Maria Alves – Fetaemg: “O sindicalista tem que ir onde o jovem está, seja ele trabalhador ou não”

“O sindicalista não deve lutar apenas por sua categoria, por seu grupo. O desafio é lutar por todos os trabalhadores, seja ele de sua base ou não. Temos que compreender as dificuldades dos outros e não tratar problemas específicos”.

Com frases como esta, Maria Alves dos Santos, coordenadora da Comissão de Jovens da Fetaemg, ganhou aplausos entusiasmados da platéia do I Encontro Nacional da Juventude da CTB, quando afirmou que o erro está na prática da individualidade do sindicalista, ao lutar pelo seu grupo, ainda que de forma inconsciente.

O Portal CTB conversou com a jovem dirigente, que falou um pouco mais sobre a importância de unir as forças do campo e da cidade.

Portal CTB: Você acha que é um erro falarmos das dificuldades do jovem do campo ou da cidade sem relacioná-las?

Maria: Sim, porque quando pensamos em desenvolvimento  existe a dificuldade de pensar que o campo não vive sem a cidade e a cidade não vive sem o campo. São necessidades que seguem juntas. E falar de uma realidade sem ligá-la a outra é um erro. Porque quando se fala do desafio da juventude urbana devemos pensar também no desafio da juventude rural. Porque se a juventude rural tem as condições de viver dignamente no campo, tem acesso a políticas que garantam condições de permanecer lá, de viver com sustentabilidade, automaticamente vai surtir efeito nos centros urbanos. Da mesma forma, quando sai uma grande massa da juventude do campo para permanecer nos grandes centros urbanos, começamos a ver os problemas que surgem. Um problema está ligado ao outro. Então, precisamos pensar em um projeto de desenvolvimento para o Brasil interligando as duas coisas e não ficar restrito a políticas específicas e independentes.

CTB: Como mudar o pensamento convencional, que desvincula as lutas do campo e da cidade?

M: Eu acho que existe, em primeiro lugar, a necessidade dos movimentos sociais compreenderem essa dimensão. Depois, entra o papel das centrais, que é o de unificar as categorias, a classe, as entidades. Pensar nos problemas como um todo e não apenas em problemas e realidades singulares, pois o que acontece no campo afeta os grandes centros urbanos e vice-versa.

CTB: Qual a principal dificuldade do jovem campesino que afeta o jovem urbano?

M: É a questão do emprego, que no campo é a geração de trabalho e renda. Se nos grandes centros temos o desemprego, no campo temos o problema da geração do trabalho, renda e da desvalorização dos produtos da agricultura. Se o jovem do campo produz com qualidade, agrega valor ao seu produto e tem condições de comercializá-lo, que necessidade ele tem de sair e ir para os grandes centros, onde temos o desemprego? E quando essa população do campo que migrou para cidade ver que sua base de origem tem sustentabilidade e condições de vida, ele vai poder optar. Hoje, o jovem do campo não tem opção, ele é obrigado a sair da roça porque é dito que educação com qualidade, tecnologia e saúde estão na cidade. E no campo realmente é um desafio garantirmos tudo isto. Mas é necessário, até porque no campo podemos viver com qualidade, contanto que tenhamos acesso ao que nos é de direito.

CTB: Você acha que o caminho é mudar o pensamento de que a cidade oferece mais oportunidades que o campo?

M: Justamente, o caminho é ver o campo como uma alternativa e não como problema e desafio.  Hoje a sociedade brasileira vê o campo como problema e não como investimento. A partir da hora que pensarem no desenvolvimento unindo campo e cidade, grande e média produção, a gente vai ter condições de interligar as duas coisas. Há essa necessidade. E o projeto de desenvolvimento da agricultura brasileira dá muita ênfase à grande produção, produção em grande escala. Enquanto a pequena produção também gera emprego e renda e tem a necessidade de ter seu produto valorizado e garantir políticas públicas de acesso à cultura, esporte, lazer e educação de qualidade também no campo.

CTB: O Brasil é classificado como o país do futebol. Mas sabemos que o campo não tem políticas de acesso ao esporte. A questão seria mudar o pensamento?

M; Exatamente, dificilmente temos uma comunidade rural que tenha acesso às políticas de esporte, cultura, lazer, assim como uma educação de ensino superior. No entanto os campesinos têm essa necessidade. E quando falamos em educação é pior ainda. Quando moramos no campo e cursamos o ensino superior as pessoas questionam onde vamos trabalhar. Até na própria universidade já começam a nos ensinar que vamos ter que sair do campo para trabalhar e nunca nos é passado que podemos ter ensino superior para melhorar a produção. Entre país do futebol, entre país de tantas coisas de que forma o campo é inserido nesse processo? Como que alunos de primário de escolas do campo estão tendo acesso às políticas sociais básicas, além de aprender a ler e escrever? A escola atual não tem condições nem de formar um cidadão.

CTB: Qual é o desafio para se construir uma agenda unitária?

M: O desafio é, de certa forma (tanto para nós como para o movimento social em seu conjunto, como também para a sociedade brasileira), compreender as dificuldades dos outros. E pensar em um projeto de desenvolvimento para a nação e não para um grupo. Hoje temos um projeto de desenvolvimento do Brasil que atende a apenas uma parte da sociedade e não a sociedade como um todo. A CTB, como central sindical ampla e plural, tem a necessidade de compreender o conjunto, a dimensão campo e cidade. E não apenas o movimento específico ou de uma categoria ou ramo específico.

CTB: O que você espera desse I Encontro Nacional da Juventude Trabalhadora e quais as principais iniciativas que devem ser tomadas a partir dele?

M: O encontro, no meu ponto de vista, é o primeiro passo que a CTB dá para construção desse elo de discussão. É a primeira oportunidade que a juventude tem de expressar o que ela pensa. E os pontos que temos que tirar como uma agenda para a juventude trabalhadora é o compromisso de cada um, dentro de suas instituições, de começar a discutir a realidade da juventude brasileira e não apenas daquela que está trabalhando ou da juventude que faz parte da CTB. Porque quando pensamos na juventude no geral, passamos a ter um projeto que abrange toda nossa sociedade e não apenas um grupo. É isso que vai fazer a diferença. Nós, participantes desse encontro, devemos levar para os debates fora daqui a proposta da CTB para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, com um projeto de desenvolvimento sustentável. Um projeto de nação em contraposição a um projeto que atenda a apenas uma categoria ou outra que esteja dentro do mercado de trabalho. Nosso desafio é tamb&ea
cute;m atender também aqueles que estão fora do mercado formal de trabalho.

Cinthia Ribas – Portal CTB

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