possibilidade de legar um mundo melhor para as novas gerações, sem racismo e sem machismo”.

Compartilhar: