Entregadores de aplicativos de todo o Brasil participaram do “Breque dos Apps”, uma paralisação nacional que reivindica reajustes na remuneração, melhores condições de trabalho e respeito das empresas. No Rio Grande do Sul, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) esteve presente nos atos organizados pelo Sindicato dos Motociclistas e Ciclistas do estado (SINDIMOTO-RS), que reuniu cerca de 350 motociclistas em Porto Alegre.
Segundo Felipe Espindola Carmona, diretor jurídico do SINDIMOTO-RS, a paralisação foi motivada, principalmente, pela defasagem nos valores pagos aos entregadores. “O movimento nacional teve um foco econômico, buscando reajustes nos valores pagos pelas entregas e pelo transporte de passageiros, além de melhorias nas condições de trabalho. No caso do SINDIMOTO-RS, defendemos o valor de R$ 15 por entrega, pois acreditamos que as plataformas têm condições de efetuar esse pagamento, garantindo uma remuneração justa para os trabalhadores”, afirmou.
Salários defasados e más condições de trabalho
Atualmente, as plataformas pagam cerca de R$ 6,50 por entrega em Porto Alegre, valor inferior ao custo de itens básicos, como um litro de leite ou de gasolina na cidade. “Esse valor se manteve praticamente o mesmo desde 2020, enquanto os custos dos trabalhadores aumentaram exponencialmente. Uma moto que custava R$ 11 mil em 2020 hoje custa mais de R$ 24 mil”, ressaltou Carmona.
No caso dos ciclistas, o custo para locação das bicicletas também aumentou drasticamente. “Em 2020, um entregador conseguia alugar uma bicicleta pelo iFood por R$ 28 por semana. Hoje, esse valor está em R$ 100. Enquanto isso, a empresa não reajusta os valores pagos por entrega. Quem está pagando essa conta é o trabalhador”, denunciou o diretor jurídico do sindicato.
Além da baixa remuneração, os entregadores enfrentam dificuldades durante o expediente. “Muitas vezes ficamos mais de uma hora esperando um pedido em restaurantes sem qualquer estrutura. Não tem cadeira, não tem água potável e não tem banheiro”, relatou Douglas Benites, representante do SINDIMOTO/RS. “A espera, que deveria ser remunerada de forma justa, é paga a R$ 10 no iFood. Esse valor não cobre nem os custos do tempo perdido, muito menos as necessidades básicas do trabalhador”, acrescentou.
Ação judicial contra as plataformas
Durante o ato, os entregadores também protocolaram uma ação judicial no Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-4) contra as principais plataformas do setor: iFood, 99, Uber e Rappi. O objetivo é pressionar as empresas para negociar melhores condições de trabalho.
Inicialmente, uma audiência de mediação estava prevista para o dia da paralisação, mas as empresas solicitaram o adiamento para 23 de abril, alegando necessidade de participação presencial. “As plataformas pediram mais tempo para comparecer pessoalmente, mas os trabalhadores já estão há anos esperando uma resposta. Não podemos mais aceitar essa demora enquanto os ganhos seguem reduzidos e as condições de trabalho continuam precárias”, disse Douglas Benites.
Enquanto aguardam a nova audiência, os entregadores seguem mobilizados. “Queremos a nossa representação institucional e a garantia de uma negociação permanente ao longo da vida da classe trabalhadora, independente de ser plataformizada ou não. Provamos nossa essencialidade na pandemia e nas enchentes, e agora exigimos respeito e valorização”, destacou Douglas Benites.
A categoria também apresentou novas demandas, que incluem:
•Aumento da taxa mínima de entrega
•Diminuição do tempo máximo de espera sem remuneração
•Criação de pontos de apoio para descanso e higiene
•Limitação da jornada de trabalho sem prejuízo na remuneração
•Extinção das rotas duplas
•Seguro-saúde, vida e acidente
•Combate a práticas antisindicais das empresas
•Limitação do peso transportado pelos ciclistas
•Inclusão do direcionamento da última rota
Com a próxima audiência marcada para abril, os trabalhadores prometem continuar atentos e organizados para garantir reajustes e melhores condições de trabalho.