Presidente da CTB diz que saída está na mobilização e pressão por projeto de desenvolvimento com valorização do trabalho
O país vive um momento positivo no mercado de trabalho, tendo registrado apenas 6,9% de desemprego na média anual de 2024, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. No entanto, na comparação com 2012, quando o mercado de trabalho também estava aquecido, houve uma piora na qualidade salarial dessas ocupações, que atingiu tanto os estratos de menor quanto de maior aptidão.
É o que aponta estudo feito por Nelson Marconi, professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e coordenador do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimento.
Ao comparar os dados sobre o mercado de trabalho em 2012 e em 2024 — ambos períodos com baixo desemprego de, respectivamente, 7,4% e 6,9% em média — o professor concluiu que, daquele ano para cá, houve maior precarização e, ao mesmo tempo, polarização quanto aos tipos de vaga disponíveis e salários praticados.
“No caso do setor privado, há uma clara concentração das variações do número de pessoas ocupadas em combinações de setores/grupamentos ocupacionais nos extremos da distribuição de habilidades e salários, isso é, nas atividades que requerem elevada qualificação – profissionais de nível superior nos setores de saúde e técnico-científicos – e em grupos que requerem menor qualificação, sem desmerecê-los – vendedores do comércio, condutores de veículos (a chamada uberização), serviços pessoais, cuidados pessoais e vendedores de alimentos”, explica, no estudo recém-divulgado.
Assim, diz, “nosso mercado de trabalho do setor privado, a exemplo do que ocorre em outros países, está se tornando polarizado”.
Para fazer essa análise, o pesquisador considerou as vagas divididas em três grupos: o que reúne principalmente profissionais com nível superior e formação técnico-científica; o que reúne as atividades consideradas medianas, tais como operários qualificados e no último, vendedores do comércio e de alimentos, motoristas e os que atuam em outros tipos de serviço.
A análise atribui o valor 1 ao salário relativo, considerando a média geral no ano, de maneira a possibilitar a medição de quais setores pagaram acima ou abaixo, bem como a variação nos 12 anos analisados, considerando os dados da Pnad Contínua.
Assim, por exemplo, no setor de comércio — que teve maior crescimento entre 2012 e 2024, com 2,39 milhões de novas vagas —, os vendedores passaram de 0,76 para 0,80.
Mais ou menos no mesmo nível, variou a renda dos trabalhadores da área de transporte, que inclui, entre outros, motoristas e entregadores por aplicativo — trabalhadores que figuram dentre os mais precarizados do mercado — e cuja variação de ocupações no período foi de 1,24 milhão. Neste caso, a média salarial saiu de 0,81 para 0,74. Ambos os casos mostram queda relativamente pequena, mas dentro de um universo salarial que já era abaixo da média.
Quando observados os profissionais de níveis de formação mais elevados — como os da área de engenharia e consultoria jurídica, por exemplo, cuja média salarial fica bem acima do valor 1—, a queda foi ainda maior, de 2,89 para 2,14 em 12 anos. Esses dados configuram a polarização de que trata o estudo, com perdas, sobretudo, nos estratos alto e baixo.
Ao se debruçar sobre as causas, o estudo aponta a perda de dinamismo do setor produtivo nesses 12 anos, marcados por forte desindustrialização, bem como a timidez dos investimentos em setores de serviços tecnologicamente mais sofisticados. E, de acordo com o professor, tal situação “pode explicar, em parte, o descasamento entre a evolução do mercado de trabalho e o apoio ao governo”.
Processo de precarização
Embora o estudo não se debruce especificamente sobre este aspecto, o cenário esquadrinhado evidencia transformações importantes vividas pelos brasileiros, sobretudo, a partir de 2016, quando ocorreu o golpe que resultou no afastamento da presidenta Dilma Rousseff, abrindo caminho para ataques profundos nos direitos da classe trabalhadora.
Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), argumenta que a partir de 2016, “tivemos a consecução de uma reforma trabalhista precarizante, a aprovação da terceirização generalizada e irrestrita, adicionada a uma reforma da previdência também prejudicial aos trabalhadores, situação que impôs severas restrições e limitações ao mercado de trabalho, bem como a quase asfixia ao movimento sindical”.
Cabe acrescentar, ainda, as mudanças globais, advindas da crise do capitalismo e da ascensão de novas tecnologias, que intensificaram processos como o da uberização da classe trabalhadora, piorando os empregos mundo afora, além do desmonte de políticas de proteção social e da pandemia de Covid-19.
Cenário adverso
Tal situação leva tempo para ser revertida, sobretudo em cenários adversos. O governo tem colocado em prática medidas que buscam estimular a indústria e as obras de infraestrutura, entre outras, de maneira a gerar mais emprego e melhorar a renda do trabalhador, como mostram diversos indicadores econômicos, porém, o problema da precarização ainda não foi devidamente enfrentado. “Muitas dessas políticas colidem com o conservadorismo macroeconômico, já que o Banco Central optou por praticar uma taxa de juros que figura entre as mais altas do mundo”, critica Araújo.
Além disso, o presidente Lula e sua equipe enfrentam uma série de dificuldades decorrentes, também, do fortalecimento da extrema direita na sociedade, o que contribui para um visão mais individualista e de valorização do empreendedorismo entre os próprios trabalhadores.
Soma-se a esse quadro o peso desse segmento político no Congresso que, alinhado aos setores conservadores mais tradicionais, dificulta a viabilização de medidas para melhorar a vida dos trabalhadores.
Para reverter esse quadro, o sindicalista aposta na conscientização e mobilização dos trabalhadores que mais sofrem com a precarização. “Vamos ter que dialogar e mobilizar mais, apostar numa perspectiva de realizar campanhas salariais unitárias das categorias no primeiro semestre e lutar, junto ao governo, para que efetivamente a gente consiga evoluir na consecução de um projeto nacional de desenvolvimento com maior atenção e centralidade à valorização do trabalho e do trabalhador”.
Ele acrescenta que isso depende de o país “retomar, de forma acelerada, a produção industrial em grande escala e se reposicionar frente às cadeias globais de valor”.
Para Araújo, “o Brasil pode, por exemplo, ter protagonismo frente aos desafios das mudanças climáticas, com sua potencialidade de gerar energia limpa e renovada, empregos verdes e uma transição energética justa. Ou seja, temos motivação de sobra para apostar que podemos pensar e agir de forma diferente e colocar o Brasil no seu devido lugar, melhorando a vida dos trabalhadores”.
Informações: Vermelho.org.