Desmistificar o conceito de democracia racial é fundamental para avançar no antirracismo

Por Marcos Aurélio Ruy

Dois fatos chamam a atenção da luta antirracista nesta semana. Um estudo do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) confirma que a educação por si só não acaba com o racismo. De acordo com o levantamento um homem branco ganha mais que o dobro que uma mulher negra com o mesmo grau de escolaridade. A mulher negra com ensino superior em instituição particular ganha em média R$ 2.903, por mês, enquanto o homem branco na mesma situação recebe em média R$ 6.627, se tiver concluído o terceiro grau em universidade pública, esse homem ganha R$ 7.892 ao mês, em média.

“Esse fato ressalta a necessidade de cotas raciais e sociais no país para impulsionar a igualdade de oportunidades”, afirma Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). “Isso tudo aliado a políticas de combate ao racismo estrutural”.

Para ela, “o antirracismo não é apenas uma bandeira, é um dos fatores essenciais dos valores da liberdade e da justiça, portanto, da humanidade”.

Outro fato relevante é a criação de um guia prático contra o racismo feito pela psicóloga Mariana Luz, “Era Uma Vez Negritude”. O e-book está disponível em seu site por R$ 6,90. “A história é a forma que temos de nos conectar com o passado, saber das nossas origens e compreender como chegamos no ponto onde estamos hoje”, explica Mariana.

“Para pessoas brancas, é bem simples montar uma árvore genealógica de várias gerações. Para os negros, isso sempre esbarra no período colonial, onde nossos ancestrais eram escravizados e perdiam toda a referência de suas origens”, conta.

De acordo com ela, “na escola, aprendemos apenas uma versão da história”. Mônica concorda com Mariana e destaca a importância da realização de projetos que levem “conhecimento sobre o que é e como se apresenta o racismo em nossa sociedade”. A sindicalista carioca lembra também o “Pequeno Manual Antirracista”, da filósofa e ativista Djamila Ribeiro, o livro mais vendido da Amazon neste ano, como sendo importante para impulsionar o debate.

Para Mônica, é necessário compreender “as nossas condições definidas pela vivência e também pela compreensão das estratégias do conhecimento científico com estudos, dados e pesquisas”. Como é o caso das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que instituíram o ensino da história e cultura dos negros brasileiros e da África – pouco implementados no país – para que “no contexto de identidade e na capacidade de afirmação a população negra possa compreender como o racismo foi forjado ideologicamente, como mostra o historiador Clóvis Moura (1925-2003)”, explica. Porque “já na escola tentam nos tirar esse lugar de humanidade”.

Cota Não É Esmola, de Bia Ferreira

São estudiosos como “Moura, Angela Davis, Kabengele Munanga, Lélia Gonzalez (1935-1994), Abdias Nascimento (1914-2011), entre outros que além do trabalho intelectual foram engajados no combate ao racismo e em nosso país na desmistificação do conceito nefasto de democracia racial”, acentua Mônica. “O movimento negro vem amadurecendo e qualificando seus conceitos comprovando que não existe democracia plena com a persistência do racismo”.

Por isso, “é muito importante debater a questão racial, reconhecendo a existência do racismo e a importância de acabar com essa chaga em nossa sociedade”, argumenta Vânia Marques Pinto, secretária de Políticas Sociais da CTB. “Como já disseram, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, define. Porque “o combate ao racismo significa o resgate do sentido de humano que os sistemas opressores tentam nos tirar”. Vânia acredita que “estudar a história é essencial para a compreensão do presente em todos os sentidos”.

Para Mônica, “temos a necessidade de um nova forma de viver e de se fazer e se apresentar na conjuntura política mundial em defesa da emancipação dos povos”. Para isso, “é edificante entender e fazer entender que as questões de raça e gênero, são ponta de lança na luta de classes”.

Compartilhar: