Paulo Paim prevê luta árdua no Senado em defesa da aposentadoria

A reforma da Previdência do governo Bolsonaro será votada na próxima terça-feira (1º) no Senado Federal. Por entender que ela é inconstitucional e perversa para o trabalhador, o senador Paulo Paim (PT-RS) votará contra. Em entrevista exclusiva ao Portal Vermelho, o senador falou sobre sua trajetória e sua rotina no Senado. Paim defende uma ampla unidade para enfrentar o retrocesso do atual governo e para disputar as eleições de 2022.

Por Iram Alfaia

Nos seus 33 anos de vida parlamentar (começou como deputado constituinte eleito em 1986), Paulo Paim sempre priorizou temas como a defesa do trabalhador, aposentado e do salário mínimo.

São temas que estão ligados a sua própria história de vida. Natural de Caxias (RS), nasceu numa família pobre composta pelo casal Ignácio Alves Paim e Itália Ventura da Silva Paim e mais nove irmãos.

Formado pelo Senai, trabalhou como metalúrgico e presidiu o sindicato da sua categoria em Canoas (RS). O senador diz que traz da fábrica alguns hábitos que permanecem até hoje na sua vida: acorda às 6h para ir ao trabalho e leva a marmita.

A culinária é a base de sopa de legumes e uma batida de frutas feita por ele mesmo logo cedo. Toma sopa de segunda a sexta esquentada pelos amigos funcionários do cafezinho.  “Eu tenho tendência de ser magrinho ou gordinho”, brincou.

Torcedor do Caxias e fã da música regional gaúcha, o senador mantém um ritmo intenso de trabalho na Casa. Logo recebe sindicalistas e autoridades no gabinete, participa das reuniões de comissões e, entre às 14h e 15h, discursa no plenário. Há dois meses não vai à sua base eleitoral por causa do enfrentamento do tema da Previdência. Somente em 2019 já promoveu mais de 104 audiências públicas.  “Faço porque eu gosto. É onde ouço a população, técnicos e especialistas. Chamo o governo que quase não participa”, diz.

A rotina pesada lhe faz exigir o domingo para ficar isolado em casa curtindo filmes, gosta dos de épocas e de Robin Hood. No sábado, está com equipe de trabalho que voluntariamente se reúne para preparar as ações da semana seguinte. No Rio Grande do Sul cumpre agenda, mas pede também o domingo para ficar com a família.

Está entusiasmado com o livro “Agora é Tempo de Distopia” que escreve para lançar na Feira do Livro de Porto Alegre. Trata-se da realidade do que acontece no país e nos bastidores do Senado. “É que muita gente aqui está no mundo da fantasia. Vai viver com um salário mínimo!”.

Paulo Paim contou sobre um grande evento em defesa da democracia que será realizado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, no dia 31 de outubro. Como palestrante fez um convite ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, que lhe deixou emocionado.

Santa Cruz lembrou que ainda criança participou de uma solenidade de colação de grau do padrasto, o pai Fernando Santa Cruz foi morto nos porões da ditadura militar, quando o paraninfo era o então sindicalista Paulo Paim. “Não esqueço até hoje sobre o seu discurso”, disse-lhe o presidente da OAB garantindo participação no evento.

Reforma da Previdência

O senador antecipou pontos do seu voto em separado que vai mostrar as perversidades para o conjunto dos trabalhadores. O abano salarial é um deles com a previsão de que 13 milhões vão perder um salário mínimo.

“Vão tirar de quem ganha dois salários mínimos um salário mínimo por ano. Dá pra comprar livros para crianças, uma ceia ou pegar ônibus para conhecer praia (…) acho uma sacanagem, desculpe-me a palavra”, reagiu. Para ele, todos precisam receber, mesmo quem não recebe no mês um salário mínimo.

Outra perversidade, segundo o senador, é a nova regra para aposentadoria por invalidez. “Se você teve um infarto ou um AVC, sabe quando vai ganhar agora? A metade. Um trabalhador com dois filhos e esposa que ganha R$ 3 mil vai ganhar R$ 1,5 mil. Pela lei atual ganha pelo princípio das 80 maiores contribuições que de 1994 para cá daria praticamente os R$ 3 mil”, calcula.

“Perde a integralidade e vai ganhar 60% do que seria o salário, mas como é feita a média da vida laboral, baixa para 50%. Resumindo vai receber a metade do que tinha direito quando ficou invalido, seja homem ou mulher”, explicou.

Segundo ele, a PEC acaba também com a aposentadoria especial por risco à integridade física “São 20 milhões de trabalhadores que se aposentam por periculosidade como os vigilantes. Sabe como fica agora? Acabou. Eles que trabalham com alto risco vão ter que se aposentar com 40 anos de contribuição e 65 anos de idade. Com a alta rotatividade no emprego, ele só vai se aposentar aos 80 anos”, diz o senador, para quem os cálculos mais reais podem elevar a idade para 100 anos.

Trata-se de uma realidade cruel. Paulo Paim diz que é preciso entender o novo cálculo na regra de transição para a aposentadoria. A proposta é que seja de 100% dos salários da vida laboral desde 1994, o que diminuiria os benefícios entre 30% a 40%. Atualmente o cálculo e feito com base nos 80% das maiores contribuições.

“Não é justo. As novas regras de transição são absurdas tanto que a maioria do povo não pega. A transição para os trabalhadores da área pública e privada é de 100% de pedágio e, para quem é político, de 30%. Isso é combater privilegio?”, protestou.

“Eles dizem que quem vai pagar a conta são os privilegiados, não é verdade. 85% são pobres, aqueles que ganham de um a três salários mínimos. Em resumo, da classe média para baixo todos perdem”, advertiu.

Alternativas

O senador diz que alternativas para salvar a aposentadoria dos trabalhadores já foram apontadas pela CPI da Previdência presidida por ele e relatada pelo ex-senador Hélio José (PROS-DF).

“Nós apontamos todo o caminho. Por exemplo, a sonegação de R$ 600 bilhões por ano dos setores poderosos, das grandes sociedades, os pequenos não sonegam. Isso daria uma arrecadação de R$ 300 bilhões por ano, daria muito mais do que eles pensam em economizar”, criticou.

Candidatura única

Paulo Paim também defendeu a unidade de todos os campos progressista em torno de uma candidatura única a presidente em 2022. O processo precisa começar já nas eleições municipais do próximo ano.

“Vamos ver o melhor candidato que reúne as condições. E não é do meu ou do deu. Tu vais dizer: ‘Frente ampla tudo bem, mas desde que seja do meu partido’. Isso não é frente ampla pelo amor de Deus. Até as crianças lá de casa sabem disso”, defendeu. Segundo ele, trata-se de uma unidade para reduzir esse retrocesso.

Como forma de evitar os atrasos do governo Bolsonaro, o senador diz ser um fervoroso defensor de uma grande frente ampla popular pelo Brasil. Trata-se de união de todas as causas que envolvem mulheres, negros, índios, brancos, LGBTs, camponeses, entre outros.

“O governo está levando o país para uma situação de terra arrasada onde a miséria, educação, saúde, infraestrutura, segurança, desemprego, ou seja, o governo não avançou em nenhuma área, e a Amazônia, um escândalo perante o mundo”, disse.

Trata-se do enfraquecimento do Estado Democrático de Direito. “O que vai acontecer com a nossa jovem democracia, ninguém está falando de debate ideológico, estamos falando da fome, da miséria e o desemprego aumentando cada dia que passa”, prosseguiu.

Fonte: Vermelho

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