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Ex-ministro da Agricultura do Chile no governo de Salvador Allende e ex-diretor do Instituto de Altos Estudos da América Latina da Universidade de Paris, Jacques Chonchol deu palestra, no primeiro dia do Curso de Formação de Jovens Rurais do Mercosul, para 40 jovens latino-americanos.

“Hoje em dia, uma parte importante da juventude rural na América Latina não tem perspectivas de melhora de vida efetiva no campo e acaba se deslocando para as cidades. Estes jovens somente não permanecem na zona rural porque nela não há condições satisfatórias de vida do ponto de vista social e econômico”. Este problema, apontado pelo professor e ex-ministro chileno Jacques Chonchol, foi o principal ponto de discussão durante o primeiro dia do Curso de Formação de Jovens Rurais do Mercosul. O curso acontece até 25 de novembro no Rio de Janeiro, e faz parte da X Reunião Especializada sobre Agricultura Familiar no Mercosul (Reaf).

Ministro da Agricultura do Chile durante o governo de Salvador Allende e ex-diretor do Instituto de Altos Estudos da América Latina da Universidade de Paris, onde ainda atua como professor, Jacques Chonchol fez uma análise sobre a agricultura familiar nos países do Mercosul e falou sobre a influência da globalização econômica no aumento da pobreza entre os agricultores familiares latino-americanos.

Diante de 40 jovens brasileiros, uruguaios, chilenos, argentinos e paraguaios que participam do curso, Chonchol afirmou que a melhora da condição de vida no campo é fundamental para fixar os jovens rurais em suas cidades de origem: “Com a melhora das condições de vida na zona rural, há mais chances de que os jovens tenham alguma alternativa. Se os jovens não têm nenhuma alternativa, eles acabam indo para a cidade”, disse o chileno.

Entre os problemas que dificultam a permanência do jovem no campo nos países do Mercosul, segundo o professor, está a mudança do perfil no trabalho rural trazida pela globalização e pelo fortalecimento do agronegócio. A partir da década de 1990, os antigos trabalhadores fixos das fazendas foram progressivamente substituídos por trabalhadores temporários assalariados. Frente a essa realidade, os jovens rurais acabaram se deslocando para atividades não-agrícolas: “Se produziu uma urbanização de parte da força de trabalho jovem no meio rural”, disse Chonchol.

Outro problema comum a todos os países do Mercosul, segundo o chileno, é a pouca oferta de educação no meio rural, realidade que acaba condenando o jovem que quer permanecer produzindo no campo à baixa escolaridade ou à escolaridade incompleta: “A diferença de capital social entre as áreas rurais e urbanas no Mercosul ainda é muito grande em matéria sanitária, de eletricidade, de emprego e também de escolaridade. A maior parte dos investimentos nesses itens acontece nas zonas urbanas ou suburbanas. A escolaridade da maior parte dos jovens trabalhadores rurais não passa da educação básica. São raros os que têm a oportunidade de alcançar um nível mais alto. Simplesmente não há escola”, disse.

A maioria dos jovens rurais que tenta a sorte com atividades rurais não agrícolas ou procura trabalho nas cidades não obtém sucesso, segundo Chonchol: “Os níveis de pobreza dos ocupados em atividades rurais não agrícolas são, em todos os países do Mercosul, substancialmente inferiores aos níveis de pobreza dos ocupados em atividades agrícolas. As possibilidades de acesso a um posto de trabalho não agrícola dependem dos níveis de educação dos jovens trabalhadores, especialmente no que se refere ao acesso à educação secundária”, disse.

Três grupos

Jacques Chonchol dividiu os agricultores familiares que ainda vivem em situação de pobreza no Mercosul em três grupos principais. O primeiro e maior deles é composto pelas comunidades indígenas camponesas de Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, além das comunidades indígenas mexicanas e descendentes da etnia Maya na Guatemala. Este grupo representa, segundo o professor, cerca de 35% dos trabalhadores rurais pobres do Mercosul.

O segundo grupo é composto por pequenos produtores agrícolas e pequenos pecuaristas. A principal característica desse grupo é o controle, em pequena escala, de algumas terras tituladas ou não tituladas em áreas não muito favoráveis ao cultivo agrícola, ecologicamente frágeis ou sujeitas às intempéries climáticas. Esse grupo de agricultores, segundo Chonchol, combina cultivos ou criações de animais de subsistência com trabalhos sazonais fora da agricultura.

O terceiro grupo compreende os pequenos agricultores e os agricultores sem-terra. Esse grupo, segundo o professor, tem sua produção agrícola estritamente destinada ao consumo familiar e depende do trabalho assalariado permanente ou temporário como principal fonte de recursos financeiros. Chonchol destacou a existência de pequenas atividades comerciais e a forte presença feminina nesse terceiro grupo.

Globalização e agronegócio

Jacques Chonchol afirmou que os anos de neoliberalismo e globalização econômica foram muito ruins para todos os pequenos produtores rurais do continente: “As políticas de liberalização que foram aplicadas na agricultura da América Latina supunham que a diminuição do papel do Estado seria compensada pelo dinamismo do setor privado, e que este substituiria com seus investimentos os investimentos públicos nas áreas mais críticas do desenvolvimento rural. Porém, na prática, o papel desses investimentos privados foi muito limitado e dirigido, sobretudo, a beneficiar a agricultura capitalista e marginalizar a agricultura familiar”, disse.

A globalização, segundo o chileno, consolidou o agronegócio e aumentou a desigualdade econômica do meio rural nos países do Mercosul: “Somente alguns agricultores familiares com maiores e melhores recursos tiveram acesso à agroindústria, por intermédio da qual foram incorporados às novas oportunidades que surgiam na importação e no suprimento do mercado interno destinado aos consumidores de alto poder econômico. A integração de alguns setores minoritários da agricultura familiar ao complexo agroindustrial somente serviu para acentuar as diferenças dentro desse setor”, disse Chonchol.
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