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Qui, Jul

Jorge Luiz Souto Maior

  • Na série “A ‘reforma’ já era”, que agora atinge o seu quinto título, o esforço tem sido o de demonstrar que a “reforma” trabalhista está fadada a ser destruída pelos seus próprios defeitos, que vão se revelando a cada instante e de forma ainda mais grave.

    ​Com a Medida Provisória (MP) 808, publicada em edição especial do Diário Oficial da União, em 14 de novembro de 2017, a mesma questão se repete, restando evidenciado, de uma só vez, que:

    a) o projeto de lei da “reforma” trabalhista não foi elaborado com o mínimo cuidado técnico, não foi embasado em estudos, avaliações, pesquisas e projeções; não foi fruto de reivindicação popular; e não foi precedido de com os setores diretamente interessados;

    b) a lei que resultou do projeto é, por isso, confusa, contraditória e não confiável mesmo para os empregadores que a pretendam aplicar buscando melhor eficiência produtiva ou, simplesmente, para obterem maior margem de lucro;

    c) o resultado das alterações legislativas revela ausência de compreensão do alcance jurídico do que foi escrito e despreocupação gramatical ou mesmo com a lógica;

    d) a lei foi impulsionada por prática não democrática, tanto que se tenta, agora, pela mesma lógica, por meio de Medida Provisória, impor mudanças na lei;

    e) há soberba na elaboração da lei, tal como agora, na edição da MP, também elaborada em desprezo à ordem constitucional;

    f) a soberba dos patrocinadores da lei foi ao ponto de manterem reféns as instituições responsáveis pela elaboração das leis brasileiras, a Presidência da República, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, sendo que tais instituições, para levarem adiante, de forma acelerada, a agenda do capital financeiro internacional, estão descumprindo, extrapolando ou terceirizando as suas funções;

    g) a pressão para o advento de uma MP com tamanha abrangência explicita a inconformidade com relação à resistência constitucional anunciada no seio do Poder Judiciário trabalhista, que demonstrou sua indisposição para ceder aos comandos do poder econômico.

    Estamos, desde o início, falando que a Lei nº 13.467/17 é repleta de inconsistências, inconstitucionalidades e inconvencionalidades e os defensores da lei diziam que manifestações neste sentido eram atos de rebeldia ou de boicote; que a lei estava pronta e acabada, e que o passo seguinte era apenas o da sua aplicação e ponto.

    Pois muito bem, a MP 808 prova que estávamos certos, pois, à guisa de reparar erros, foram introduzidas 85 (oitenta e cinco) modificações na Lei nº 13.467/17.

    Ou seja, segundo reconhecido na MP 808, a Lei nº 13.467/17 era mesmo inaplicável.

    Além disso, a MP 808 contrariou posições que vinham sendo publicamente manifestadas por defensores da lei quanto, por exemplo, aos termos e limites da parametrização da reparação (antes mal denominada “indenização”) por dano extrapatrimonial.

    As modificações, inclusive, foram baseadas em muitos dos argumentos apresentados pelas avaliações críticas ao conteúdo da Lei nº 13.467/17, muitos deles expressos nos Enunciados aprovados na II Jornada da Anamatra, instituição que foi dura, indevida e injustamente criticada por repetitivos e inconsistentes editoriais de jornais de grande circulação.

    Enfim, onde estão agora os tais defensores da Lei nº 13.467/17 que diziam que lei é para ser aplicada e que vieram a público para dizer que os juízes estavam cometendo ato de “desobediência civil” ao apontarem as impropriedades da lei?

    Pedirão desculpas?

    Não é necessário. Basta que enfiem a viola no saco!

    Fato é que não demorou nem cinco dias para que um pouco da verdade viesse à tona.

    Dissemos um pouco porque, de fato, o número de acertos que se tentou fazer está longe de representar a totalidade dos problemas que a Lei nº 13.467/17 tinha e ainda possui.

    E a vigilância se faz necessária porque os defensores da “reforma” – que pouco se importam sequer em saber o que está efetivamente dito na lei – não assumirão publicamente que estavam errados, não pedirão desculpas e ainda virão com o argumento de que os acertos necessários foram feitos e, agora, é “só aplicar”.

    O problema, meus caros, é que em vez de atingir o objeto de tonar a lei aplicável, a MP 808 só conseguiu piorar as coisas, criando uma espécie de balbúrdia jurídica total, podendo-se prever até mesmo que alguns dos defensores da “reforma” possam, agora, se colocarem contra o texto normativo inscrito na MP, considerando que ela, em alguns aspectos, foi um retrocesso. Talvez preconizem que as normas sejam interpretadas ou requeiram novas modificações, inaugurando-se um círculo sem fim, cada vez mais complexo.

    Com a MP 808/17 só se conseguiu dar vazão ao dito popular de que nada é tão ruim que não possa ser piorado, ainda mais se pensarmos que com a tramitação da MP no Congresso é possível propor alterações no seu texto. E dada a sua abrangência, essas alterações poderão colocar em discussão praticamente toda a “reforma”, sendo que, enquanto isso, a MP provisória continuará produzindo efeitos jurídicos, embora incertos.

    Fato é que se conseguiu instaurar o estágio pleno da insegurança jurídica.

    E se antes era um desafio conseguir aplicar a lei, agora é completamente impossível.

    Senão vejamos.

    1. A inconstitucionalidade da MP e a explicitação da ilegitimidade da Lei nº 13.467/17

    Como preconiza o art. 62 da CF, o Presidente só pode editar Medida Provisória em caso de relevância e urgência, e jamais como forma de corrigir “defeitos” de uma lei, que foi aprovada pelo Senado Federal sob a condição de que esses “defeitos” seriam superados por Medida Provisória.

    Independente de se analisar o seu conteúdo, bom ou ruim, a MP 808 é uma ofensa direta ao Estado de Direito, um arroubo autoritário.

    O próprio Senador Ricardo Ferraço, em seu relatório, refere que a Lei nº 13.467/17 “respeita a hierarquia das leis, não invadindo temas que são reservados ao texto constitucional”, já que "conforme a Constituição no inciso I de seu art. 22, compete privativamente à União legislar sobre direito do trabalho. Adicionalmente, conforme o caput do art. 48, cabe a este Congresso Nacional dispor sobre todas as matérias de competência da União”. Portanto, é do Congresso a competência para editar lei sobre questão trabalhista, não podendo, para tanto, ser utilizado o recurso de Medida Provisória, que sabidamente serve apenas para situações de urgência e relevância.

    O relatório afirma, ainda, que “a proposição não modifica os arts. 7o e 8o, nem altera qualquer artigo, parágrafo, inciso ou alínea da Constituição”; que “quando afirmamos que respeitamos por óbvio a hierarquia das leis, é para responder à tola tese de que esta reforma trabalhista ataca direitos constitucionais. Fosse esta a intenção, ela seria um tiro no pé, uma vez que prontamente a Corte Constitucional julgaria procedente a profusão de ações diretas de inconstitucionalidade que seriam pugnadas contra a norma. Esta narrativa é tão verossímil quanto à batalha de Itararé, a batalha que nunca houve". Ainda, que “fundamentalmente, esta proposta se motiva por um específico princípio constitucional: o da dignidade da pessoa humana. É sob esta perspectiva que devemos entender uma reforma que intenciona que as pessoas realizem seu potencial e persigam seus sonhos”. E que "Não há e não poderia haver na proposta qualquer dispositivo contrário ao sagrado direito constitucional de acesso à Justiça, especialmente por parte dos mais pobres." Essa última afirmação está, inclusive, grifada no relatório.

    A MP é a prova irrefutável de que nada disso corresponde à realidade.

    Além disso, a MP extrapola os limites do espúrio acordo feito com o Senado.

    A alteração promovida no artigo 59-A não estava apontada no relatório do Senado como necessária. Ao contrário, o Parlamento fez elogios à flexibilização ali promovida.

    As alterações, portanto, não atendem o suposto “acerto" promovido entre o Presidente da República e o Parlamento, e que de acordo com Ferraço legitimou a rejeição de todas as propostas de emenda e o encaminhamento de votação do texto tal como trazido da Câmara dos Deputados.

    Ao contrário, as mudanças ora realizadas constituem, como já dito, uma espécie de resposta à reação daqueles que denunciaram a impossibilidade de aplicação da Lei nº 13.467/17, em razão de suas impropriedades técnicas e inconstitucionalidades.

    2. Artigo por artigo

    a) Art. 59-A

    O Art. 59-A passa a ter como redação, "Em exceção ao disposto no art. 59 e em leis específicas, é facultado às partes, por meio de convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho, estabelecer horário de trabalho de doze horas seguidas por trinta e seis horas ininterruptas de descanso, observados ou indenizados os intervalos para repouso e alimentação”.

    Ou seja, não se permite mais que o ajuste seja feito por acordo individual, como havia previsto a Lei nº 13.467/17.

    “Um avanço”, diriam alguns... Mas é inconcebível considerar que qualquer tipo de recuo na Lei nº 13.467/17 possa constituir um avanço, ainda mais vindo de uma iniciativa inconstitucional.

    Um passo à frente depois de 100 passos atrás ainda resultam em 99 passos de derrotas.

    Além disso, essa visão obscurece o fato mais profundo de que nenhuma jornada de trabalho de 12 horas, como jornada normal, está autorizada pela Constituição (basta ler o inciso XIII do art. 7º).

    E se, por um lado, poderia ser verificado algum recuo, com a exclusão do acordo individual, por outro, a alteração proposta visou afastar a aplicação da lei do comerciário (Lei nº 12.790/13), que, em conformidade com a Constituição, impede a prática da jornada de 12 horas.

    O parágrafo único do Art. 59-A foi transformado em § 1º, com idêntica redação: “A remuneração mensal pactuada pelo horário previsto no caput abrange os pagamentos devidos pelo descanso semanal remunerado e pelo descanso em feriados e serão considerados compensados os feriados e as prorrogações de trabalho noturno, quando houver, de que tratam o art. 70 e o § 5º do art. 73”.

    Criou-se um § 2º: “É facultado às entidades atuantes no setor de saúde estabelecer, por meio de acordo individual escrito, convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho, horário de trabalho de doze horas seguidas por trinta e seis horas ininterruptas de descanso, observados ou indenizados os intervalos para repouso e alimentação.”

    A tentativa de não aplicação da Constituição ao setor mais afetado pela prática de jornadas inconstitucionais de 12h é evidente. Trata-se, claramente, de um adendo feito sob encomenda do setor que mercantilizou a saúde. E a redação é péssima, pois refere que as entidades firmarão acordos individuais. Além disso, é preciso pontuar que nada justifica a exceção, autorizando firmar o regime 12x36 por acordo individual, justamente para um setor em que a extensão da jornada é ainda mais prejudicial, sabidamente potencializadora de doenças físicas e mentais.

    A MP reitera o incentivo já anteriormente dado pelo legislador ao descumprimento do direito ao intervalo, autorizando, expressamente, também no § 3º, que o intervalo não seja concedido, transformando o direito do empregado ao intervalo no direito do empregador de não conceder o intervalo e pagar o valor correspondente, sem qualquer acréscimo punitivo.

    Na visão do legislador, o intervalo para repouso e alimentação não é um direito do empregado e sim uma faculdade do empregador, do que resulta a possibilidade, juridicamente admitida, de um empregado trabalhar 12 horas seguidas sem comer nem descansar.

    A previsão daria inveja aos industriais dos primórdios da Revolução Industrial! E se pensarmos que ainda se incentivou a prática de horas extras no dito regime 12x36, inclusive em atividade insalubre, conforme se extrai da previsão contida no parágrafo único do art. 60, então se poderia chegar ao fato, sem efeito jurídico específico, de um trabalho prestado durante 14 horas seguidas sem alimentação e em atividade insalubre, o que, certamente, causaria inveja aos escravistas – se bem que muitos deles ainda estão por aí...

    Também aqui, vale lembrar, não havia pacto prévio de ajuste de norma por MP, de tal sorte que a alteração só pode ser compreendida como uma resposta às críticas feitas à Lei nº 13.467/17 e que, nesse sentido, ratificam a má redação e a impropriedade daquela norma, dando plena razão aos juízes e advogados que, preocupados em fazer valer a ordem constitucional, apontaram suas incoerências.

    b) Art. 223-C

    O Art. 223-C ganha nova redação para incluir, de modo absolutamente desnecessário em razão da ordem constitucional vigente, a “etnia, a idade e a nacionalidade” como bens de ordem extrapatrimonial a serem resguardados, além de ter feito um reparo técnico alterando a expressão “pessoa física”, que não se fala mais há muito tempo, para “pessoa natural”.

    Também, em lugar de sexualidade, utilizam-se as expressões “gênero” e “orientação sexual”, respondendo claramente às críticas tecidas por aqueles que atuam na área jurídica quanto à impropriedade da redação original.

    E ainda assim não se atendeu o preceito básico, constitucionalmente assegurado, do enfrentamento contra a discriminação racial (inciso IV, art. 3º), que é, como se sabe, a mais recorrente e grave no âmbito das relações de trabalho[i], aliada, na maioria das vezes, com interseccionalidade, às questões de gênero e de orientação sexual.

    Aqui, portanto, novamente trata-se de ajuste que reconhece a pouca técnica e a forma açodada e ultrapassada com que a Lei nº 13.467 tratou de questões fundamentais.

    Novamente, nenhuma relação se tem com os problemas reconhecidos pelo Parlamento e ajustados previamente com o governo federal. Apenas uma resposta às críticas duramente desqualificadas pela mídia e pelo próprio governo, e que agora se revelam acertadas.

    c) Art. 223-G

    O Art. 223-G, em seu § 1º, também ganha alteração que se caracteriza claramente como resposta às inúmeras críticas formuladas pelos intérpretes do Direito do Trabalho e apontadas como “rebeldia” pelo governo e pela grande mídia.

    Manteve-se, no entanto, a tarifação, com alteração da base de cálculo, que deixa de ser o valor do salário, para passar a ser "o valor do limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social”. Não se resolve, portanto, a incompatibilidade da norma com o sistema jurídico vigente ou mesmo com a própria razão pela qual se reconhece a possibilidade de ressarcimento monetário em face de lesão extrapatrimonial. Exatamente por tratar de dano extrapatrimonial, o valor da lesão não pode ser aferido a priori, eis que dependerá da análise das circunstâncias do caso concreto.

    Esse é, inclusive, o entendimento atual do STJ (Súmula 326).

    No § 3º tentou-se corrigir a impropriedade da expressão “Na reincidência entre partes idênticas, o juízo poderá elevar ao dobro o valor da indenização”, pois seria como se o agressor só pudesse ser considerado reincidente se cometesse o mesmo ilícito, mais de uma vez, em relação à mesma pessoa, o que feria toda a base da regulação jurídica. Mas, para corrigir, a MP trouxe expressão ainda mais imprecisa: “Na reincidência de quaisquer das partes, o juízo poderá elevar ao dobro o valor da indenização”. De fato, não se melhorou a expressão anterior. A anterior foi abandonada e se trouxe outra em sentido completamente novo e, ao mesmo tempo, inteligível, pois, afinal, o que é “reincidência de quaisquer partes”?

    Talvez se tenha tentado dizer que na verificação da reincidência não importa se o ofendido foi, ou não, a mesma pessoa, mas não é isso o que está dito. De todo modo, deixemos assim e compreendamos que seja isso o que está dito.

    De todo modo, a alteração corrobora, novamente, as críticas feitas à Lei nº 13.467/17.

    Incluiu-se um § 4º nesse dispositivo, estabelecendo que “Para fins do disposto no § 3º, a reincidência ocorrerá se ofensa idêntica ocorrer no prazo de até dois anos, contado do trânsito em julgado da decisão condenatória”. Ou seja, foi criado um lapso de dois anos para conferir uma espécie de salvo-conduto ao ofensor, que, portanto, recebe maior proteção na MP do que o ofendido.

    Por fim, no § 5º dispôs-se que: “Os parâmetros estabelecidos no § 1º não se aplicam aos danos extrapatrimoniais decorrentes de morte”.

    Novamente o governo, em atitude patética, tenta responder às resistências que foram formuladas à lei. O § 5º é resultado da ampla crítica formulada à tarifação de dano em situações de extrema gravidade, como aquela que resulta morte do trabalhador. E cria uma situação absurda na qual a morte é “premiada" com uma indenização diferenciada.

    É evidente que a inconstitucionalidade do dispositivo não se resume a tais situações, mas o fato de a MP tentar corrigir essa aberração revela nitidamente o completo fracasso da “reforma”, reforçando nossos argumentos de que se trata de uma lei inconstitucional, ilegítima, inconvencional, ilegal, mal redigida e, por tudo isso, destinada a não ser aplicada.

    Importante pontual que outra questão não foi enfrentada e continua, assim, em aberto, que diz respeito à não aplicação do artigo 223-G, na sua totalidade, aos danos extrapatrimoniais decorrentes de acidentes do trabalho, vez que o acidente do trabalho é um instituto próprio, sempre referido de forma específica quando a ordem jurídica a ele se refere (artx. 7º, XXVIII; 109, I; 201, § 1º da CF, por exemplo).

    d) Art. 394-A

    A alteração no art. 394-A, para determinar o afastamento da empregada gestante, de ambiente insalubre, enquanto durar a gestação, com o cuidado perverso de excluir, “nesse caso, o pagamento de adicional de insalubridade” também é resposta às críticas feitas à reforma e acolhimento de tese aprovada na II JORNADA realizada pela ANAMATRA, segundo a qual: "A AUTORIZAÇÃO LEGAL PERMITINDO O TRABALHO DA GESTANTE E LACTANTE EM AMBIENTE INSALUBRE É INCONSTITUCIONAL E INCONVENCIONAL PORQUE VIOLADORA DA DIGNIDADE HUMANA, DO DIREITO À REDUÇÃO DOS RISCOS INERENTES AO TRABALHO, DA PROTEÇÃO INTEGRAL AO NASCITURO E À CRIANÇA E DO DIREITO SOCIAL À SAÚDE. ADEMAIS, O MEIO AMBIENTE DO TRABALHO SAUDÁVEL É DIREITO FUNDAMENTAL GARANTIDO PELA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA, REVESTIDO DE INDISPONIBILIDADE ABSOLUTA. INCIDÊNCIA DOS ARTS. 1º, III; 6º; 7º, XXII; 196; 200; 201, II; 203, I; 225; 226 E 227 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL; CONVENÇÃO 103 E 183 DA OIT; ARTS. 25, I E II DA DUDH”.

    O faz, porém, novamente de forma inconstitucional, pois até piora o que já estava ruim, na medida em que antes ao menos se garantia o recebimento da remuneração adicional e, agora, o texto do artigo exclui, expressamente, o recebimento.

    Se dirá que ao menos a empregada gestante foi afastada da atividade insalubre, mas não como uma garantia e sim como uma punição, pois sua remuneração foi diminuída no período, em prejuízo, inclusive, de uma gestação com maior tranquilidade.

    Além disso, a possibilidade pelo exercício do trabalho nas atividades insalubres nos graus mínimo e médio está dada no § 2º e deixa de ser uma opção, pois diante da diminuição da remuneração a tendência é que opção seja buscada pela trabalhadora, ainda mais diante da concorrência perante outras que ajam dessa forma, sendo que o atestado médico, para possibilitar esse trabalho, deveria ter que provar cientificamente que o trabalho insalubre não gera dano à gestante e ao feto.

    Do jeito que está regulada a proibição não terá efeito concreto.

    O governo, aqui, dá o golpe dentro do golpe, pois descumprindo o compromisso supostamente assumido com o Parlamento (que se extrai do relatório de Ferraço), finge afastar a gestante do trabalho em condição insalubre para novamente permiti-lo nesse parágrafo. O requinte de perversidade está na disposição de que a trabalhadora - sem qualquer garantia contra a despedida após cinco meses da data do parto - poderá “voluntariamente” apresentar atestado que permita trabalhar em condições de agressão à sua saúde e a de seu filho.

    Do mesmo modo, o § 3º, cuja redação passa a ser “A empregada lactante será afastada de atividades e operações consideradas insalubres em qualquer grau quando apresentar atestado de saúde emitido por médico de sua confiança, do sistema privado ou público de saúde, que recomende o afastamento durante a lactação." faz com que a norma siga incompatível com o sistema jurídico trabalhista, nacional e internacional.

    e) Art. 442-B

    De plano, há de se destacar que causa espécie uma legislação trabalhista se preocupar em regular o trabalho autônomo, pois o que o Direito do Trabalho normatiza é o outro lado dessa moeda, qual seja, o trabalho subordinado.

    A intenção é clara: abrir supostos espaços legais para que um trabalho subordinado seja compreendido como autônomo e, consequentemente, não tenha a incidência dos direitos trabalhistas. Trata-se, pois, de um movimento autofágico de uma lei trabalhista que está preocupada com a sua própria negação.

    Tarefa ingrata, no entanto, vez que os artigos 2º e 3º da CLT continuam vigentes e definem, de maneira há muito integrada à doutrina trabalhista, as figuras do empregador e do empregado, respectivamente. E o artigo 9º da CLT, ademais, deixa claro que “serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação.”

    O art. 442-B tem seu caput alterado para supressão da expressão "com ou sem exclusividade”. Novamente trata-se de resposta às críticas formuladas à possibilidade de contratação de autônomo exclusivo. De novo, nada além do reconhecimento das incoerências da lei e, portanto, de veracidade das críticas a ela formuladas por juízes e advogados.

    Esse dispositivo ganha o § 1º, estabelecendo que “É vedada a celebração de cláusula de exclusividade no contrato previsto no caput”, ou seja, o exato contrário do que havia disposto a lei cuja vigência não tinha sequer uma semana!

    É certo que não apenas a exclusividade determina a caracterização da relação de emprego e que essa redação não afastará, como aliás pontua Ferraço em seu relatório, quando afirma, em relação à “reforma”, que: “nenhum destes dispositivos afasta a competência da Justiça de Trabalho de reconhecer a relação de emprego quando presentes os seus requisitos, previstos nos arts. 2o e 3o da CLT: trabalho prestado por pessoa física, pessoalidade, onerosidade, não-eventualidade e subordinação”.

    O § 2º incluído nesse dispositivo estabelece que “não caracteriza a qualidade de empregado prevista no art. 3º o fato de o autônomo prestar serviços a apenas um tomador de serviços”.

    É certo o fracasso de regras que pretendam dizer o que não é determinada relação social, assim como é certa a importância que a primazia da realidade tem na análise jurídica dessas relações.

    O texto normativo está gastando palavras inutilmente, pois é como se dissesse: empregado é empregado; autônomo é autônomo!

    O § 3º dispõe que “O autônomo poderá prestar serviços de qualquer natureza a outros tomadores de serviços que exerçam ou não a mesma atividade econômica, sob qualquer modalidade de contrato de trabalho, inclusive como autônomo”.

    Mais uma tremenda bobagem. Dispor, em lei, que o trabalhador pode ter mais de um vínculo de trabalho, seja ele autônomo ou subordinado, é nada dizer. É exatamente o mesmo que ocorre em relação à disposição de que: “Fica garantida ao autônomo a possibilidade de recusa de realizar atividade demandada pelo contratante, garantida a aplicação de cláusula de penalidade prevista em contrato” (§ 4º).

    O § 5º, cuja redação é “Motoristas, representantes comerciais, corretores de imóveis, parceiros, e trabalhadores de outras categorias profissionais reguladas por leis específicas relacionadas a atividades compatíveis com o contrato autônomo, desde que cumpridos os requisitos do caput, não possuirão a qualidade de empregado prevista o art. 3º”.

    Chuva no molhado, que, de todo modo, revela a tentativa desesperadora de conseguir que a lei “golpista” permita que se cometam fraudes contra a ordem jurídica.

    Incide no mesmo equívoco e com um agravamento: segue não havendo disposição expressa acerca de quais seriam esses “requisitos legais” a serem observados. Resta, novamente, a proposição: autônomo é autônomo, empregado é empregado!

    O § 6º dispõe que “presente a subordinação jurídica, será reconhecido o vínculo empregatício”. Ainda bem que a MP 808 disse isso, pois, do contrário, nenhum profissional da área jurídica trabalhista saberia!

    Fica, no entanto, a dúvida: seria soberba ou ignorância daqueles que elaboraram a MP? Da análise do conjunto da “reforma” pende-se mais para a soberba, pois em algumas passagens da Lei nº 13.467/17 chega-se a dizer que a Constituição deve ser respeitada, como se o respeito a Constituição dependesse dessa “autorização”.

    Ao menos se tem aqui, nesse dispositivo da MP, a confissão de que a regulação não passou de uma tentativa de fraudar a lei por meio da lei, afastando a configuração da relação de emprego onde efetiva relação de emprego existe.

    O § 7º fixa que "o disposto no caput se aplica ao autônomo, ainda que exerça atividade relacionada ao negócio da empresa contratante." A nossa criatividade para dizer a mesma coisa de maneiras diferentes não é tão grande quanto a dos autores da MP, então não temos mais nada a dizer a respeito, ficando, assim, sem comentário o § 7º.

    f) Art. 452-A

    O Art. 452-A foi alterado em seu caput, para substituir a expressão “deve ser celebrado” por “será celebrado” e para acrescentar (desnecessariamente, haja vista o art. 29 da CLT) a expressão “registrado na CTPS”. Acrescenta, ainda, o aposto “ainda que previsto acordo coletivo de trabalho ou convenção coletiva”, também irrelevante no contexto da “reforma”, porque não estabelece a necessidade de previsão em norma coletiva, apenas a faculdade.

    A expressão "deve conter especificamente o valor da hora de trabalho, que não pode ser inferior ao valor horário do salário mínimo ou àquele devido aos demais empregados do estabelecimento que exerçam a mesma função em contrato intermitente ou não”, que continha o caput desse dispositivo passa a constar nos incisos a ele acrescidos.

    O inciso I determina que conste do contrato “identificação, assinatura e domicílio ou sede das partes”, o II “valor da hora ou do dia de trabalho, que não poderá ser inferior ao valor horário ou diário do salário mínimo, assegurada a remuneração do trabalho noturno superior à do diurno e observado o disposto no § 12”. A exigência de observância do valor devido aos demais empregados passa a constar no § 12: “O valor previsto no inciso II do caput não será inferior àquele devido aos demais empregados do estabelecimento que exerçam a mesma função”.

    Mantém-se, no entanto, como letra morta, o disposto na Constituição, inciso VII, art. 7º, a “garantia de salário, nunca inferior ao mínimo, para os que percebem remuneração variável”, sob o falso argumento de que o recebimento do salário mínimo é apenas devido a quem cumpre jornada integral de oito horas, o que se trata de uma interpretação totalmente indevida da Constituição, que em nenhum momento diz isso. Pela obrigatoriedade da literalidade, salário mínimo é o mínimo e ponto!

    Incluiu-se, ainda, no art. 452-A, o inciso III, determinando que conste “o local e o prazo para o pagamento da remuneração”, novamente uma resposta às críticas formuladas pela doutrina trabalhista.

    O § 2º piora a condição anterior, fixada pela Lei nº 13.467/17, pois em lugar de um dia útil, o empregado passa a ter “o prazo de vinte e quatro horas para responder ao chamado”. De novo, a alteração responde à crítica acerca da dificuldade, inclusive, de cômputo desse prazo, dependendo do horário em que a comunicação tiver sido feita ao empregado.

    A multa, absolutamente inconstitucional, não é alterada[ii].

    O § 6º, que dispunha pagamento ao final de cada período de prestação de serviço e que foi amplamente criticado pela dificuldade que geraria inclusive para a contabilidade e organização do empregador, foi alterado para dispor: “Na data acordada para o pagamento, observado o disposto no § 11, o empregado receberá, de imediato, as seguintes parcelas.”

    Se a situação já era ruim para o trabalhador agora ficou pior, pois a tal “data acordada”, ainda mais em se tratando de um trabalhador intermitente, sempre será a mais distante possível do trabalho realizado.

    O referido § 11, acrescentado pela MP, dispõe que “Na hipótese de o período de convocação exceder um mês, o pagamento das parcelas a que se referem o § 6º não poderá ser estipulado por período superior a um mês, contado a partir do primeiro dia do período de prestação de serviço”.

    De novo, não se trata de honrar o ajuste feito com o Parlamento, já que a única crítica tecida por Ferraço foi no sentido da não limitação das categorias para as quais tal contrato seria aplicável. A alteração é - outra vez - resposta às críticas formuladas pela doutrina trabalhista, evidenciando a má técnica legislativa.

    O pior é que segue admitindo que haja convocação excedendo o período de um mês e não foi incluída cláusula que garanta valor mensal mínimo de remuneração. Segue, portanto, havendo ofensa direta à Constituição, que diz que o salário mínimo é direito fundamental dos trabalhadores.

    A MP ainda acrescenta a esse dispositivo o § 10 dispondo que “O empregado, mediante prévio acordo com o empregador, poderá usufruir suas férias em até três períodos, nos termos dos § 1º e § 2º do art. 134”.

    Ao estabelecer a possibilidade de fracionamento corrobora a tese de que tal período deva ser remunerado, como aliás determina a Constituição, ratificando a crítica já feita no decorrer deste estudo.

    O § 13, também acrescentado, estabelece que “Para os fins do disposto neste artigo, o auxílio-doença será devido ao segurado da Previdência Social a partir da data do início da incapacidade, vedada a aplicação do disposto § 3º do art. 60 da Lei nº 8.213, de 1991; o § 14: “O salário maternidade será pago diretamente pela Previdência Social, nos termos do disposto no § 3º do art. 72 da Lei nº 8.213, de 1991” e o § 15: “Constatada a prestação dos serviços pelo empregado, estarão satisfeitos os prazos previstos nos § 1º e § 2º." Ora, o § 13 pretende retirar do trabalhador o direito à remuneração em relação aos primeiros quinze dias consecutivos ao do afastamento da atividade por motivo de doença, promovendo um retorno à lógica do Século XVIII.

    Também, neste ponto, é evidente a tentativa de ajustar equívocos insuperáveis da “reforma”, ao propor modalidade de trabalho completamente precária e infensa à proteção constitucionalmente assegurada.

    O remendo, pior do que o soneto, apenas sublinha a percepção de que essa modalidade de contratação também está destinada ao fracasso.

    Acrescentou-se, ainda, um Art. 452-B, para estabelecer que “É facultado às partes convencionar por meio do contrato de trabalho intermitente: I - locais de prestação de serviços; II - turnos para os quais o empregado será convocado para prestar serviços; III - formas e instrumentos de convocação e de resposta para a prestação de serviços; IV - formato de reparação recíproca na hipótese de cancelamento de serviços previamente agendados nos termos dos § 1º e § 2º do art. 452-A.” como se houvesse na realidade brasileira, em que existem milhões de desempregados, alguma possibilidade de “ajuste” entre as partes para a fixação das condições de trabalho.

    O Art. 452-C, também acrescentado pela MP, dispõe que: “Para fins do disposto no § 3º do art. 443, considera-se período de inatividade o intervalo temporal distinto daquele para o qual o empregado intermitente haja sido convocado e tenha prestado serviços nos termos do § 1º do art. 452- A”.

    O § 1º refere que “Durante o período de inatividade, o empregado poderá prestar serviços de qualquer natureza a outros tomadores de serviço, que exerçam ou não a mesma atividade econômica, utilizando contrato de trabalho intermitente ou outra modalidade de contrato de trabalho”, o que além de ser completamente inútil, pois como já afirmamos nada impede o trabalhador de manter mais de um vínculo de emprego, logo essa “faculdade” não precisa ter previsão legal, apenas chancela a supressão do direito constitucional às férias, pois de nada adianta um empregador reconhecer o direito ao descanso, mas a atividade laboral seguir sendo prestada para os demais.

    A MP reforça, assim, a perversão do sentido de liberdade, dando a entender que o trabalhador é livre quando presta serviços a muitos empregadores ao mesmo tempo, esquecendo-se de que esse dado apenas reforça a sua submissão e dependência.

    Esse dispositivo ganha, ainda, um § 2º, que estabelece: “No contrato de trabalho intermitente, o período de inatividade não será considerado tempo à disposição do empregador e não será remunerado, hipótese em que restará descaracterizado o contrato de trabalho intermitente caso haja remuneração por tempo à disposição no período de inatividade”.

    Além da péssima redação, esse confuso dispositivo apenas está buscando repetir o que a definição de trabalho intermitente já contempla, trazendo, ainda, um recado, numa clara tentativa de desestímulo à remuneração do período à disposição, em expressa contrariedade à norma do caput do art. 4o da CLT.

    Ainda assim, o que efetivamente faz é ratificar a necessidade de descaracterização dessa modalidade absurda de contrato, sempre que evidenciada a fraude.

    A vontade de precarizar é de tal modo intensa, que a fúria legislativa segue, criando um art. 452-D que diz: “Decorrido o prazo de um ano sem qualquer convocação do empregado pelo empregador, contado a partir da data da celebração do contrato, da última convocação ou do último dia de prestação de serviços, o que for mais recente, será considerado rescindido de pleno direito o contrato de trabalho intermitente”.

    Novamente é preciso pontuar que essa alteração, longe de significar resultado do pacto formulado entre Parlamento e governo, constitui uma resposta (perversa) às críticas formuladas quanto à possibilidade de o empregado permanecer eternamente vinculado ao contrato, sem qualquer chamado, perdendo, portanto, inclusive o direito à rescisão.

    Entretanto, a forma de solucionar o problema é ilegal, pois admite o reconhecimento da rescisão após um ano de “inatividade”, desrespeitando, portanto, o caráter sinalagmático que deve informar a relação de trabalho e rompendo com a regra de contraprestação mensal dos deveres principais dessa relação jurídica, mesmo sem a prestação de serviços.

    Ora, se não houver convocação por mais de um mês, já há razão suficiente para a rescisão do vínculo, mediante aplicação analógica do que dispõe o art. 474 da CLT (A suspensão do empregado por mais de 30 (trinta) dias consecutivos importa na rescisão injusta do contrato de trabalho).

    Incluiu-se, ainda, um art. 452-E: “Ressalvadas as hipóteses a que se referem os art. 482 e art. 483, na hipótese de extinção do contrato de trabalho intermitente serão devidas as seguintes verbas rescisórias: I - pela metade: a) o aviso prévio indenizado, calculado conforme o art. 452- F; e b) a indenização sobre o saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço - FGTS, prevista no § 1º do art. 18 da Lei nº 8.036, de 11 de maio de 1990; e II - na integralidade, as demais verbas trabalhistas”.

    E § 1º: “A extinção de contrato de trabalho intermitente permite a movimentação da conta vinculada do trabalhador no FGTS na forma do inciso I-A do art. 20 da Lei nº 8.036, de 1990, limitada a até oitenta por cento do valor dos depósitos”.

    Nada alterado, portanto, senão a forma de redação dessas regras.

    O § 2º desse dispositivo introduz mais uma perda de direito, como se tudo que já se produzira pela Lei nº 13.467/17 não fosse já suficiente: “A extinção do contrato de trabalho intermitente a que se refere este artigo não autoriza o ingresso no Programa de Seguro-Desemprego”.

    Interessante que a MP não tem exposição de motivos, mas ainda que tivesse, nada justificaria que o trabalhador intermitente, já precarizado em seus direitos mais elementares, perdesse acesso ao seguro-desemprego, quando da perda involuntária do trabalho. Trata-se de regra, uma vez mais, flagrantemente inconstitucional.

    De todo modo, serve para demonstrar que mesmo o “regulador” não considera que o trabalho intermitente seja emprego, embora seja claro que para efeitos estatísticos, com o fim de tentar justificar o “sucesso” da “reforma” na criação de empregos vai integrar os trabalhados intermitentes ao rol dos empregos criados.

    Mas se é assim a modalidade criada, em sua totalidade, não passa pelo crivo da constitucionalidade, eis que aos trabalhadores a Constituição garante, no inciso I, do art. 7º, o direito à relação de emprego e, no inciso, II, o recebimento do seguro-desemprego, no caso de desemprego involuntário.

    Se o trabalho intermitente é emprego, os trabalhadores intermitentes terão direito ao seguro-desemprego, tantas quantas forem as suas relações. Se a modalidade não é inconstitucional, na íntegra, pois o avesso da relação de emprego é o trabalho subordinado e não pode haver, assim, relação de trabalho que não é, ao mesmo tempo, relação de emprego e trabalho autônomo.

    Aliás, reforça a crença do “regulado” de que não está cuidando de um emprego, a regra que estabelece, sem critério algum, o pagamento pela metade de algumas verbas rescisórias (452-F, I – acima), o que não encontra qualquer suporte constitucional.

    O Art. 452-F refere que “As verbas rescisórias e o aviso prévio serão calculados com base na média dos valores recebidos pelo empregado no curso do contrato de trabalho intermitente. § 1º No cálculo da média a que se refere o caput, serão considerados apenas os meses durante os quais o empregado tenha recebido parcelas remuneratórias no intervalo dos últimos doze meses ou o período de vigência do contrato de trabalho intermitente, se este for inferior”.

    O § 2º desse dispositivo menciona que: “O aviso prévio será necessariamente indenizado, nos termos dos § 1º e § 2º do art. 487”.

    Neste ponto o elaborador da MP 808 revela sua incapacidade de compreensão da legislação trabalhista. Aviso prévio é tempo. Não é rubrica. É tempo para organização do trabalhador, ou da empresa, para encarar o término do contrato. Não há, portanto, como aplicar uma regra que nega o próprio instituto que busca regular.

    Concretamente, todo esse emaranhado de normas regulando o trabalho intermitente é apenas um disfarce, para parecer que se estão garantindo direitos nesse tipo de trabalho, que, de fato, é um estágio muito próximo da própria supressão da condição humana do trabalhador, pois, no fundo, tudo não passará de um cálculo meramente matemático em que o empregador oferecerá um valor X para o trabalho e dentro desse valor fará uma distinção de parcelas, como se estivesse respeitando direitos, mas que, efetivamente, direitos não são.

    Falando da realidade, não existissem todos esses dispositivos, que, como se vê, não nada asseguram ao trabalhador, e só houvesse a possibilidade de se contratar trabalhadores pela regra da intermitência, sem direito algum, os valores desembolsados pelas empresas seriam exatamente os mesmos.

    Essa lógica matemática inquestionável é o suficiente para negar validade a esse tipo de contratação que, praticamente, generalizada, destrói toda a base do Estado Social brasileiro, conduzindo-nos, todos, trabalhadores intermitentes ou não, à barbárie.

    E não cola o argumento de que é melhor para os desempregados essa precariedade do que nada, porque todo o aparato constitucional dos direitos sociais se consagrou exatamente para romper essa lógica econômica que já foi experimentada e conduziu a humanidade a duas guerras mundiais.

    O “regulador” autoritário bem sabe disso, pois tenta evitar que se proceda a troca do empregado efetivo, com plenos direitos, pelo intermitente (art. 452-G), mas não consegue, e não quer, na verdade, impedir que os novos postos de trabalho sejam preenchidos por essa via precária, o que, inclusive, deixa o efetivo em situação de extrema fragilidade perante o empregador.

    Diz o art. 452-G: “Até 31 de dezembro de 2020, o empregado registrado por meio de contrato de trabalho por prazo indeterminado demitido não poderá prestar serviços para o mesmo empregador por meio de contrato de trabalho intermitente pelo prazo de dezoito meses, contado da data da demissão do empregado”.

    E o Art. 452-H estabelece que “No contrato de trabalho intermitente, o empregador efetuará o recolhimento das contribuições previdenciárias próprias e do empregado e o depósito do FGTS com base nos valores pagos no período mensal e fornecerá ao empregado comprovante do cumprimento dessas obrigações, observado o disposto no art. 911-A”.

    Fato é que a regulação do trabalho intermitente segue sendo flagrantemente inconstitucional, conforme teses aprovadas na II JORNADA realizada pela ANAMATRA:

    “É INCONSTITUCIONAL O REGIME DE TRABALHO INTERMITENTE PREVISTO NO ART. 443, § 3º, E ART. 452-A DA CLT, POR VIOLAÇÃO DO ART. 7º, I E VII DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA E POR AFRONTAR O DIREITO FUNDAMENTAL DO TRABALHADOR AOS LIMITES DE DURAÇÃO DO TRABALHO, AO DÉCIMO TERCEIRO SALÁRIO E ÀS FÉRIAS REMUNERADAS”.

    “A PROTEÇÃO JURÍDICA DO SALÁRIO MÍNIMO, CONSAGRADA NO ART. 7º, VII, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA, ALCANÇA OS TRABALHADORES EM REGIME DE TRABALHO INTERMITENTE, PREVISTO NOS ARTS. 443, § 3º, E 452-A DA CLT, AOS QUAIS É TAMBÉM ASSEGURADO O DIREITO À RETRIBUIÇÃO MÍNIMA MENSAL, INDEPENDENTEMENTE DA QUANTIDADE DE DIAS EM QUE FOR CONVOCADO PARA TRABALHAR, RESPEITADO O SALÁRIO MÍNIMO PROFISSIONAL, O SALÁRIO NORMATIVO, O SALÁRIO CONVENCIONAL OU O PISO REGIONAL”.

    g) Art. 457

    No art. 457, § 1º, a alteração também foi irrelevante. Acrescenta-se em lugar de “as gratificações legais” a expressão “as gratificações legais e de função”. Ou seja: nada muda.

    No § 2º, acrescentou-se em relação à ajuda de custo, o aposto “limitadas a cinquenta por cento da remuneração mensal”, o que representa, novamente, resposta às críticas formuladas a esse dispositivo, o que, diga-se de passagem, não resolve sua impropriedade.

    Ora, se se tratar efetivamente de ajuda de custo não será remuneração, como, aliás, nunca foi. Se se tratar de salário simulado, assim será considerado por força do art. 9o da CLT.

    Logo, novamente aqui a MP nada altera.

    Foi suprimida a expressão “abono”, e isso certamente em resposta às críticas formuladas à “reforma”, tal como a que consta de Enunciados aprovados na Jornada de estudos realizada pelos Juízes do Trabalho da Quarta Região, segundo os quais: “I – A partir da interpretação histórica do ordenamento jurídico, o abono mencionado no §2o do art. 457 da CLT é somente o abono decorrente de lei de política salarial. II - A verba denominada abono em contrato de trabalho ou em regulamento de empresa tem natureza jurídica salarial. III - A verba denominada abono nas normas coletivas tem sua natureza jurídica definida na própria norma coletiva e, no silêncio desta, tem natureza jurídica salarial. IV - Sempre que se destinar a mascarar salário em sentido restrito, a verba denominada abono, seja pelo contrato de trabalho ou pela norma coletiva, tem natureza jurídica salarial”.

    Acrescenta-se, ainda, a esse artigo 457, um § 12, no qual se lê: “A gorjeta a que se refere o § 3º não constitui receita própria dos empregadores, destina-se aos trabalhadores e será distribuída segundo os critérios de custeio e de rateio definidos em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho”, que é uma disposição completamente desnecessária.

    O § 13 refere que “Se inexistir previsão em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho, os critérios de rateio e distribuição da gorjeta e os percentuais de retenção previstos nos § 14 e § 15 serão definidos em assembleia geral dos trabalhadores, na forma estabelecida no art. 612”.

    O § 14: “As empresas que cobrarem a gorjeta de que trata o § 3º deverão: I - quando inscritas em regime de tributação federal diferenciado, lançá-la na respectiva nota de consumo, facultada a retenção de até vinte por cento da arrecadação correspondente, mediante previsão em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho, para custear os encargos sociais, previdenciários e trabalhistas derivados da sua integração à remuneração dos empregados, hipótese em que o valor remanescente deverá ser revertido integralmente em favor do trabalhador; II - quando não inscritas em regime de tributação federal diferenciado, lançá-la na respectiva nota de consumo, facultada a retenção de até trinta e três por cento da arrecadação correspondente, mediante previsão em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho, para custear os encargos sociais, previdenciários e trabalhistas derivados da sua integração à remuneração dos empregados, hipótese em que o valor remanescente deverá ser revertido integralmente em favor do trabalhador; e III - anotar na CTPS e no contracheque de seus empregados o salário contratual fixo e o percentual percebido a título de gorjeta”.

    O § 15: “A gorjeta, quando entregue pelo consumidor diretamente ao empregado, terá seus critérios definidos em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho, facultada a retenção nos parâmetros estabelecidos no § 14” e o § 16: “As empresas anotarão na CTPS de seus empregados o salário fixo e a média dos valores das gorjetas referente aos últimos doze meses”.

    Todas disposições desnecessárias que dizem o óbvio ou o que já consta no texto de lei.

    O § 17 estabelece que “Cessada pela empresa a cobrança da gorjeta de que trata o § 3º, desde que cobrada por mais de doze meses, essa se incorporará ao salário do empregado, a qual terá como base a média dos últimos doze meses, sem prejuízo do estabelecido em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho”.

    O § 18: “Para empresas com mais de sessenta empregados, será constituída comissão de empregados, mediante previsão em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho, para acompanhamento e fiscalização da regularidade da cobrança e distribuição da gorjeta de que trata o § 3º, cujos representantes serão eleitos em assembleia geral convocada para esse fim pelo sindicato laboral e gozarão de garantia de emprego vinculada ao desempenho das funções para que foram eleitos, e, para as demais empresas, será constituída comissão intersindical para o referido fim” .

    O § 19: “Comprovado o descumprimento ao disposto nos § 12, § 14, § 15 e § 17, o empregador pagará ao trabalhador prejudicado, a título de multa, o valor correspondente a um trinta avos da média da gorjeta por dia de atraso, limitada ao piso da categoria, assegurados, em qualquer hipótese, o princípio do contraditório e da ampla defesa”

    O § 20: “A limitação prevista no § 19 será triplicada na hipótese de reincidência do empregador”.

    O § 21: “Considera-se reincidente o empregador que, durante o período de doze meses, descumprir o disposto nos § 12, § 14, § 15 e § 17 por período superior a sessenta dias”.

    A má técnica legislativa e a quase ingênua vontade de colocar tudo no texto de lei se revela, também, pelo fato de que o § 4º desse artigo se mantém, especificando que: “Consideram-se prêmios as liberalidades concedidas pelo empregador em forma de bens, serviços ou valor em dinheiro a empregado ou a grupo de empregados, em razão de desempenho superior ao ordinariamente esperado no exercício de suas atividades”.

    Ao mesmo tempo, se inclui o § 22 que diz: “Consideram-se prêmios as liberalidades concedidas pelo empregador, até duas vezes ao ano, em forma de bens, serviços ou valor em dinheiro, a empregado, grupo de empregados ou terceiros vinculados à sua atividade econômica em razão de desempenho superior ao ordinariamente esperado no exercício de suas atividades”.

    Novamente verifica-se uma tentativa desesperada de fazer ajustes na péssima redação da “reforma”, que, ao se referir a desempenho “superior ao ordinariamente esperado”, impede que valores pagos pelo trabalho normalmente exigido do empregado sejam qualificados como prêmios para efeito da precarização pretendida pela norma.

    Agora, dois parágrafos com dizeres diferentes tratarão da mesma conceituação, e o que é mais bizarro, mantendo a expressão que concretamente impedirá a aplicação de ambas as regras.

    Por fim, é incluído um § 23: “Incidem o imposto sobre a renda e quaisquer outros encargos tributários sobre as parcelas referidas neste artigo, exceto aquelas expressamente isentas em lei específica”.

    Quanto à remuneração, reafirmou-se a conclusão exarada na II JORNADA de Direito Material e Processual promovida pela ANAMATRA: “EXPRESSÃO "AINDA QUE HABITUAIS" CONSTANTE DO § 2º DO ART. 457, DA CLT, COM A REDAÇÃO DADA PELA LEI 13.467/17. A INTERPRETAÇÃO SISTEMÁTICA DOS ARTIGOS 195, I E 201, CAPUT E § 11, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL REVELA QUE A CONTRIBUIÇÃO SOCIAL INCIDE SOBRE OS GANHOS HABITUAIS, A QUALQUER TÍTULO, PARA SE PRESERVAR O EQUILÍBRIO FINANCEIRO E ATUARIAL DO RGPS - REGIME GERAL DA PREVIDÊNCIA SOCIAL COM IGUAL RAZÃO, A INTERPRETAÇÃO DO ART. 457, § 2º, DA CLT, EM CONFORMIDADE COM A CONSTITUIÇÃO, DENOTA QUE NÃO IMPORTA O TÍTULO ATRIBUÍDO PELO EMPREGADOR À PARCELA, PORQUANTO, PARA TER NATUREZA JURÍDICA SALARIAL, BASTA QUE ELA SEJA HABITUAL E DECORRENTE DO TRABALHO PRESTADO POR CONTA ALHEIA, SENDO MERAMENTE EXEMPLIFICATIVO O ROL DO § 1º E ADMITINDO-SE OUTRAS PARCELAS SALARIAIS, TAIS COMO ADICIONAIS, IMPORTÂNCIAS VARIÁVEIS E GRATIFICAÇÕES LEGAIS E CONVENCIONAIS. A NÃO INTEGRAÇÃO NA REMUNERAÇÃO DAS PARCELAS RELACIONADAS NO ART. 457, §§ 2º E 4º, DA CLT DEPENDE DE QUE EFETIVAMENTE SIRVAM A PROPICIAR CONDIÇÕES PARA REALIZAÇÃO DO TRABALHO OU SE RETIRAM A SITUAÇÕES EXCEPCIONAIS AO COTIDIANO DA RELAÇÃO DE EMPREGO. 2. PRÊMIOS. NECESSÁRIA VINCULAÇÃO A DESEMPENHO PROFISSIONAL DIFERENCIADO. A CONCESSÃO HABITUAL DE PRÊMIOS, DESVINCULADA DO REQUISITO DE DESEMPENHO PROFISSIONAL SUPERIOR AO ORDINARIAMENTE ESPERADO (ART. 457, §4º, DA CLT), CONSTITUI FRAUDE (ART. 9º, CLT), INTEGRANDO A REMUNERAÇÃO DO EMPREGADO A PARCELA PAGA FORA DOS PRECEITOS LEGAIS”.

    h) Art. 510-E

    Garante o art. 510-E:

    “A comissão de representantes dos empregados não substituirá a função do sindicato de defender os direitos e os interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas, hipótese em que será obrigatória a participação dos sindicatos em negociações coletivas de trabalho, nos termos dos incisos III e VI do caput do art. 8º da Constituição."

    A fragilização da atuação sindical, no entanto, se extrai do conjunto da “reforma” e o fato da MP dizer isso não altera em nada a realidade que a Lei nº 13.467/17 pretende implementar.
    Depois da Lei nº 13.467/17 praticamente destruir os sindicatos, a MP 808 vem e diz que a participação dos sindicatos está garantida. Ora, pois...

    i) Art. 611-A

    No artigo art. 611-A, ao dispor que “A convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho, observados os incisos III e VI do caput do art. 8º da Constituição, têm prevalência sobre a lei quando, entre outros, dispuserem sobre”, a MP 808 tenta dar uma “força” para os sindicatos, mas o faz, apenas, retoricamente, como se texto de lei fosse local apropriado para isso. Ora, no aspecto específico das fontes de recursos dos sindicatos nada se tratou e, simplesmente, dizer que “ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas” (III) e que “é obrigatória a participação dos sindicatos nas negociações coletivas de trabalho (VI), não altera a realidade que se antevê da aplicação concreta da Lei nº 13.467/17 e, agora, também da MP 808/17.

    O inciso XII desse artigo que, na Lei nº 13.467/17, se expressava de forma restrita “enquadramento do grau de insalubridade”, foi alterado para: “enquadramento do grau de insalubridade e prorrogação de jornada em locais insalubres, incluída a possibilidade de contratação de perícia, afastada a licença prévia das autoridades competentes do Ministério do Trabalho, desde que respeitadas, na integralidade, as normas de saúde, higiene e segurança do trabalho previstas em lei ou em normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho”.

    Se quis, pela MP, abranger todas as possibilidades jurídicas que a expressão restrita deixava em aberto, mas, mesmo assim, não se conseguiu.

    O enquadramento não significa negação da existência da insalubridade. Lembre-se que art. 191 da CLT estabelece que a "eliminação ou a neutralização da insalubridade ocorrerá: I - com a adoção de medidas que conservem o ambiente de trabalho dentro dos limites de tolerância; ou II - com a utilização de equipamentos de proteção individual ao trabalhador, que diminuam a intensidade do agente agressivo a limites de tolerância”.

    Não se esqueça que o inciso XXIII do art. 7º da CF estipulou como direito dos trabalhadores, “adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei”.

    De todo modo, o enquadramento deve possuir alguma base técnica, não podendo ser arbitrário, já que o art. 189 da CLT dispõe que "serão consideradas atividades ou operações insalubres aquelas que, por sua natureza, condições ou métodos de trabalho, exponham os empregados a agentes nocivos à saúde, acima dos limites de tolerância fixados em razão da natureza e da intensidade do agente e do tempo de exposição aos seus efeitos”, e o art. 190 estipulou que “O Ministério do Trabalho aprovará o quadro das atividades e operações insalubres e adotará normas sobre os critérios de caracterização da insalubridade, os limites de tolerância aos agentes agressivos, meios de proteção e o tempo máximo de exposição do empregado a esses agentes”. Previu, ainda que “As normas referidas neste artigo incluirão medidas de proteção do organismo do trabalhador nas operações que produzem aerodispersóides tóxicos, irritantes, alérgicos ou incômodos” (parágrafo único do mesmo artigo).

    Não se trata, pois, apenas de uma questão financeira e os parâmetros técnicos foram fixados na Portaria 3.214/78 e seus Anexos.

    Assim, somente por uma razão técnica que justifique a fixação a respeito fora dos parâmetros legais, para uma melhor proteção da saúde, se poderá considerar válida a cláusula normativa a respeito.

    Portanto, a norma coletiva, para ter validade, terá que aliar a previsão acerca do adicional devido com prova técnica que demonstre seja tal adicional efetivamente adequado para afrontar o dano causado ao trabalhador. Do contrário, certamente deverá ser observado o art. 192: "O exercício de trabalho em condições insalubres, acima dos limites de tolerância estabelecidos pelo Ministério do Trabalho, assegura a percepção de adicional respectivamente de 40% (quarenta por cento), 20% (vinte por cento) e 10% (dez por cento) do salário-mínimo da região, segundo se classifiquem nos graus máximo, médio e mínimo”, bem como a previsão do art. 195, no sentido de que a "caracterização e a classificação da insalubridade e da periculosidade, segundo as normas do Ministério do Trabalho, far-se-ão através de perícia a cargo de Médico do Trabalho ou Engenheiro do Trabalho, registrados no Ministério do Trabalho".

    No § 5º, que dizia, “Os sindicatos subscritores de convenção coletiva ou de acordo coletivo de trabalho deverão participar, como litisconsortes necessários, em ação individual ou coletiva, que tenha como objeto a anulação de cláusulas desses instrumentos”, tentou-se superar os impedimentos interpretativos que se vinham construindo para evitar sua aplicação e, então, se estabeleceu: “Os sindicatos subscritores de convenção coletiva ou de acordo coletivo de trabalho participarão, como litisconsortes necessários, em ação coletiva que tenha como objeto a anulação de cláusulas desses instrumentos, vedada a apreciação por ação individual." – grifou-se.

    O autor da MP, no entanto, não leu direito os termos das críticas e não conseguiu seu intento de empurrar goela abaixo da prática processual trabalhista essa fórmula processual absurda que tenta obstar o acesso à ordem jurídica justa.

    Destaque-se, primeiramente, que se trata de norma processual e não poderia ser tratada em Medida Provisória.

    Em segundo lugar, cumpre verificar que ainda se está cuidando de ação anulatória, não tendo incidência, pois, nas reclamações trabalhistas nas quais o reclamante questiona a aplicabilidade da cláusula, contrapondo-a à norma legal. Neste caso, tecnicamente, o que se verifica é um conflito de normas, podendo o juiz aplicar uma em detrimento da outra, sem a necessidade de declara a nulidade daquela que afastou, não tendo, pois, incidência o § 5º do art. 611-A.

    j) Art. 911-A

    A MP 808 criou mais um artigo na CLT, o 911-A, com o seguinte teor:

    "Art. 911-A. O empregador efetuará o recolhimento das contribuições previdenciárias próprias e do trabalhador e o depósito do FGTS com base nos valores pagos no período mensal e fornecerá ao empregado comprovante do cumprimento dessas obrigações.
    § 1º Os segurados enquadrados como empregados que, no somatório de remunerações auferidas de um ou mais empregadores no período de um mês, independentemente do tipo de contrato de trabalho, receberem remuneração inferior ao salário mínimo mensal, poderão recolher ao Regime Geral de Previdência Social a diferença entre a remuneração recebida e o valor do salário mínimo mensal, em que incidirá a mesma alíquota aplicada à contribuição do trabalhador retida pelo empregador.
    § 2º Na hipótese de não ser feito o recolhimento complementar previsto no § 1º, o mês em que a remuneração total recebida pelo segurado de um ou mais empregadores for menor que o salário mínimo mensal não será considerado para fins de aquisição e manutenção de qualidade de segurado do Regime Geral de Previdência Social nem para cumprimento dos períodos de carência para concessão dos benefícios previdenciários."

    O § 1º é, por assim dizer, uma obra fantástica. Primeiro, assume como regular o recebimento mensal de salário inferior ao salário mínimo, atingindo, inclusive, e até, principalmente, o trabalho intermitente, ainda que não referido expressamente.

    O interessante é que no dia da votação no Senado do PLC 38/17, que deu origem à Lei nº 13.467/17, os Senadores e Senadoras, que defenderam a reforma, disseram, expressamente, que era ridícula a argumentação contra o trabalho intermitente, no aspecto de que os trabalhadores receberiam menos que um salário mínimo porque isso não iria acontecer. Neste aspecto, valeria, inclusive, uma anulação do processo legislativo, pelos próprios Senadores, afirmando que foram enganados, sob pena de terem que assumir, publicamente, que mentiram para a polução brasileira.

    O curioso é que quando se recusou, na própria MP 808, aos trabalhadores intermitentes, o seguro-desemprego, praticamente se negou a sua condição de empregados e, agora, quando já se começa a entender que a generalização do trabalho intermitente vai destruir a Previdência Social, considera-se o intermitente como segurado empregado, tentando estimulá-lo a contribuir, de forma facultativa, com a Previdência Social, mas de forma um tanto quanto ineficaz. Primeiro, porque se o trabalhador recebe menos que o salário mínimo não terá a menor condição financeira de ainda dispor de parte de seu ganho para contribuir com a Previdência. Segundo, porque a Constituição garante ao segurado o recebimento de benefícios previdenciários pelo valor do salário mínimo (art. 201, § 2º da CF).

    Assim, adotado o parâmetro jurídico irresponsavelmente trazido pela Lei nº 13.467/17 e pela MP 808/17, o cálculo atuarial não iria bater, mas a culpa não é do trabalhador.

    Percebendo isso, o “regulador” da MP se vendo entre ficar para a história como quem levou a Previdência Social à bancarrota em uma única cartada e impor mais um sacrifício aos trabalhadores não teve a menor dúvida e expressou uma pena de morte aos trabalhadores, que é que representa o § 2º do art. 911-A.

    No § 1º se disse que a complementação é facultativa, mas, no § 2º, deixa-se claro que a não complementação exclui o trabalhador da condição de segurado, não adquirindo benefícios e perdendo carências, e o faz, inclusive, desconsiderando a contribuição parcial já efetuada pelo trabalhador.

    Concretamente, a MP realiza um estelionato institucional contra os trabalhadores intermitentes, que se tipifica, também, como uma apropriação indébita.

    Em nome de superávit e da tal recuperação econômica, seria melhor logo que o governo mandasse matar milhões de pessoas. Mas, de uma forma indireta e, de fato, nem tão indireta assim, foi o que fez!

    l) Regra de temporariedade

    Diz o art. 2º da MP: “O disposto na Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017, se aplica, na integralidade, aos contratos de trabalho vigentes”.

    A previsão, no entanto, não pode ir ao ponto de contrariar o artigo 5o, XXXVI, da Constituição: “a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada”; ou de negar vigência ao artigo 6º do Decreto-lei nº 4.657/42, Lei de Introdução às normas do Direito brasileiro, que explicita o direito fundamental, estabelecendo que: “A Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada”.

    Lembre-se que no § 2º do mesmo art. 6o, esclarece-se: “Consideram-se adquiridos assim os direitos que o seu titular, ou alguém por êle, possa exercer, como aquêles cujo comêço do exercício tenha têrmo pré-fixo, ou condição pré-estabelecida inalterável, a arbítrio de outrem”.
    Não se olvidem, ainda, as regras do art. 9º da CLT (“Serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação”) e do art. 468 da CLT (“Nos contratos individuais de trabalho só é lícita a alteração das respectivas condições por mútuo consentimento, e ainda assim desde que não resultem, direta ou indiretamente, prejuízos ao empregado, sob pena de nulidade da cláusula infringente desta garantia”).

    São Paulo/Porto Alegre, 15 de novembro de 2017 (dia da República, que um dia há de vir)

    [i]. http://www.jb.com.br/pais/noticias/2017/11/13/negros-ganham-metade-da-renda-de-brancos-e-igualdade-levara-mais-de-70-anos-aponta-oxfam/
    [ii]. De fato, o art. 3º da MP revogou o § 4º do art. 452-A, que previa a multa em questão (nota de rodapé inserida em 16/11/17).

    ​Por Jorge Luiz Souto Maior e Valdete Souto Severo. Imagem: Maurits Cornelis Escher

  • "A Lei n. 13.467/17 (reforma trabalhista) criou mais de duzentas fórmulas voltadas ao fortalecimento do poder econômico das grandes empresas, tornando ainda mais vulneráveis os trabalhadores, suas organizações sindicais e as instituições estatais voltadas à regulação social", afirmou o juiz Jorge Luiz Souto Maior, em sua cerimônia de posse como desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 15a região, na segunda-feira (17), em Campinas.

    Souto Maior fez um longo discurso com duras críticas à "reforma" trabalhista, que classificou como "altamente regressiva" para toda a sociedade brasileira. Ele desconstruiu a lei sob todos os pontos de vista: jurídico, econômico, social e trabalhista. Não deixou pedra sobre pedra.

    Vale à pena a leitura do texto, que traz fundamentos preciosos para compreender como a nova lei vai contra tudo que já se fez no país pela construção de uma rede de garantias trabalhistas e de bem estar social mínima.

    Leia abaixo o discurso na íntegra: 

    I-

    Inicio a minha fala, deixando claro que estou extremamente feliz com tudo isso: a promoção; a forma generosa e amigável pela qual estou sendo recebido aqui no Tribunal, e, também, com esse evento maravilhoso, com a presença de tantas pessoas queridas.

    Confesso que sonhei acordado, milhares de vezes, com esse momento – afinal, a antiguidade, pelo bem ou pelo mal, chega – e toda vez ficava imaginando o que dizer. Imaginei muitas falas. Colhi frases de efeito. Até que me veio à mente a conclusão inevitável: a de que eu deveria, simplesmente, dizer o óbvio; não me fazer passar pelo que não sou; e falar de modo específico desse momento, de todos nós, de nossas vidas...

    Nesse aspecto, embora seja óbvio, é preciso reafirmar que essa não é uma conquista pessoal, individual. E isso não é uma retórica, pois vejo aqui, de forma explícita, representados, todos os momentos da minha vida, em que as pessoas, muitas que aqui estão, foram tentando me transmitir valores e ensinamentos, moldando e constituindo a minha condição humana. 

    IV-

    Foi em Pouso Alegre, também, onde me formei na prestigiosa Faculdade de Direito do Sul de Minas, que tive a honra de ser aluno de Luiz Otávio Linhares Renault, Marçal Etienne Arreguy e Márcio Túlio Viana, que me conduziram ao mundo enigmático e fascinante do Direito, e, em especial, do Direito do Trabalho. Obrigado, mestres! E, em especial ao Márcio Túlio Viana, aqui presente, que abriu um caminho para tantos que, como eu, tiveram a sabedoria de seguir.

    Fui para São Paulo em 1989, prosseguindo os estudos sobre o Direito do Trabalho. Ingressei, por concurso público na magistratura trabalhista, em 1993. E, também por concurso público, passei a exercer a função de professor na Faculdade de Direito da USP, em 2002.

    Desde 1989, me deparei com uma gama enorme de novos mestres, amigos, amigas, companheiros, companheiras e colegas, os quais se somaram à história da constituição do meu ser.

    E os vejo todos aqui. Novos amigos do futebol e da pizza; colegas de trabalho e parceiros: juízes, juízas, desembargadores, desembargadoras, procuradores e procuradoras do trabalho; advogados e advogadas trabalhistas; professores e professoras; servidores e servidoras da Justiça do Trabalho; trabalhadores e trabalhadoras da Universidade de São Paulo; trabalhadoras e trabalhadores terceirizados...
     
    V-

    O curioso dessa história é que essa nossa geração, nascida na década de 60, e que até ficou conhecida como “geração coca-cola”, vez que foi formada sem maiores preocupações políticas, desenvolveu um modo de ser muito peculiar de ser, baseado na dependência de inter-relações pessoais, de círculos de amizade, de apoios e de incentivos recíprocos.

    Isso permitiu o fortalecimento, pelo exercício cotidiano, de sentimentos como a da solidariedade, da confiança, da tolerância e da alteridade. São esses valores, aliás, que fazem com que tantas pessoas se sintam verdadeiramente felizes com esse momento, que também diz respeito às suas próprias vidas.
     
    VI-

    Essa energia canalizada em direção de um novo pacto de solidariedade social eclode na década de 80 e vai se consolidar nos termos da Constituição da República, em 05 de outubro de 1988.

    Ocorre que, coincidentemente, 1989, foi também o ano em que o neoliberalismo avança sem freios sobre o Brasil, colocando sob intenso ataque não só esses valores humanos como todo o projeto social e econômico que fora constitucionalizado.

    Na Constituição de 1988, não por acaso, se estabeleceram limites ao poder econômico para que fossem atendidos os ditames da justiça social (art. 170 da CF), a função social da propriedade (art. 5º, XXIII, da CF), a preservação da dignidade humana (art. 1º, III, da CF), os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa (art. 1º, IV, da CF), vislumbrando a prevalência dos Direitos Humanos (art. 4º, II, da CF) e a melhoria da condição social dos trabalhadores (art. 7º, I, da CF).
     
    VII-

    Mas é claro que só mesmo nas mentes de pessoas tão desavisadas como nós éramos é que se podia imaginar que bastariam esses laços de amizade e essa empolgação democrática e humanista para consagrar um Estado Social no Brasil.

    Movidos pela emoção, desconsideramos que ainda carregávamos uma base social, política e econômica forjada por um convívio de quase 400 anos com a escravidão, e, também, por uma experiência frustrada pertinente à formalização incompleta de direitos sociais, seguida de um longo período de desmonte desses mesmos direitos.

    A Constituição da República de 1988, quebrando um roteiro de 488 anos, refletiu um anseio de milhões de pessoas, mas que não estava completamente assumido por todos, sobretudo no que se refere aos projetos da “melhoria da condição social dos trabalhadores” (art. 7º) e dos objetivos de “I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional;  III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.” (art. 3º).

    Lembre-se que o ano de 1988 foi marcado por forte repressão aos movimentos sociais, com mais de 50 pessoas ligadas às causas trabalhistas assassinadas[i] e a mera declaração formal dos preceitos fixados na Constituição, por si, não alterou o rumo das coisas, tanto que, em dezembro de 1988, o líder sindical e ecologista, Chico Mendes, foi assassinado. Além disso, no dia 9 de novembro de 1988, uma greve em Volta Redonda foi fortemente reprimida; como se deu, anos depois, em 1995, na greve dos petroleiros.
     
    VIII-

    O fato é que de 1989 em diante o que se viu foi uma recorrente destruição da Constituição, mas que, por outro lado, foi rivalizada por uma intensa “luta” jurídica que procurava fazer valer, em concreto, os preceitos sociais fixados na Constituição da República.

    Tem sido marcante a atuação neste sentido do Ministério Público do Trabalho, da Justiça do Trabalho, do Ministério do Trabalho e da advocacia trabalhista e não é por acaso, portanto, que essas mesmas instituições e as pessoas que as integram têm sido alvo de tantos ataques midiáticos – o que ocorreu, de forma mais intensa, desde 2016, mas que se deu, igualmente, na década de 90 e nos anos de 2008 e 2009.

    E quando a gente reflete sobre qual seria a razão desses ataques, a resposta é um tanto quanto reveladora e entristecedora: a constatação é que o “problema” se deu porque essas instituições, que, paradoxalmente, tiveram suas estruturas reforçadas a partir da década de 90,  procuraram cumprir a sua função institucional de efetivar os preceitos jurídicos constitucionais trabalhistas.

    A fiscalização do trabalho no meio rural, por exemplo, somente passou a ser prevista formalmente em 1994, com a edição da Instrução Normativa n. 24, e se iniciou, de fato, em 1995, com a criação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, do Ministério do Trabalho, com o objetivo de averiguar as denúncias de trabalho escravo e isso só ocorreu depois, em 1993, a OIT, havia divulgado um relatório que trazia dados relativos a 8.986 denúncias de trabalho escravo no Brasil.

    Mas a presença fiscalizatória do Estado no trabalho rural não foi muito bem recebida nas estruturais arcaicas do poder e isso motivou, em 28 de janeiro de 2004, o assassinato de três auditores fiscais e de um motorista, servidor do Ministério do Trabalho, em Unaí/MG. Não por acaso, a data de 28 de janeiro passou a ser “Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo”.

    De todo modo, muitos têm sido os profissionais abnegados no exercício do seu mister neste sentido da defesa dos direitos sociais no Brasil, que seria impossível fazer menção a todos, como seriam, também, graves as omissões. Ainda assim, não posso deixar de citar dois desses nomes, que estão aqui entre nós hoje: o Desembargador da 10ª Região, Grijalbo Fernandes Coutinho; e a juíza do trabalho da 4ª Região, Valdete Souto Severo, que, com sua inteligência e perseverança, nos impulsionam e não nos deixam desistir.
     
    IX-

    E quando, motivado pelas reflexões que este momento me traz, passo em revista o que foi a minha vida na Justiça do Trabalho desde 1993, consigo entender bem todo esse processo histórico.

    Outro dia, falava com a Giovanna a respeito. De fato, estávamos comemorando a promoção, mas a frase que sobreveio foi: “não precisava ter sido tão sofrido”.

    Foram, certamente, como estou destacando, muitos momentos felizes, de formação de vínculos sólidos e sadios de amizade. As audiências na 3ª Vara do Trabalho de Jundiaí, onde atuei durante 20 anos, eram, na enorme maioria das vezes, agradáveis, como era agradável o convívio, na secretaria da Vara ou fora dali, com os servidores e servidoras. Momentos engraçados para contar não faltam... Mas o que ficou mais marcado é a sensação de se ter implementado uma luta diária para conseguir fazer valer, em concreto, a ordem jurídica trabalhista, como se isso constituísse um ato ilícito.

    Quantas não foram as vezes em que recusei a homologar um acordo porque o valor apresentado não era suficiente sequer para pagar as verbas rescisórias incontroversas, o que representava, portanto, renúncia a direito de ordem pública, dada a repercussão inclusive na ordem econômica, que essa renúncia poderia provocar, e as partes se voltaram contra mim, como se eu estivesse cometendo um ato ilícito?!

    Ou quando recusava aceitar uma discriminação, em acordo, de parcelas unicamente com natureza indenizatória, vez que isso representava um atentado ao custeio da seguridade social, e olhares se voltavam contra mim como se eu estivesse agindo errado.

    Inúmeros momentos reforçam essa sensação, como, por exemplo, a situação vivida, em meados dos anos 2000, quando, por diversos motivos, a secretaria da 3ª Vara de Jundiaí, onde eu atuava, restou reduzida ao número de 4 servidores apenas (num total ideal de 12). Para auxiliar, eu fazia audiências, atendia balcão e despachava os processos a mão. Em um dia, quando vi 2.000 processos espalhados no chão da Vara, esperando andamento, eu me sentei em cima de uma pilha e chorei, ao mesmo tempo em que ia pegando, um a um, os processos e dando o encaminhamento.

    Vários foram os mutirões, nos quais os servidores se desdobraram para colocar os serviços em ordem.

    Tantos foram os juízes e as juízas que passaram na Vara, dentre outros, José Antônio Gomes de Oliveira, Kathleen Mecchi Zarins Stamato, Alessandra Regina Trevisan Lambert, Patrícia Maeda e nosso querido e saudoso Saint-Clair Lima e Silva, que também contribuíram sobremaneira nessas tarefas, especialmente com a realização de um número fora dos padrões de normalidade de audiências e, consequentemente, de sentenças.

    Durante um semestre inteiro, inclusive, me foi imposta a realização de audiências de segunda a sexta-feira, de manhã e de tarde.

    Mas tudo isso – e muito mais, que o tempo me impede de relatar – criou entre os servidores um comprometimento tão grande com os resultados dos nossos trabalhados. Isso se expressou de forma marcante, quando, em um dia, chegando para trabalhar, me deparei com todos os servidores celebrando. O motivo da comemoração era o fato de que um Ministro do STJ havia revogado uma decisão que nos impedia de liberar um valor penhorado para um grande número de reclamantes em um processo. Diante da nova realidade processual, já se adiantaram e confeccionaram os alvarás, que, assim, estavam prontos, esperando apenas minha assinatura (o que fiz, imediatamente, claro).

    O interessante – ou trágico, em certo sentido – é que essas dificuldades, como já dito, advinham de uma forma de atuar em que se buscava, pura e simplesmente, o respeito estrito da lei, na mesma linha de tantos outros colegas já referidos.
     
    X-

    E por que é relevante expressar isso neste instante?

    Para deixar bem claro que essa pessoa que agora toma posse como Desembargador na 15ª Região é a mesma que estava atuando até o começo deste ano na 3ª Vara do Trabalho de Jundiaí e que renova neste ato, publicamente, o compromisso de continuar preservando a autoridade da ordem jurídica trabalhista, o que requer, como determina a base principiológica, história e conceitual do Direito do Trabalho, uma visão de mundo que parta das angústias dos trabalhadores e das trabalhadoras.

    Vi, ao longo da minha vida, muitas pessoas que ao galgarem postos de maior evidência social passaram a adotar postura diversa daquela que manifestavam até então, como se a cada conquista alcançada fosse preciso morrer um pouco e como se a radicalidade estivesse condenada a ficar na periferia.

    Inúmeras vezes ouvi o argumento de que aquele não seria “o momento oportuno” para dizer ou fazer algo, quase sempre acoplado da justificativa de se estar sob uma condição probatória. Mas o que é a vida senão um grande estágio probatório?

    Cheguei até aqui carregado dos ensinamentos e exemplos de todos vocês, mas, claro, formei as minhas compreensões e a minha ideologia e sempre as expressei, respeitando as posições contrárias e me segurando diante das diversidades e até animosidades. Não enganei a ninguém, e não tenho, portanto, porque abandonar meus ideais de mundo.

    Meus compromissos estão fincados no respeito à coerência de toda essa trajetória, que pretende, claro, se renovar a cada dia, com novos e constantes aprendizados.

    Sei que, atuando em um órgão colegiado, devo respeitar – e sempre o fiz – a opinião da maioria, mas isso não me impede de ser eu mesmo e de continuar cumprindo o papel de dar voz, no plano jurídico, aos anseios da classe trabalhadora brasileira, no sentido de reconhecer, declarar e efetivar os seus direitos, historicamente conquistados.

    O que não se trata, portanto, de qualquer tipo de favor, mas do mero cumprimento de um dever funcional.
     
    XI-

    Vejamos, por exemplo, o que se passa, atualmente, com o Direito do Trabalho.

    A grande questão é que não se pode deixar levar pelas necessárias formas do convívio diplomático, relevante no trato institucional, e, com isso, assumir uma postura alheia ao real, porque, antes de tudo, o que está em jogo é a nossa credibilidade e a nossa dignidade enquanto seres humanos, que são também a credibilidade e a dignidades das instituições.

    O fato real e insofismável é que os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras no Brasil foram alvo de uma atuação legislativa altamente regressiva.

    Não houve uma “reforma” trabalhista, como se costuma dizer, pois uma autêntica reforma teria que considerar todos os aspectos da regulação trabalhista, sobretudo os que pudessem contribuir para democratizar as relações de trabalho, favorecer o efetivo diálogo social, minorar as desigualdades econômicas e melhorar a condição social dos trabalhadores, como determina, aliás, o art. 7º da CF. Com isso, uma reforma trabalhista em momento de crise procuraria efetivar a garantia no emprego; favorecer o exercício do direito de greve; e reduzir a jornada de trabalho.

    Lembre-se que os direitos trabalhistas foram consagrados de forma mais efetiva durante o período de maior crise do modelo de sociedade capitalista, no final das grandes guerras mundiais.

    No entanto, a Lei n. 13.467/17 criou mais de duzentas fórmulas voltadas ao fortalecimento do poder econômico das grandes empresas, tornando ainda mais vulneráveis os trabalhadores, suas organizações sindicais e as instituições estatais voltadas à regulação social.

    Isso por si só é fator de aumento do sofrimento e de conflitos no ambiente de trabalho, estimulando, também, a concorrência fratricida entre as empresas.

    Resultado: aumento da precarização; redução concreta de direitos; acumulação ainda maior da riqueza produzida; diminuição do consumo; desemprego e desalento; destruição do projeto constitucional de Estado Social Democrático de Direito.

    Não é por acaso, portanto, que viu nos jornais outro dia a seguinte notícia: "As remessas de lucros e dividendos feitas por empresas estrangeiras com sede no País somaram US$ 5,109 bilhões em agosto, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (23) pelo Banco Central (BC). O resultado representa o maior volume de remessas no mês desde o início da série histórica, iniciada em 1947."[ii]

    Enquanto isso, no Brasil, o que se constata, além do aumento do desemprego e do subemprego, é o aumento da miséria[iii] e, consequentemente, o aumento da desigualdade social[iv], sendo que, precisamente, já se chegou, aqui, no último período, ao resultado de que a renda dos 1% mais ricos foi 36 vezes superior à média dos mais pobres, sendo que nem mesmo esse acúmulo fica no país, já que os ricos aumentaram, de forma recorde, o volume de suas remessas ao exterior[v].

    Além disso, a dita “reforma” reforça toda estrutura histórica de fosso social e de exclusão, de preconceito e de discriminação no Brasil, vez que os mais atingidos pelo desmonte da rede de proteção social são os excluídos de sempre: “Entre os que desistiram de procurar emprego, pretos e pardos são a maioria, representando 73,1% desse contingente. Do total, 23,4% têm entre 18 e 24 anos, e 38,4%, ensino fundamental incompleto.”[vi]
     
    XII-

    Sob o prisma estritamente técnico-jurídico, não se pode mesmo deixar de apontar a ilegitimidade da lei da “reforma” trabalhista.

    Ora, no Estado Democrático de Direito só tem autoridade de lei a regulamentação que emerge da vontade popular, que, nas democracias representativas, se substitui pelas instituições que, pelo voto, atuam no processo legislativo, regulado constitucionalmente.

    A garantia mínima que os cidadãos possuem de que as leis, que vão regular a sua vida em sociedade, reverberarem seus anseios coletiva e democraticamente concebidos, é a de que a elaboração das leis deve respeitar às regras do processo legislativo.

    O vício formal na elaboração de uma lei gera o efeito inevitável da perda de sua legitimidade, que sequer precisa ser declarada judicialmente tal é a gravidade da irregularidade.

    Para quem não sabe, é importante informar que o projeto de lei (PL 6.787), que deu origem ao advento da lei da “reforma”, foi apresentado pelo Poder Executivo ao Congresso Nacional em 23 de dezembro de 2016, como resposta estratégica a uma crise política. Tratava de poucos assuntos, em meros 7 artigos.

    Começou a tramitar efetivamente em 9 de fevereiro de 2017 e em 24 de abril do mesmo ano já estava com relatório final concluído, trazendo mais de 200 alterações na CLT, tratando de todos os assuntos.

    Esse texto final tramitou em regime de urgência na Câmara dos Deputados e no Senado e em 11 de julho de 2017 se tornou, formalmente, uma lei.

    Afora o tempo recorde de tramitação na Câmara (dois meses) e o fato de que o texto final do PL 6.787 não passou por qualquer discussão nas Comissões daquela Casa, não tendo sido, inclusive, alvo de audiências públicas ou diálogo com as entidades representativas de trabalhadores, como preconiza a Convenção 144 da OIT, há um outro aspecto ainda mais grave e insuperável: os Senadores não votaram o texto que lhes foi submetido.

    Aprovaram, isto sim, um texto ainda inexistente. Explico: o relatório final do senador Ricardo Ferraço apontava diversas impropriedades e inconstitucionalidades do projeto de lei, mas remetia ao Presidente da República a tarefa de realizar os acertos, por intermédio da edição de uma Medida Provisória, cujo teor, no entanto, não se tinha.

    O que se votou, portanto, foi um texto com teor desconhecido. Esse fato, de domínio público, é mais que suficiente para afirmar a ilegitimidade da Lei n. 13.467/17.

    A lei foi publicada no Diário Oficial da União em 14 de julho de 2017, com vigência prevista para o dia 11 de novembro do mesmo ano, mas passados quase quatro meses a Medida Provisória não foi editada e, assim, a lei entrou em vigor sem que a tal “correção” tivesse vindo, em clara demonstração, inclusive, de que não era de “pequenos defeitos” que se cuidava.

    A Medida Provisória (MP 808) só veio ao mundo jurídico em 14 de novembro de 2017, promovendo 84 alterações na Lei n. 13.467/17.

    Depois disso, o Congresso Nacional teve quatro meses para aprovar a MP 808, mas não o fez.

    Resultado: em 23 de abril de 2017, como se sabe, a MP 808 caducou.  

    Entre outras razões, isso se deu também porque foram apresentadas 967 emendas à MP. Elas tratavam de diversos assuntos, em nova e inequívoca demonstração da quantidade de problemas jurídicos suscitados pela lei.

    Então, se havia alguma legitimidade no procedimento adotado – o Senado transferir para o presidente da República a atividade legislativa --, o fato concreto é que mesmo esse procedimento não foi cumprido, o que faz da Lei n. 13.467/17 um texto não aprovado por um procedimento legislativo regular, impondo-se reconhecer, por conseguinte, que há  uma impropriedade jurídica em tratá-la como uma lei como outra qualquer.

    Lembre-se que, em atitude de desespero, para tentar salvar a “lei”, foi editada, no âmbito do Ministério do Trabalho, em 23 de maio de 2018, a Portaria n. 349, buscando alterar vários dispositivos da Lei n. 13.467/17.

    Mas, com tal procedimento, só se conseguiu deixar ainda mais nítido o quanto a lei da “reforma” é mal elaborada e de quase impossível aplicação prática, maltratando, na prática, empregados e muitos empregadores e, criando ainda mais obstáculos ao desenvolvimento econômico nacional, para regozijo do capital financeiro internacional.
     
    XIII-

    E mesmo do ponto de vista econômico a insistência com a Lei n. 13.467/17 é um grave equívoco, a não ser se tiver como interesse apenas os efeitos imediatos de grandes empresas que se sustentam com capital estrangeiro e comercializam seus produtos em outros países, isso porque a lei, além de diminuir o potencial consumidor dos trabalhadores, ainda gera enormes inseguranças jurídicas.

    - A lei:
     
    1) tenta diminuir o alcance do grupo econômico, mas o amplia;
     
    “Art. 2o  ................................................................
    ..................................................................................... 
    § 2o  Sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma delas, personalidade jurídica própria, estiverem sob a direção, controle ou administração de outra, ou ainda quando, mesmo guardando cada uma sua autonomia, integrem grupo econômico, serão responsáveis solidariamente pelas obrigações decorrentes da relação de emprego. 
    § 3o Não caracteriza grupo econômico a mera identidade de sócios, sendo necessárias, para a configuração do grupo, a demonstração do interesse integrado, a efetiva comunhão de interesses e a atuação conjunta das empresas dele integrantes.”
     
    2) tenta acabar com a hora “in itinere”, mas, concretamente, não o faz;
     
    “Art. 4o  ................................................................ 
    § 1º  Computar-se-ão, na contagem de tempo de serviço, para efeito de indenização e estabilidade, os períodos em que o empregado estiver afastado do trabalho prestando serviço militar e por motivo de acidente do trabalho.”
     
    3) tenta fazer com que o negociado prevaleça sobre o negociado, mas concretamente, não o faz;
     
    “Art. 8o  ................................................................. 
    § 3o  No exame de convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho, a Justiça do Trabalho analisará exclusivamente a conformidade dos elementos essenciais do negócio jurídico, respeitado o disposto no art. 104 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), e balizará sua atuação pelo princípio da intervenção mínima na autonomia da vontade coletiva.”
     
    4) tenta regular o trabalho intermitente, para o alastra de tal modo que o torno inaplicável como dispositivo para um trabalho essencial intermitente;
     
    “Art. 443.  O contrato individual de trabalho poderá ser acordado tácita ou expressamente, verbalmente ou por escrito, por prazo determinado ou indeterminado, ou para prestação de trabalho intermitente.
    .................................................................................... 
    § 3o  Considera-se como intermitente o contrato de trabalho no qual a prestação de serviços, com subordinação, não é contínua, ocorrendo com alternância de períodos de prestação de serviços e de inatividade, determinados em horas, dias ou meses, independentemente do tipo de atividade do empregado e do empregador, exceto para os aeronautas, regidos por legislação própria.”
     
    5) tenta criar o trabalhador autônomo exclusivo e, de forma contraditória, o empregado, intermitente e não exclusivo;
     
    “Art. 442-B.  A contratação do autônomo, cumpridas por este todas as formalidades legais, com ou sem exclusividade, de forma contínua ou não, afasta a qualidade de empregado prevista no art. 3o desta Consolidação.”  
     
    6) tenta dizer que limitação da jornada não é questão ligada a saúde e segurança do trabalho;
     
    “Art. 611-B.  Constituem objeto ilícito de convenção coletiva ou de acordo coletivo de trabalho, exclusivamente, a supressão ou a redução dos seguintes direitos:
    Parágrafo único.  Regras sobre duração do trabalho e intervalos não são consideradas como normas de saúde, higiene e segurança do trabalho para os fins do disposto neste artigo.” 
     
    7) tenta criar acordo individual, inclusive tácito, para compensação de jornada, ao mesmo tempo que remete aos requisitos Constitucionais, que não admite tal possibilidade;
     
    Art. 59.  A duração diária do trabalho poderá ser acrescida de horas extras, em número não excedente de duas, por acordo individual, convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho. 
    (...)
    § 5º  O banco de horas de que trata o § 2o deste artigo poderá ser pactuado por acordo individual escrito, desde que a compensação ocorra no período máximo de seis meses.
    § 6o  É lícito o regime de compensação de jornada estabelecido por acordo individual, tácito ou escrito, para a compensação no mesmo mês.” (NR)
    Art. 59-A.  Em exceção ao disposto no art. 59 desta Consolidação, é facultado às partes, mediante acordo individual escrito, convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho, estabelecer horário de trabalho de doze horas seguidas por trinta e seis horas ininterruptas de descanso, observados ou indenizados os intervalos para repouso e alimentação.”
    “Art. 611-A.  A convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho têm prevalência sobre a lei quando, entre outros, dispuserem sobre: 
    I - pacto quanto à jornada de trabalho, observados os limites constitucionais;”
     
    8) tenta ampliar ao máximo a terceirização, mas, com isso, por preceito de ordem lógica, elimina a terceirização enquanto um instituto jurídico específico;
     
    “Art. 2o  A Lei no 6.019, de 3 de janeiro de 1974, passa a vigorar com as seguintes alterações:
    “Art. 4o-A.  Considera-se prestação de serviços a terceiros a transferência feita pela contratante da execução de quaisquer de suas atividades, inclusive sua atividade principal, à pessoa jurídica de direito privado prestadora de serviços que possua capacidade econômica compatível com a sua execução.”
     
    9) tenta dificultar a elaboração da petição inicial, mas, concretamente, não o faz;
     
    “Art. 840.  ..............................................................
    § 1o  Sendo escrita, a reclamação deverá conter a designação do juízo, a qualificação das partes, a breve exposição dos fatos de que resulte o dissídio, o pedido, que deverá ser certo, determinado e com indicação de seu valor, a data e a assinatura do reclamante ou de seu representante.”
     
    10) tenta limitar a concessão da assistência gratuita, mas não consegue;
     
    “Art. 790.  .............................................................
    .....................................................................................
    § 3o  É facultado aos juízes, órgãos julgadores e presidentes dos tribunais do trabalho de qualquer instância conceder, a requerimento ou de ofício, o benefício da justiça gratuita, inclusive quanto a traslados e instrumentos, àqueles que perceberem salário igual ou inferior a 40% (quarenta por cento) do limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social.
    § 4o  O benefício da justiça gratuita será concedido à parte que comprovar insuficiência de recursos para o pagamento das custas do processo.”
     
    11) tenta criar a assistência gratuita onerosa, mas o faz de forma tão grotesca que é impossível reconhecer validade jurídica a tal preceito.
     
    “Art. 791-A......
    (...)
    § 4o  Vencido o beneficiário da justiça gratuita, desde que não tenha obtido em juízo, ainda que em outro processo, créditos capazes de suportar a despesa, as obrigações decorrentes de sua sucumbência ficarão sob condição suspensiva de exigibilidade e somente poderão ser executadas se, nos dois anos subsequentes ao trânsito em julgado da decisão que as certificou, o credor demonstrar que deixou de existir a situação de insuficiência de recursos que justificou a concessão de gratuidade, extinguindo-se, passado esse prazo, tais obrigações do beneficiário.”
     
    XIV-

    Como se vê, a lei nos conduz a uma autêntica balbúrdia jurídica e talvez esse seja um efeito programado, para, pervertendo os fatos, abalar a credibilidade das instituições que se vejam com a tarefa irrealizável de conferir alguma coerência e previsibilidade aos dispositivos da “reforma”.

    Vejamos de forma mais específica a questão da terceirização, que, inclusive, foi alvo de decisão recente do Supremo Tribunal Federal.

    As Leis ns. 13.429/17 e 13.467/17, pelas quais se pretendia ampliar de forma irrestrita a terceirização, não disseram isso explicitamente. As duas leis, aliás, não trazem a palavra terceirização. Tratam de “transferência de atividade”, que pode ser entendida como divisão do processo produtivo, ou subcontratação produtiva, que nada tem a ver com mera intermediação de mão-de-obra, que é rechaçada pela OIT desde os primórdios do Direito do Trabalho.

    A recente decisão do STF, cujo teor ainda não se conhece por inteiro, traz o termo terceirização, mas não define o instituto. Diz que pode haver contrato livre entre as empresas. Mas isso sempre foi possível. E relação de emprego é instituto jurídico que transcende os contratos, seguindo os padrões dos arts. 2º e 3º da CLT, que não foram revogados (aliás, tiveram sua aplicação ampliada), cujo reconhecimento, inclusive, não gera invalidação dos contratos formulados.

    O STF, claramente, se apressou para abrir espaço à ampliação da terceirização, mas para fazê-lo criou complicadores jurídicos ainda maiores. Reparem que a decisão do STF foi proferida no âmbito de uma ação em que se discutiam os termos da Súmula 331 do TST, mas depois da propositura dessa ação advieram as leis antes referidas e a decisão do STF chega a contrariar até mesmo os termos legais.

    Mas a questão mais grave neste tema, como de resto se verifica em toda a “reforma”, é a forma como se procura emplacar as supostas novidades jurídicas. Atendendo a esse propósito, dois direcionamentos se destacam: a) o revisionismo histórico; b) e a perversão de valores.

    No primeiro, faz-se vistas grossas de toda a história de sofrimento da classe trabalhadora no Brasil, a qual somente passa a ter direitos formalmente consagrados, de maneira generalizada, em 1930, mas que jamais foram envolvidos em uma política institucional eficaz de efetivação. Lembre-se que no meio rural a legislação trabalhista como um todo somente foi aplicável a partir de 1988 e com atuação fiscalizatória institucionalizada apenas em 1995.

    Com isso, além de alterar a realidade histórica, fazendo transparecer que os trabalhadores brasileiros são privilegiados, quando, de fato, são superexplorados, jurídica e economicamente, ainda se abandona qualquer tipo de análise dos problemas reais do país no que tange à desigualdade social e à evasão de divisas.

    No segundo, que é uma consequência do primeiro, procura-se transformar os trabalhadores em culpados pela crise econômica e busca-se conduzir para os trabalhadores, por meio da redução de seus direitos, a responsabilidade de salvar o país da crise e de melhorar a vida dos excluídos, como se estes não fossem uma fração da classe trabalhadora e como se a exclusão não fosse, ela própria, um processo histórico fruto da má distribuição da riqueza e da ausência de políticas efetivas de inclusão, notadamente no que se refere à educação pública.

    Com esse desvio de perspectiva, reforça-se uma estrutura que promove ainda maior acumulação de riqueza, sob o argumento de que está tentando resolver o problema da exclusão. Mas, de fato, colocam-se os trabalhadores distribuindo entre si uma parcela ainda menor do PIB nacional. Difunde-se uma fórmula esdrúxula e cínica de distribuição da pobreza, para enfrentar o problema da exclusão, ao mesmo tempo em que se proporciona uma maior acumulação da riqueza produzida.

    Esses dois direcionamentos estão bem claros nos argumentos dos Ministros que votaram a favor da ampliação da terceirização.

    O Ministro Luís Roberto Barroso chegou a dizer que a terceirização é boa para os trabalhadores e a sua convicção neste sentido, contrariando todos os estudos já feitos por diversos profissionais das mais variadas áreas do conhecimento, foi uma conversa que ele teve com um terceirizado em um aeroporto.

    Segundo o Ministro, o terceirizado disse que havia perdido o emprego e a terceirização foi, para ele, a oportunidade para estar novamente empregado e, embora o salário fosse menor, tinha a oportunidade de ter três empregos e assim compensar os ganhos mais baixos.

    Percebam que esse raciocínio, baseado na lógica do mal menor, é o mesmo que justificou, em determinados momentos da história da humanidade, os mais diversos tipos de opressão, inclusive, a própria escravidão negra.

    Mas se quisesse saber mesmo o que representa a terceirização na vida de um trabalhador, o Ministro poderia ter conversado com os trabalhadores que atuam, sob tal condição, no próprio STF, como Valdete e eu fizemos certa vez[vii].

    Saberia, então, que há lá trabalhadores terceirizados trabalhando sem registro em carteira, sem receber verbas rescisórias dos contratos anteriores e trabalhando sem gozar férias há vários anos.
     
    XV-

    E a questão nem é tanto – e que já não é pequena – a da efetivação de direitos. O mais perverso mesmo da terceirização é o processo de invisibilidade. O fato de se trabalhar em local por vários anos, como acontece, em geral, nas repartições públicas, e não ter integração social alguma no respectivo local.

    Para esse evento festivo, fiz convite expresso e pessoal aos trabalhadores terceirizados e às trabalhadoras terceirizadas que atuam no Tribunal, acompanhado de uma entrevista para que melhor pudesse conhecê-los, como conhecia os que trabalhavam no Fórum de Jundiaí, onde exerci a função de diretor, desde 2002.

    A felicidade que demonstravam ao serem convidados constituíram momentos muito bonitos, segundo disseram os servidores do gabinete, que estiveram comigo nesse ato, mas são, ao mesmo tempo, a representação de uma triste realidade que atinge 12 milhões de trabalhadores em todo o país, em todos os tipos de locais de trabalho.

    Vejo alguns deles aqui no auditório. Estejam certos que é uma honra muito grande para mim a presença de vocês.

    E a resposta dada, de forma unânime, a uma das perguntas reflete bem o equívoco do encaminhamento sociológico e jurídico dada à questão pelo STF. Indagados se queriam ser integrados, como trabalhadores efetivos do Tribunal, todos, sem exceção, responderam: SIM.
     
    XVI-

    Há, portanto, várias razões jurídicas, sociais, econômicas e humanas para que aquele ideal de solidariedade e de alteridade desenvolvido e consagrado na Constituição de 1988 seja mantido em pleno vigor.

    Mas essa não é uma tarefa de alguns iluminados, vez que depende da compreensão e da dinâmica populares, ou que se possa, ao meu ver, ser imposta pela força ou pelo ódio.

    É preciso consciência, tolerância, convencimento e, antes de tudo, muita coragem para se permitir adquirir conhecimento e transformar em um novo ser humano.

    Isso não é novidade para ninguém. É o óbvio, bem sei. Mas como já disse o poeta mineiro, Beto Guedes: “Quero te dizer nenhum segredo. Falo desse chão da nossa casa. Vem que tá na hora de arrumar. (...) Vamos precisar de todo mundo, pra banir do mundo a opressão.”
     
    XVII-

    E mesmo que já se tenham verificado muitas baixas dentre aqueles que compunham a geração que conduziu os processos históricos de lutas pela formalização e pela efetivação dos direitos sociais, novas gerações de jovens estudantes, com muito maior vigor, capacidade intelectual e conhecimento, têm reativado esse compromisso e deixado claro, inclusive, que para se chegar a um mundo realmente viável à existência humana é preciso atingir estágios reais de igualdade e de superação de todas as formas de opressão e de alienação da condição humana.

    É por esses ensinamentos que agradeço imensamente a vocês, queridas amigas e queridos amigos, dessas novas gerações e, de modo muito especial, aos parceiros e parceiras do Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital - GPTC, também por me possibilitarem viver o tempo presente.
     
    XVIII-

    Aliás, pensando nisso, lembrando dos intensos ataques midiáticos desferidos contra a Justiça do Trabalho, dentro de uma estratégia deliberada de tentar nos conduzir ao caos social para facilitar o aumento da exploração do trabalho e, com isso, majorar lucros de grandes empresas e do capital especulativo, de modo a minimizar a crise nos países centrais ou simplesmente procurar manter padrões de Estado Social em referidos países, e verificando os efeitos danosos que esses ataques geram, na forma de um autêntico assédio moral coletivo, a tantos profissionais ligados à Justiça do Trabalho, essa que é uma das instituições mais sérias e importantes deste país, nada mais oportuno que uma mensagem de outro mineiro, Carlos Drummond de Andrade:
     
    “Não serei o poeta de um mundo caduco
    Também não cantarei o mundo futuro
    Estou preso à vida e olho meus companheiros
    Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças
    Entre eles, considero a enorme realidade
    O presente é tão grande, não nos afastemos
    Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas
     
    Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
    não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
    não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
    não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
     
    O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”
     
    XIX-

    O que este evento representa, no entanto, é que efetivamente não somos poucos e não somos fracos. Há uma quantidade enorme de pessoas que estão dispostas a levar adiante o projeto de elevação da condição humana em todos os aspectos, com superação da intolerância, das desigualdades sociais e de todas as formas de discriminação, com os necessários recordes de gênero, de raça e de orientação sexual.

    Não há razão, portanto, para que nos deixemos abalar pela desesperança, pelas incertezas e menos ainda, pelo medo do conhecimento ou pelo medo da transformação pessoal.

    No mínimo, é preciso não ter medo de dizer o óbvio, fazendo referência à vida concreta e às pessoas reais, sempre que se tiver a oportunidade da fala.

    Se isso parecer pouco, não é motivo para que não seja feito, pois os sentimentos, que conduzem a grandes ações, brotam da percepção das pequenas coisas.

    ​Então, parem tudo, e vejam:
     
    “Uma flor nasceu na rua!
    Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
    Uma flor ainda desbotada
    ilude a polícia, rompe o asfalto.
     
    Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
    garanto que uma flor nasceu.
    Sua cor não se percebe.
    Suas pétalas não se abrem.
    Seu nome não está nos livros.
    É feia. Mas é realmente uma flor. 
     
    Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
    e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
     
    É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”
     
    Muito obrigado!

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