O racismo no futebol brasileiro na visão de Roger Machado

Por Marcos Aurélio Ruy

Em entrevista ao UOL, publicada nesta sexta-feira (17), Roger Machado, técnico do Bahia, único negro no cargo na Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol, afirma que “o futebol embranquece o negro”. Porque, diz ele, “em torno dessa habilidade artística com a bola nos pés, você é aceito” em “lugares que a maioria de nós não consegue frequentar”.

Mesmo assim, como mostra o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, foram registrados 59 casos de injúria racial nos estádios brasileiros no ano passado e as manifestações racistas vêm crescendo como mostra o gráfico abaixo.

Casos por ano acontecido nos estádios somente

Como comprovação do que afirma Machado, a pesquisadora Roberta Pereira e Silva, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, conta que a primeira reação de atletas jovens que sofrem casos de racismo é perguntar: “Eu sou negro?”.

Para Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), o racismo é tão profundo no país que “para justificar o destaque desses atletas negros, têm de desmantelar a sua identidade, até mesmo para a própria ascensão social deles”.

Afirmação importante no conturbado mundo do esporte bretão, que chegou ao Brasil pelas malas de Charles Miller em fins do século 19, que voltava ao Brasil após uma temporada na Inglaterra. O futebol passou a ser difundido aqui como um esporte de elite. Ficou vedado aos negros por muitos anos.

“O racismo foi forjado para justificar a escravização, por 388 anos, dos seres humanos trazidos à força da África e permanece até hoje para impedir a ascensão da maioria da população brasileira”, acentua Mônica. Portanto, “não seria diferente no futebol”.

O mulato de olhos verdes, Arthur Friedenreich, autor do gol que daria o primeiro título à Seleção Brasileira, no Sul-Americano de 1919, era obrigado a esticar o cabelo para entrar em campo. Antes dele, Carlos Alberto, entrava em campo, pelo Fluminense, em 1914, maquiado com pó de arroz e cabelo esticado. Durante as partidas a maquiagem ia escorrendo com o suor, o que valeu o apelido aos torcedores do clube carioca, de pó de arroz.

Mais grave ainda foi a recomendação do presidente Epitácio Pessoa, em 1921, para que a seleção brasileira não levasse jogadores negros à Argentina para o torneio sul-americano para “outra imagem” do país com o “melhor de nossa sociedade”.

As coisas mudaram, então houve a necessidade de mudar de tática também, alega Mônica. “Como impedir Garrincha e Pelé de atuar na seleção?”, questiona. Destaca-se o brilhantismo dos atletas negros nas figuras do zagueiro do Bangu, do Rio de Janeiro, Domingos da Guia e principalmente de Leônidas da Silva, o Diamante Negro, atleta do São Paulo, artilheiro da Copa do Mundo de 1938 e criador da bicicleta, quando a bola está muito alta para se alcançar com a cabeça, salta-se deitado e imita os movimentos dos pedais da bicicleta.

Os jogadores negros são muitos, a conscientização para atuar contra o racismo é pouca e o mundo do futebol, entre clubes, mídia, empresários e tudo o que cerca o esporte, “trata de mimetizar o atleta negro para difundir o racismo sem parecer racista”, reforça Mônica.

Roger Machado complementa seu pensamento ao afirmar que teve “a janela aberta durante o período como jogador”, mas a janela “quase se fechou depois, quando eu decidi me tornar treinador e fazer faculdade de educação física”. Aí ele sentiu que estar “na direção não é ‘lugar de negro’, em todos os setores”, ironiza Mônica para denunciar o caráter hipócrita do racismo tupiniquim.

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