O que impede instituição da jornada de trabalho de apenas dois dias prevista por Bill Gates?

Inteligente e em muitos aspectos controvertido, o bilionário Bill Gates previu que, no curto prazo de 10 anos, os seres humanos poderão trabalhar apenas dois dias da semana graças à evolução da chamada inteligência artificial (IA).

No ritmo atual de inovação, segundo ele, a força de trabalho humana não será mais necessária “para a maioria das coisas” e, portanto, será necessário repensar o local de trabalho em breve. “Como serão os empregos? Deveríamos trabalhar apenas 2 ou 3 dias por semana?”, provocou.

Resposta às novas tecnologias

Não é a primeira vez que Gates faz alusão à necessidade de redução da semana de trabalho. Em 2023, quando o Chat GPT ainda estava em sua infância, ele declarou que a sociedade poderia “eventualmente” chegar a um cenário em que trabalhar três dias por semana fosse a norma – e o mundo teria que descobrir o que fazer com mais tempo de lazer.

O bilionário também não é o único a defender a redução da jornada em resposta ao formidável avanço da produtividade do trabalho impulsionado pelas novas tecnologias e, agora em especial, pela IA, que surge com o potencial de substituir o trabalho humano, tornando-o obsoleto, em inúmeras atividades e profissões.

Ovelha negra

Bill Gates, neste debate, é uma ovelha negra em seu próprio meio, com um pensamento raro e estranho à classe dos capitalistas em geral, ainda que partilhada com os empresários que promovem a Semana de 4 Dias, que constitui um passo na direção imaginada pelo co-fundador da Microsoft.

O patronato em geral é francamente hostil à bandeira da redução da jornada, o que faz com que esta só se concretize como resultado de uma feroz luta de classes entre capital e trabalho, como observou o pensador alemão Karl Marx, autor de um profícuo e célebre tratado sobre O capital.

Isto transparece claramente na luta que está em curso no Brasil por um objetivo bem mais tímido e ainda bem distante da jornada imaginada pelo bilionário norte-americano ou mesmo da semana de 4 dias adotada com grande sucesso na Islândia: o fim da exaustiva e desumana escala 6×1, objetivo ansiado por milhões de trabalhadores e trabalhadoras brasileiras, sobretudo no comércio, e apoiada por 64% dos brasileiros e brasileiras (índice que sobe a 70% entre as mulheres e 81% na juventude trabalhadora), segundo pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha.

Luta de classes

As entidades representativas da classe trabalhadora – centrais, confederações, federações e sindicatos – são invariavelmente a favor da redução da jornada e muitas estão hoje engajadas na campanha contra a escala 6×1.

Diversas associações empresariais, sobretudo as ligadas ao comércio, se posicionaram contra o fim da escala 6×1, que rouba parte significativa do tempo de vida que o trabalhador e a trabalhadora poderiam e gostariam de ter livre para dedicar à família, ao lazer ou ao fim que julgar conveniente.

Para que prevaleçam os interesses da classe trabalhadora e da ampla maioria da sociedade é preciso, antes, confrontar e derrotar a oposição organizada pelas forças do Capital numa luta desigual que se manifesta simultaneamente no terreno das ideias, da política e da economia.

Mobilização social

A concretização da redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1 dependem de mudanças legislativas e projetos com este propósito tramitam no Congresso Nacional, entre eles os da deputada federal Érika Hilton (Psol-SP) e do senador Paulo Paim (PT-RS), que acabam com a escala 6×1 e reduzem a jornada semanal de trabalho de 44 para 36 horas.

O x do problema é a correlação de forças nas duas casas do Congresso Nacional, que não favorecem os interesses dos mais pobres. Os donos do dinheiro e também dos meios de produção estão bem melhor situados representados no Parlamento, de tal forma que para alterar o humor e a sensibilidade de deputados e senadores e conquistar o apoio e os votos necessários à redução da jornada de trabalho só mesmo com muita luta e mobilização social.

Lógica perversa 

Aumento da produtividade do trabalho significa redução do tempo de trabalho necessário à produção dos bens e serviços destinados à satisfação das necessidades do ser humano e seria racional que resultasse naturalmente na redução da carga de trabalho. Sob a lógica perversa do capitalismo, em que as novas tecnologias são apropriadas e monopolizadas pelo capital, o resultado tem sido outro: desemprego, precarização e mesmo aumento do tempo de trabalho.

A necessidade de substituir as relações sociais de produção impostas pelo Capital, superando o sistema capitalista, amadurece e reclama maior urgência na história no rastro do extraordinário crescimento das forças produtivas.

Fonte: vidaetrabalho.org.br

 

 

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